quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Página em branco

   Estranho mesmo foi perceber que cheguei ao ponto de dissimular, mas cheguei. Ah. todo mundo chega. E, é claro, tive boas razões.
   Quando te revi, meu coração não acelerou e nem ficou aos pulos: pasmei. Mas senti algo ao vê-lo e nem sei dizer o que foi. Tive uma pontada de medo: tipo uma agulhinha que me beliscava sempre que o olhava. E, simultaneamente ao medo, senti falta: falta do que nem chegamos a ser, falta de quem eu era antes de conhecê-lo.
   Arrisquei uma olhadinha vez ou outra mas, para a sua surpresa, não iniciei nenhuma conversação, como costumava fazer: deixei que o buraco, que você mesmo havia engenhado em meu coração aflito, falasse por mim. E falou. Falou por nós: ficou entre os nós. De cara percebi que você não tinha costume com o vazio que dói. Por quê? Porque quando começou a cair no abismo existente entre nós, se apressou em construir uma ponte. Que foi? Tem medo de cair? Eu sei que tem, então vou pontuar umas coisinhas: a gente tem medo de cair - todo mundo- mas cai mesmo assim. Eu tive medo também, acredita? Mas isso não me poupou da queda e você não me jogou um pára-quedas. Só para te situar: a queda foi tamanha que abri um buraco e fui parar no núcleo terrestre. Você não notou, mas eu fiquei nesse buraco por um bom tempo e, ainda hoje, carrego-o comigo. Mas o mais importante é que enfrentei o abismo for my self, entende? E agora, que emergi, você me aparece todo blasé, bancando a simpatia personificada, querendo entender meu recuo? Pois quero informá-lo de que já me adiantei e formulei uma boa metáfora- daquelas que você costumava jogar no lixo- para a gente.
  Dizem por aí que quando a gente amassa uma folha de papel, não conseguimos desamassá-la totalmente. Mas, no nosso caso, não somo uma folha amassada: somos uma folha escrita, e você fez questão de escrever tudinho à caneta. Acho que deu para entender, né? Poderia ter pensado melhor no que ia escrever, enquanto éramos uma página em branco. 

Ane Karoline

sábado, 6 de setembro de 2014

 foto por: Ane Kelly

Des(Amor)


  A crise é necessária mas o seu valor só pode ser reconhecido depois que a mesma é superada. Enquanto a fase é aquela de dormir tentando esquecer e acordar querendo ter, a gente se afunda mesmo.
 No começo a gente se culpa, passa dias repetindo e proclamando a nossa burrice, horas se martirizando por ter deixado o amor florescer, noites pensando em como nos deixamos chegar no fundo do fundo. Mas toda essa bagunça é durante a noite: a noite é propícia para o desespero. Mas, depois da noite, sempre amanhece e quando amanhece a gente começa a culpa o outro. A crueldade alheia parece clara, a gente passa dias se convencendo de uma certa canalhice, horas remoendo cada palavrinha que foi dita e ouvida, minutos e minutos arquitetando como causar a mesma aflição que nos foi causada. 
  E depois? Depois o tempo faz seu trabalho, as ideias clareiam, a gente sai do fundo do poço e percebe que a culpa pela crise deve ser atribuída à ambas as partes. Mas, se formos calcular direitinho, nem se juntarmos a parcela de culpa de cada uma das duas almas confusas envolvidas em uma crise desse cunho, conseguiremos identificar os 100% de culpa, sabe porque? Porque foi a vida quem quis escrever as coisas assim, às vezes a gente tem que escrever uma página, ou capítulo, na vida do outro mesmo. E a gente descobre que a caneta está em nossas mãos lá no início,  quando os olhares se encontram pela primeira vez. E, francamente, é muito bom. É muito bom porque a gente se transforma no amor, sem nem precisar mostrar: simplesmente somos o amor por um certo período. O que a gente não descobre na troca de olhares inicial é que é só por um certo período, essa compreensão se assenta depois de uns bons travesseiros molhados. 
  E mesmo no fim, quando passa, não há como dizer que não lamentamos o fato de não sermos mais o amor: lamentamos sim. Mas há algo que merece um lamento maior: sermos o desamor. É lamentável saber que os olhos não vão brilhar ardentemente ao encontro e que o coração não vai acelerar mais ao toque. E, sobretudo, é lamentável ver um coração jogado na sarjeta por um alguém qualquer, quando poderia estar aquecido pelo amor que foi. Foi porque, pelo menos um dos lados foi o amor. Foi, não é mais. 




Ane Karoline