domingo, 21 de maio de 2017

Compromisso

(Fonte: http://notofyourbussines.tumblr.com/)


          Tudo começou no chuvisco. Tenho a impressão de que estou sempre debaixo de chuva. Ou talvez seja eu que esteja sempre com o humor nublado. Como eu dizia, aquela sensação começou com o chuvisco. Aquele tipo de agonia que nem vai embora nem se justifica, e você tem que continuar aturando até passar. Não sai com a água do banho, nem com o cochilo da tarde, e fica te perturbando de madrugada. Uma daquelas que parece um zunido no ouvido, e que você tenta até afundar a cabeça na água pra ver se passa. Mas a agonia não passa. Daí você já pode saber que é sinal de mudança séria acontecendo dentro de você.
          Mudança daquelas que te torna uma pessoa melhor, ou uma mais fria. No meu caso, era uma mudança boa. Primeiro veio o cansaço. Cansaço da inércia, da aceitação, da linearidade. Eu mal conseguia me aguentar sentada, e estava em pânico dentro da minha própria pele. Se continuasse daquele jeito eu era capaz de raspar a lateral da cabeça e furar um piercing na sobrancelha, então fui ver TV. Mas não consegui me distrair, e acabei abrindo todas as janelas da casa e observando o cachorro perseguir lagartos pelo quintal.
          Foi quando me atingiu. É sempre dolorido quando o sentimento acerta assim, não importa o quão acostumado se esteja. Bateu com tanta força que as lágrimas desceram sem eu conseguir me controlar. Chorei aquela agonia inteira, e algumas dores reminiscentes de problemas anteriores, enquanto extravasava tudo estava podre por dentro. E, quando havia purgado tudo, com os olhos inchados e o nariz entupido, veio a segunda parte.
          Uma nova consciência, uma bondade e compaixão inata. Tinha cheiro de mel e alfazema. Uma reflexão profunda do "eu" naquele momento. Foi nostálgico e agradável, e eu senti as engrenagens girando dentro do meu cérebro durante todo o processo. Era como se os órgãos dentro do meu corpo estivessem assumindo uma nova configuração, e eu não podia clicar em "cancelar". Naquela tarde cinza e pesada, eu fiz um compromisso comigo mesmo.
          Primeiramente de parar de sobreviver e começar a viver de verdade. Então anotei numa folha de papel velha que faria uma viagem. Depois me prometi dar ao menos um sorriso verdadeiro por dia. Gastar mais tempo dentro de abraços, e jogar mais beijos para as pessoas. Ah, decidi também que ouviria mais as pessoas e ligaria menos para o que elas falassem. Também decidi me fazer de surdo para as vozes que gritam xingamentos na minha cabeça. Abaixei o volume das que querem ver o meu fim até que estivessem mudas. 
          Prometi a mim mesmo valorizar mais as pessoas ao meu redor, ser mais grato à vida que tenho e tentar aprender algo novo. Também vou gastar mais tempo com meus animais, pois eles merecem, e me ajudam mais do que percebem. Comer melhor também está em meus planos. Sair mais com os amigos, e passar mais tardes me dedicando aos meus hobbies. Fiz um compromisso comigo mesmo, de não deixar o peso da vida me esmagar. De não deixar a dor ser maior que o restante do mundo. Fiz, por que quis, e porque o universo dizia que era hora.
          Fácil não vai ser, mas, sempre joguei no nível mais difícil. Logo, tenho experiência. O resultado de tudo isso?
Me pergunte daqui há uns seis meses...
-Sorriso torto

terça-feira, 2 de maio de 2017

A meia-noite vai chegar

pinterest.com.br


Acho que você deve me achar tão crítica que nem acreditaria se eu te contasse a barbaridade com a qual eu convivo. É uma barbaridade numérica, um relógio que vive fazendo um tique-taque na minha cabeça, como que para me lembrar que o tempo passa e eu não posso ficar parada - por mais que eu não saiba como me mexer. O tempo, em si, é uma barbaridade, né? Há quanto tempo a gente não se vê mesmo? Eu já nem sei mais. Também perdi as contas do tempo que a gente se via. Sem perceber, acabei parando de contar o tempo quando meu relógio quebrou.

Comecemos pelos fatos: eu tenho um relógio quebrado. Literalmente, digo, é um relógio despertador daqueles bem manuais - é preciso girar a engrenagem, que fica atrás, para ativar o alarme e dar um tapinha no sino para desativar o alarme- e é cor de rosa. Mas está quebrado, não funciona. Não me lembro mais quando foi que ele quebrou. Lembro que um dia, por uma ventania que entrou sem aviso pela janela, ele caiu da prateleira e quebrou. Nunca o consertei, não por maldade, mas por descuido. Desde então, todos os dias, quando olho para a minha prateleira, lá está o meu relógio, parado: onze e cinquenta e cinco.

Tique-taque, tique-taque na minha cabeça. Quando alguém fala daquele filme ou começa a cantarolar a tal música tema, um tique-taque desordenado na minha cabeça é ativado. Não tem mais ninguém girando a engrenagem para ativar o alarme em mim, não tem mais ninguém aqui: só eu só. E o alarme continua lá, porque a amolação de tique-taque não precisa de gente, pode ser ativada por sombras, dessas que a gente deixa na vida de alguém quando vai embora. As sombras me amolam tanto que logo percebi o relógio quebrado dentro de mim também, o problema é que não tem ninguém para dar o tapinha no sino e desligá-lo.

É um alarme bem discreto, se infiltra todo cauteloso na minha cabeça e me faz engatar em uma jornada de perder minutos pensando nos minutos que perdi. Por que foi mesmo que a gente nunca conversou sobre as coisas que nos eram importantes? Por que foi mesmo que eu acabei te falando tanto sobre a minha dor de cabeça e tão pouco sobre o quanto minha mãe gosta de skank, como você?O próprio skank, agora, virou uma das sombras que gritam o tal tique-taque. Como é que pode um tempo parado, eu presa em uma história, ainda ouvir o tempo passar? Ouço o tempo passar, como eu costumava te falar, mas ele passa lá fora. Aqui dentro, quanto mais o tempo passa, mais presa fico. Ainda ouço o tique-taque, mas os ponteiros não se movem, continuo aprisionada nas onze horas e cinquenta e cinco minutos, como meu reloginho cor-de-rosa: parada, mesmo que em movimento.

Não desisto de me movimentar, mas parece que sigo no mesmo lugar. Vez em quando parece que vou parar lá longe, longe de nothing but a song, longe do cartãozinho sem dedicatória comprado em Washington-DC, longe do tique-taque. Aí, parece que caminhei milhas, que desbravei horizontes, que o relógio funciona e marca as horas de hoje. Só que, de só que sou, outras vezes o tique-taque volta e sou obrigada a encarar o relógio quebrado na minha prateleira. Ainda, assim, em alguns outros momentos concluo que preciso parar de brincar com esse boomerang - que quanto mais longe jogo, com mais força volta - para, assim, voltar a ver o tempo passar, desemperrar meus ponteiros internos.

Tanto quanto sei que um dia o tempo vai voltar a passar normalmente, sei que não vai ser hoje, nem amanhã o dia em que vou, finalmente, me livrar dos fantasmas e consertar meu relógio. Hoje mesmo olhei e estava lá: onze e cinquenta e cinco. Já não sei mais se foi dia ou noite, não sei quando essas onze horas pararam. Não sei se me aproximava de marcar as doze horas do meio do dia ou as do final, que marcam a hora zero de um novo dia. Até hoje estou presa nesse limbo, segue o tique-taque: cheguei na hora zero da nossa história ou ainda estou no meio dela?

Ane Karoline



sábado, 22 de abril de 2017

Amar sozinho

"Todas as vezes que amei, amei sozinho..."

          Amei de forma desenfreada, entregue e profunda. Amei em demasia, pois apenas assim sei amar. Se eu pudesse me alimentar apenas do amor que existe dentro de mim, estaria consideravelmente acima do peso. Pois o amor nasce em mim. Brota como semente, e lá pela tardinha já se tornou planta. Em algumas semanas é árvore frondosa, de folhas verdes e saudáveis. As raízes se espalhando profundamente, agarrando tudo aquilo o que tocam, fincando-se cada vez mais fundo no solo fértil dentro de mim. Meu amor dá belas flores, de diferentes cores, cheiros e sabores.
          No entanto, sem ninguém para colher os frutos, eles caem. Se espatifam no mesmo solo que os gera, apodrecem no mesmo lugar que os nutre, e se tornam combustível para repetir o ciclo. Pois nem todos querem amor. Nem todos sabem receber o amor. Alguns, piores, o recebem sem nada dar em troca, aproveitando-se dos frutos suculentos, até não mais precisar dele. Palavras duras e de acusação, sim, mas verdadeiras, e necessárias de ser ditas em voz alta. Pois nem toda amizade ou relação é saudável, e quase nenhum amor é correspondido. 
          Não que seja fácil viver na solidão profunda que é se abster de germinar amor. Não. O que resta desses amores não correspondidos é um grande cemitério de árvores sem folhas, vivendo à míngua do que um dia já foram. O tempo passa e as experiências ruins te impedem de voltar a plantar amor. A terra seca e murcha sem as plantações, e logo a vida se torna cinza. Todos os dias, enquanto se levanta, a pessoa que não cultiva o amor deseja que não tivesse se levantado. Pois, viver sem amor, não é viver. 
          Viver sem amor é sobreviver de migalhas, sorrir às metades, aproveitar sem gostar. É seguir o fluxo, caminhar sem direção, mergulhar sem planos de voltar à superfície. É nunca trocar aquela lâmpada queimada, porque já se está acostumado à escuridão. O coração que não germina amor, germina tristeza. E a tristeza é a erva daninha de qualquer plantação. Pois ela se alastra mais rápido e com mais facilidade, devido à facilidade em conseguir combustível. Medo, ansiedade, decepções, e quando se vê a tristeza virou floresta e eclipsa a luz que deveria alcançar o solo. 
          É aí que os monstros começam a procriar e aumentar de número e tamanho. É quando chegam os pensamentos insanamente altos e acusadores, que te gritam dia e noite coisas que ninguém deveria ouvir. É quando o vento frio da culpa se arrasta lascivamente pelo solo, congelando tudo aquilo que poderia ser bom. O único remédio para essa praga é uma dose concentrada de amor verdadeiro. Doses diárias de afeto, recheadas de abraços e beijos. Sempre que possível, ouvir palavras bonitas, ou fazer algo que se gosta. 
          Se a infecção da tristeza não for tratada logo, torna-se praticamente incurável. Ama, mesmo que ame sozinho. Pois quem hoje desperdiça amor, amanhã o há de implorar. E o amor é a única cura para uma alma doente. Escolha a cura, não o veneno...
- Frio

domingo, 16 de abril de 2017

Até onde vai a sua empatia?

imagem: pinterest


De pequenas estorinhas é que se constrói a história da vida de alguém. Mas e as estórias de uma escritora são construídas de quê? Quando pequena, digo, criança - porque pequena seguirei sendo durante toda a minha existência - me parecia uma coisa simples: escritor inventa um monte de coisas para dizer alguma coisa para a gente, né? É. Aliás, é também, mas não só. Agora, mesmo sem ter certeza de muita coisa, percebo que escritor escreve mais é para si mesmo e é esse o ponto da confusão: no fim das contas, os seres humanos são todos atulhados de um monte de maluquices, diferentes mas, no fundo, iguais. Ou seja, se alguém vai lá e escreve umas linhas tortas, para desentulhar a cabeça, as chances são muitas de os outros seres atulhadinhos se identificarem. Percebe? Essa é a magia e a desgraça da coisa.

A desgraça é que há um perigo em escrever: a gente diz uma coisa X e meio mundo de gente vai entender Y e Z. É bonito? É. Mas o problema é se perder no meio do caminho e acabar achando que o outro disse o que eu entendi. O que a gente entende do que foi dito não é, necessariamente, o que foi dito. E que disse me disse é esse? Vou exemplificar com Clarice, que é minha companheira de cabeceira desde  a adolescência. 

Eu, lendo Clarice, via as palavras inventadas e bem organizadas dela com reverência e acreditando que tudo ali tinha sido escrito para mim. O negócio é que Clarice fala um tanto do Divino e eu, feita e criada no berço Cristão, só conhecia Deus Pai-Filho-Espírito-Santo. Encasquetei que Clarice falava era de Jesus, em um determinado ponto até chorar chorei. Me achava toda toda no direito de citar a Clarice dizendo isso e aquilo de Deus (do meu Deus, no caso). Acontece que dia desses, lá pelas tantas da noite, eu que já estou lá pelas tantas da vida, fui citando sei lá o quê e me jogaram no chão: mas Clarice não era Judia? Argumentei para lá e para cá com uma conversa de universal e logo tiraram meu cavalinho da chuva, me jogaram logo a melhor pergunta: onde foi que ela disse isso? Engoli em seco: e eu lá sabia? De onde é que tinha vindo essa confusão, em nome de tudo que é mais sagrado? Não demorou muito, contra vontade, percebi que eu estava fazendo confusão por estar compreendendo Clarice a partir das minhas referências, dos meus sentimentos, de mim; e não a partir do que, realmente, ela havia dito.  

Depois, como a gente faz e recebe de volta, virei Clarice. Escrevi umas linhas sobre coisa minha e logo vi o rebuliço se instalar: tirei um peso do meu coração e parece que saiu atingindo meio mundo de gente que nem bomba nuclear. Já saiu achismo e teoria de tudo quanto é lado para texto meu, desses bobos mesmo. Acho é coisa bonita esse negócio de envolvimento com a literatura, mas se for para ferir gente quero logo deixar claro que quando a confusão acontece é porque tem confusão dentro da gente, nem sempre é o que o outro disse. O perrengue é que a gente acha que "achar" é argumento. Aconteceu comigo, aconteceu com Clarice, aconteceu com você e vai continuar acontecendo porque, na verdade,  " eu acho" não é argumento nenhum. A gente pode achar um monte de coisas: achar coisa perdida, achar bonito, achar feio, achar esquisito, achar que feminismo é desnecessário, achar que racismo não existe, achar que o menino pobre é culpado da vida que leva, achar que é a raiz quadrada de 9 é 2.  A gente pode até ir além do achar, pode adotar uma ideia como verdade mas isso não a torna verdade. O problema não é adotar uma premissa, um achismo, uma opinião como verdade; o problema é não assumir a responsabilidade disso.

Essa não foi a primeira e nem vai ser a última vez - nem comigo e nem com Clarice, se é que posso nos colocar na mesma frase. Mas vou insistir aqui em fazer esse manifesto literário e de convivência: de agora em diante, que tal responsabilizar as pessoas só pelo que elas de fato disseram ao invés de responsabilizá-las pela forma como isso chega em nós? A gente sabe que tem lá nossas implicâncias e razões, algumas vezes até inconscientes, para distorcer os discursos dos outros. Sorte que para essa confusão tem remédio, basta lembrar que empatia é se colocar no lugar do outro desde que isso não implique em falar por ele/ela. Empatia também é defender o espaço de fala do outro, sem colocar minha voz lá. 

Com amor, 
Ane Karoline

sábado, 15 de abril de 2017

Sou uma bagunça


"Porque são exatamente as rachaduras que me fazem quem eu sou..."

Deixei pra trás tudo o que eu tinha e fui
Fui para te acompanhar
Fui para não te deixar só
Fui porque o único lugar em que sou feliz é ao seu lado

Mas você nem viu, nem sentiu
Nem percebeu os sacrifícios que fiz para ir com você
No segundo em que algo brilhou, seu interesse por mim acabou
E então você partiu

Foi com a promessa de que não tinha ido
De que apesar da distância, não havia partido
Que as coisas sempre seriam como antes
Mas o tempo passou em questão de instantes

O que me sobrou senão as noites insones para me acalentar
Me afogando em lágrimas salinas de peso exorbitante
Carregando os cacos de mim por desertos estonteantes
Sem saber se um dia conseguiria me recuperar

Meus amigos eram as palavras
De poetas e anônimos
Marias e Antônios
Com uma dor profunda e as almas escalavradas

E a fria e cinzenta manhã de Janeiro
Outrora alegre, de sol e de luz
De ouro que brilha e seduz
Me parece devorar por inteiro

Sentimento torpe e cruel
Que esmaga e deturpa
Machuca e afunda na culpa
Que é veneno disfarçado de mel

E apenas quando os pedaços
Que estavam mais para cacos
Começavam a se juntar
Você resolve regressar

É o mesmo sorriso
O cheiro é igual
O toque irreal
Mas eu só posso oferecer prejuízo

A única coisa que não é a mesma, sou eu
Um dia humano, hoje miragem
Que resta se perdi até mesmo a linguagem
É dizer que apesar da dor, ainda sou teu

Teu veneno tem gosto de mel, e eu me afogo sorrindo todas as vezes que você volta...

-Melancolia

terça-feira, 28 de março de 2017

É hora de se arrumar

imagem: pinterest


Ontem era meio de semana, meio de mais uma semana que fica no meio de um mês que fica dentro de um ano desses que são computados na vida da gente. Mas, sim, ontem era meio de semana e aparentava sábado, uma dessas aparências que cegam: a gente tem que ficar se lembrando que uma coisa não é outra coisa, que é para não ser enganado. O fato é que ontem aparentava sábado porque, em primeiro lugar, fui ter com Luiza uma daquelas tardes tranquilas que quem tem o privilégio de ter amigos pode ter; em segundo lugar, me pareceu mais sábado porque era dia de faxina na casa de Luiza e, nem sei desde quando, tenho em meu imaginário que sábado é dia de faxina, me acostumei com essa ideia. A gente se acostuma com cada besteira.

Logo que avistei Luiza vi que vinha toda diferente me receber: o cabelo estava solto, como quem, finalmente, tivesse entendido a beleza que existe nos cachos. Além disso, pasmei ao vê-la usando o vestido que vestira em seu noivado - há oito anos atrás. Estranhei porque aquele vestido lhe era caríssimo por ser uma lembrança importante do noivado com o outro lá e, agora, ela o estava vestindo para limpar a casa? A gente se arruma como pode, daí já vi que Luiza estava era se arrumando.

Eu tinha ranço do tal vestido, mas ontem gostei dele: parecia que deixava Luiza florida. No meio da arrumação, ela era toda sorrisos e nostalgia. Eu a ajudando a separar as coisas que queria guardar e as que jogaria fora ou doaria e, ao mesmo tempo, me divertindo com as lembranças que cada objeto trazia, cada caso que ela me contava ou os que eu mesma me lembrava, de longa data que era nossa amizade. O tempo todo os estranhamentos daquela situação me consumiam, não pelo desapego -que é coisa boa - mas por ser Luiza a desapegada. Contando aqui, para você que não conhece a Luiza, não parece importante, né? Mas é. Veja bem, Luiza é o tipo de gente que guarda o ingresso todas as vezes que vai ao cinema, e cola numa agendinha. Ela guarda papeis de bala que ganhou de pessoas especiais, guarda todas as fotos, cartas e bilhetes, guarda um monte de coisas que ninguém liga, se importa com tudo. Tudo amontoado, café cheirando e a gente conversando conversas desimportantes, que a gente só conversa com gente que é importante para a gente. Tanta coisa que, no meio de tudo, Luiza acabou foi derramando um pouco de café no tal vestido de noivado, uma florzinha que era rosa ficou toda amarronzada - o vestido veranil de Luiza, virou outono. Me alarmei por lembrar de toda a frescura dela com aquele vestido, mas ela fez que nem ligou: faz mal não, esse vestido não se estende em meu armário mais não, chegou ao fim.  Um vestido novo daqueles, pensei. Fiquei remoendo esse negócio mesquinha de vestido até que larguei esse pensamento e, por querer concluir alguma coisa, concluí que Luiza havia mudado. A gente muda, oras. Toda a gente muda; muda até de casa, não vai mudar de gosto? 

Tudo empacotado para doar ou jogar fora, eu já achando que Luiza tinha virado uma alma superior que se desapega de bens materiais, até que ela me aparece com um palito de pirulito todo imundo e todo amassado. Veio, com os olhos marejados, dizendo que era criancinha e morava na terrinha e o avô havia comprado o pirulito, que ela tanto queria, com umas moedas da passagem - ele havia voltado para casa andando aquele dia. Não questionei nada mas, certamente, meu rosto gritava a confusão que se plantava em minha mente ao vê-la guardar quinquilharias e jogar outras coisas fora. Ela logo viu, sorriu e me disse: não fique besta não, tudo depende do valor que a gente dá. Se uma coisa já nos perdeu o valor, para que ficar insistindo em encaixá-la em nossa vida?

Concordei e entendi: é por isso que a gente se sente tão deslocado em algumas relações, a gente perde o valor para as pessoas mas elas ficam nos segurando ali, sem cuidar. A diferença aqui, entre gente e o vestido de Luiza, é que os objetos não podem escolher entre ir e ficar, não podem decidir a hora de partir. A gente pode. 

Ane Karoline

sexta-feira, 24 de março de 2017

A importância da leitura na infância: Diário de Estela

Muita gente me pergunta, se pergunta, pergunta ao universo e aos professores: como é, afinal, que se adquire o hábito de leitura? Sinceramente, eu não sei. O que sei é que não existe idade certa nem jeito certo. Além disso, sei como e quando eu adquiri o meu hábito de ler: na infância, com um livro que uma professora me indicou - um livro que não estava relacionado com a escola. Hoje, vejo a importância que isso teve em minha vida e vejo, também, a importância que tem na vida das várias crianças que conheço: tanto as que têm o hábito de ler, quanto as que não têm. Vejo que Muito se fala sobre a importância de ler, mas pouco se fala sobre como deve acontecer o incentivo à leitura.    


Por tudo isso, fiquei muito feliz quando recebi o livro Diário de Estela, lançado pela editora Jangada: é um romance infantil! Um livro repleto de aventuras narradas de uma maneira engraçada e harmoniosa pela personagem principal, Estela.

Estela é uma aprendiz do ofício de Anjo do Amor. Com seu jeito inocente e atrapalhado, ela precisa cumprir uma missão entre dois humanos, na Terra, para conseguir, finalmente, tornar-se um Anjo do Amor e receber suas asas. Com toda sua impulsividade e ingenuidade, nossa protagonista passa por muitos problemas mas, mesmo assim, está sempre disposta a continuar. Pela ansiedade em conquistar as asas e ser um Anjo de verdade, por várias vezes, Estela se precipita e só quando, finalmente, entende que deve seguir seu coração e colocar sua responsabilidade com o amor acima de seus interesses pessoais, ela consegue a nomeação de Anjo. 

Juntamente com uma narrativa muito cativante e narrada com linguagem acessível para as crianças, o livro é repleto de lindas ilustrações que criam o imaginário a respeito das aventuras de Estela. Além disso, o fato de o livro ter sido escrito em forma de diário é uma construção interessante que pode incentivar as crianças a escrever, criando um próprio diário. 


Para não me estender e acabar contando o que acontece com Estela, estragando a surpresa, me contento em dizer que o livro é ótimo e apropriado para crianças e pré-adolescentes - mesmo para adultos, a história não deixa de ser cativante e surpreendente. As autoras Stern (desenhista e leitora profissional de literatura infantil e Juvenil) e Jem ( escritora e jornalista) foram muito cuidadosas com toda a produção do livro  e pretendem lançar mais aventuras da Anjinha Estela. A tradução é da Ivana Mihanovich, foi publicada no Brasil em 2014, e não em deixa em nada a desejar. Deixo aqui meu convite a todos: vamos nos aventurar com Estela?

Ane Karoline