Para fugir do óbvio, resolvi falar de nós.

De todos os barulhos que existem dentro de mim, o seu é o único capaz de ensurdecer-me, de me fazer ouvir, de organizar toda a confusão, de me bagunçar, de me trazer paz, acalentar minha alma, me confundir, tumultuar minha mente, colocar feição em meu rosto, e me fazer saber como e quando continuar ou parar. Trazendo o pior (e melhor) misto de sentimentos que posso e que já pude sentir.

Involuntária, própria e única. Ótimas definições para nossa relação. Sem medir as conseqüências, e nem os esforços, te uso e te usei todos os dias, desde que descobri e que experimentei a sua existência. Por todos os lugares que passo você está, vocês estão. Na rua, na esquina, na padaria, na televisão, no último livro que comprei e no primeiro também, mas, principalmente, nos meus pensamentos. Parecem não lutar pelo lugar aonde chegam. Simplesmente estão e, quando percebo, já as usei de todas as maneiras possíveis e involuntariamente abusivas.     

Teu alimento diário? Minha mente. Quase a destrói. Procuro a paz e que de uma forma louca e contraditória, só encontro em vocês, palavras. Não vejo problema em dividi-las com ninguém, até porque amo suas formas e quero que possam descobrir assim, como usá-las também. Dominar-te, impossível. Mas tu, ao contrário, usas-me, controlas-me, dominas-me e eu não posso me livrar disso. Não pediram permissão, mas, em meus pensamentos, habitaram.


Uma das minhas primeiras formas de expressão. Desde o ventre de minha mãe, não sabia o que eram, mas sentia que existiam. Logo, os primeiros fonemas começaram a brotar, e quanto mais eu cresço mais as palavras florescem. Ainda não conheci todas elas, mas pelas poucas que sei, reconheço que me sustentam, me movem, me modificam, me enlouquecem, me completam, me desfazem, me refazem e, quando menos esperamos, também se vão.

Julyana Alves

Desinteresse, distância, incerteza;
Por quê os sinto vindos de ti pra mim? 
É sempre assim! Mas não seriam dessa forma as relações humanas?
Pautadas tanto em sentimentos mórbidos e limitados quanto em puros e imensuráveis? 
Não me entenda mal, eu bem sabia que nem tudo seria flores;
Há também desafetos e desamores.

Dou me da melhor maneira que posso
Mas a que custo? 
Custa todo esforço de minha pele e ossos. 
Ao passo de perceber que me limito pra te satisfazer 
Tudo para o seu 'bem me querer' não perder. 
Não quero simplesmente rimar, ou deixar poesia no ar. 
E não há nada de belo em padronizar a forma como se entrega afeto. 
Me deixo, para te deixar feliz. 
E, ainda isso, não é suficiente. Nunca é.

Talvez esteja delirando 
Talvez seja apenas o silêncio
Talvez você só queria ter coberto tudo com um lenço
Mas eu te digo: toda essa incerteza talvez acabe com o resto de ti que restou em mim.

Mas tudo é suportável, 
Até chegar o momento da indiferença.
Sou coercitivamente conduzido para fora de minha existência. 
Existo em ti, no amor que criamos 
E deixá-lo nunca é uma opção
Acaba sendo, literalmente, uma forma de expulsão. 
Agora sei como se sentem as pessoas despejadas:
Acaba o brilhos nos olhos, 
Acaba os abraços ao sorrir, 
Fica apenas uma lembrança do futuro que deixamos de construir.

João Pedro

Prédios. Carros. Transeuntes. Faróis. Olha, o carro da pamonha. Buzinaram. A criança soltou o braço da mãe e atravessou a rua correndo. A velhinha deu milho para os pombos. Caos urbano.

Em meio a essa bagunça, um rapaz atravessava as ruas da cidade. Cabeça baixa, olhos esmaecidos e passos lentos. Ele transitava como quem vai de lugar nenhum para nenhum lugar. Não era como se estivesse cego ou surdo, sem perceber o que o cercava, ele apenas estava alheio, e essa ignorância a respeito do mundo exterior era consciente e provocada, ou melhor, era desejada.

Algumas pessoas recebem a sorte de encontrar algo sublime ao ponto de transcenderem o rotineiro, e, depois disso, fica difícil se envolver com a normalidade da vida. Foi exatamente isso que acontecera com o rapaz. As cores das flores já não chamavam a atenção, as magníficas construções arquitetônicas não passavam de cimento e vidro. Tudo era menor se comparado ao que ele conhecera.

E tudo foi culpa dela, a dona do sorriso que o despedaçou e depois o reconstruiu. Levou-o ao céu em segundos e agora ele estava maravilhado. O brilho daqueles olhos abriu caminho para uma experiência diferente, que outrora a monotonia da existência não o permitira imaginar. Era um novo prisma, por isso as estrelas já não pareciam tão belas e nem a mais excelsa obra de arte conseguia emocioná-lo.


O nosso personagem tinha a imagem dela gravada nas córneas, e os ouvidos dele só escutavam a voz cristalina que invadira os seus sentidos como uma cantiga. Essa música era embalada pelo bate-bate do coração e gerava a melodia mais doce que os seres humanos podem encontrar. 

Jessé Lima

Na vida, passamos por momentos de alegria e de tristeza, os quais nos causam variadas reações, mas o momento que nos cala é o do sofrimento. A dor causa reflexão e é quando percebemos – e valorizamos – as pequenas coisas.

Coisas pequenas, são crianças. Eu, quando criança, gostava de pensar no futuro, na vida adulta e na liberdade que a mesma me proporcionaria: caminhar com os próprios pés. Ainda que com sede de liberdade, nunca pensei sobre partidas. Acreditava que eu teria cada familiar, amigo e entre outros conhecidos sempre comigo. Até que um dia, pouco tempo depois do meu aniversário de dez anos, a realidade bateu em minha porta levando da minha vida uma pessoa. E depois outra. E depois outra. Como em um efeito dominó. A culpa preencheu o espaço vazio. “Se eu tivesse feito tudo direitinho, talvez tivesse acontecido diferente”.  Tolice. Queria ir contra a lei da vida: tudo é finito. Tudo é finito? Não, espera. Tem que ter alguma coisa... Depois de muito desviar de fins, percebi: tenho medo de perdas. Desenvolvi uma estratégia. Comecei a ser boa e generosa. Exageradamente. Dava o meu melhor em tudo, achando que assim as pessoas permaneceriam. Só depois de muito tempo percebi que não tinha controle e que não podia perder ninguém já que a escolha não era, e nem é, minha. 

Mesmo não podendo escolher, sigo sentindo e ouvindo especulações. Dizem, por exemplo, que a perda é dolorosa e que pior que alguém que já partiu é aquele que ainda tem vida, mas não na nossa vida. Será? Se perdemos alguém que morreu não podemos mais nos conectar com essa pessoa, pelo menos não fisicamente. Então, como é que pode isso? Como alguém que ainda respira, mas respira longe de nós, poderia estar mais ausente? Também não sei, talvez nunca saberei, mas sei que por mais abalados que fiquemos com a saída de alguém de nossa vida, se a pessoa ainda pisa no planeta Terra e inspira gás oxigênio, é nosso dever deixar as boas memórias preencherem nosso coração e desejar sempre o bem, para viver em paz.

Eu mesma, que ouso em vir aqui dizer isso, demorei um tanto para entender que não perdemos as pessoas; podemos perder sonhos, objetos, valores – e, ainda assim, tudo isso, de alguma forma, segue conosco porque faz parte de quem somos. Só que as pessoas não, elas são seres individuais que podem, sim, tornar a nossa vida mais feliz, mas não são a causa da nossa felicidade – o motivo da nossa felicidade deve ser nós mesmos.

De tudo que não entendo, acho que entendi que só podemos perder uma pessoa: nós mesmos. Passamos tanto tempo tentando fazer com que as pessoas não saiam de nossa vida, que esquecemos de cuidar de nós. Percorremos um caminho, construímos uma história, criamos e cultivamos laços que vão nos ajudar ao longo dessa estrada, mas não podemos esquecer de semear em nós coisas boas, fazendo de quem somos um jardim bem cultivado. Se isso não acontecer, podemos perder a única real causa da nossa felicidade: o nosso ser individual e singular.



Giselle Santos

Seu sorriso é aquele meio de canto de boca, desconfiado e meio tímido.
O meu é escancarado, sem controle e bobo.


Você diz que não sabe sorrir.
E ao mesmo tempo tem um dos sorrisos mais bonitos e cativantes que já vi.


Quando sorri, sinto vontade de apertar seus lábios contra os meus.
E quando te digo isso, você me oferta o seu melhor sorriso, na intenção de que nossos lábios se encontrem.


Outro dia me disse que quando eu sorrio meus olhos sorriem e brilham.
Mal sabe que o motivo deles brilharem tanto é você.

Finge não saber que esse riso é causado pelo seu olhar penetrante, a analisar cada traço meu.  
E pelo toque da sua mão em cada parte do meu corpo.


O seu olhar é sério, me causa devaneios.
E ali poderia ficar horas te olhando, te admirando.


Já o meu olhar é meio perdido, procura abrigo.
E em meio aos seus abraços encontro esse aconchego.
E ali juntinhos sonhamos e rimos.
Ali unidos como um - proferimos as nossas maiores confissões um ao outro.


É bem ali olhando as luzes que se acendem pouco a pouco ao chegar da noite,
Que concebemos os nossos sonhos. Porque de nada vale sonhar sozinho.


É por essa mesma janela, janela dos sonhos, que enxergamos o nosso futuro.
É nela que nos debruçamos para sentir o ar frio tocar o nosso rosto. É por ela que sentimos o quanto podemos ser infinitos.


É por ela que apreciamos e ansiamos pela liberdade de sermos nos, eu e você, em um mundo que é formado por bilhões de nós.


E assim nos encostamos um no outro porque somos o alicerce.
E de pernas e braços entrelaçados sussurramos as nossas melhores histórias.


Que nos fazem rir.
E ali em meio ao riso, sinto que achei o que procurava.


E que em meio a copos vazios, corações partidos e pessoas indo e vindo, nos encontramos.
Encontramos-nos no melhor riso. Na melhor mesa, com a melhor batata e na melhor noite de céu estrelado.


E ali, naquele instante, em meio a gargalhadas, encontrei alguém que me faria sorrir em meio ao caos que se instalava dentro de mim mesma.


Pena que foi sorriso passageiro.


Evelin Mendes

Você disse que eu não devia chorar

Me falou para a cabeça levantar,
Afinal tinha que me esforçar
Chorar ajuda, mas não é a solução
Eu precisava mesmo era de uma lição

Suas palavras foram duras quando falou
Hoje vejo que isso não importou
Afinal você falava com carinho
De quem se importa em não me ver sozinho

Falou mesmo temendo me magoar
Porque sabia que eu tinha que escutar
Aquelas palavras de repreensão e firmeza
Me atingiram o coração com dureza

No momento eu achei que ia quebrar
Mas entendi onde você queria chegar
O ferro é moldado pela força do martelo do ferreiro
Dor, impacto e sofrimento o tempo inteiro

Mas no fim é obra prima de se ver
Lâmina que tilinta ao bater
Sólida e bela, brilhante e imponente
O ferro foi moldado com a lâmina rente

Outrora um pedaço desconfigurado
Agora é espada de mineral trabalhado
Pronta para cortar o que vier pela frente
Pois a dor é o professor da gente

Nunca vou esquecer das palavras que dividiu comigo
Afinal o único que seria capaz de me marcar, seria você, meu amigo...

Adolfo Rodrigues

Eu tenho medo.

De escuro.
De cobra.
De escorregar no banho e bater a cabeça.
De presenciar um acidente de obra.

Eu tenho medo.

De engasgar e estar sozinho.
Das ressacas não passarem.
De ser confundido com alguém da máfia.
De ter dois filhos e meus pais mimarem.

Eu tenho medo.

De acordar cego.
De tobogãs gigantes.
De nunca mais ter inverno.
De viver o futuro e não lembrar do antes.

Eu tenho medo.

De gente esnobe.
De salada sem sal.
De comer polvo.
De não poder trocar de canal.

Eu tenho medo.

De injustiça.
De paredes mal pintadas.
De conhecer sogro.
De conversas mal acabadas.

Eu tenho medo.

De me perder na floresta.
De não comprar uma bateria.
De ter que pular de um carro em movimento.
De gente que adquire muita idolatria.

Eu tenho medo,
E medos que desse poema vão além. 
Porém, o meu maior medo
É acordar e ver no espelho os medos de outro alguém.

Eduardo Rodrigues