quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Re(arte)culando a literatura: 10 melhores livros de 2015

Sou fã de surpresas, essas que tiram a gente do eixo, nos deixam, felizmente, atordoados por alguns instantes. Gosto do que gera movimento, gera construção, gera progressão. É assim que me ganham. Uma pessoa, um livro, uma música, um evento teatral, um filme: causando algo, por mais interno que seja, em mim. Me movendo. E como eu gosto de movimento! Sendo assim, fiz uma breve lista (porque eu adoro listas) dos livros que mais me desestabilizaram durante o ano de 2015. É claro que os efeitos e as conclusões são, minimamente, diferentes em cada um de nós mas, além de me tirar do eixo, me dar uma sacudida e uns bons tapas, esses livros me fizeram crescer. E, cá entre nós, compartilhar coisas boas deveria ser regra, né? 
Nem todos os livros foram lançados em 2015, mas foi quando tive esse encontro maravilhoso com eles. Não farei resenha dos livros para guardar tudinho para vocês. 

1- Por Elise - Grace Passô
 Depois de assistir a uma adaptação do texto, em um espetáculo teatral, passei mais de um ano procurando esse livro em todas as livrarias em que fui, nem online conseguia encontrá-lo. Com a minha síndrome de Pollyana, acredito que o desencontro tenha sido para que o encontro fosse na hora certa. Ganhei o livro e o li quando mais precisava. 

2- A Paixão segundo G.H. - Clarice Lispector
   Tudo bem. Quem me conhece, ou já acompanha o blog, vai dizer que eu amo Clarice e sou suspeita para falar. Mas esse livro me arrebatou! E eu gostaria muito que o mundo inteirinho o lesse. É um dos livros mais famosos da Clarice e agora é meu queridinho também. 

3- Eu sou Deus -  Pedro Chagas Freitas
    Esse livro foi uma big surpresa. Não conhecia o autor e nunca tinha ouvido falar do livro. Em parceria com a Chiado Editora, recebi esse livro para resenhar e o que eu posso dizer que "Ser feliz é um irrevogável direito!" A resenha do livro está aqui.

4- A graça da coisa - Martha Medeiros
   Apaixonada estou por essa escritora, pela escrita dela. O livro é composto por crônicas sobre trivialidades do cotidiano e é sensacional. Dentre tantas outras coisas aprendi, com esse livro, que "a vida não oferece opção: ou você segue, ou você segue."

5- Feliz por nada - Martha Medeiros
    Escrito no mesmo estilo, e graciosidade, que "A graça da coisa". É um livro repleto de humor e amor. 

6-  Nanquim - Organização Alfer Medeiros
   Sim, publiquei um conto nesse livro. E quão grande foi minha surpresa quando li os outros contos e crônicas do livro. Os contos são todos muito bem amarrados e uma delícia de ler! (Se quiser saber mais, vejo o vídeo em nossa fanpage). 

7- Pó de Lua - Clarice Freire
   O livro mais doce que já li na vida! Confiram, confiram, confiram!

8-   Extraordinário - R.J. Palacio
   Um livro sobre humanidade e gentileza, me ensinou que nada entendo de ser gentil. 

9- Confissões- Paula Pimenta
   Presente de aniversário que me trouxe amor derretido em poemas. Lindíssimo, levíssimo. 

10- Quem é você, Alasca?  - John Green
  A escrita de Green é encantadora. Li todas as suas estórias publicadas e me encantei com todas. Dessa vez não foi diferente, afinal, quem somos?

Agradeço a todos esses autores e escritores que me ajudaram a escrever meu ano de 2015. E aconselho vocês a lê-los. Vamos, lá? 







terça-feira, 29 de dezembro de 2015

10 conselhos que eu te daria, se pudesse.



Eu sei que se conselho fosse bom, a gente deveria vender. Eu sei que não posso e nem quero me meter. Mas se eu pudesse te dar um conselho, te aconselharia a não esperar a vida acontecer: ir lá e fazer. Caminhar, correr, cair e levantar sem medo de perder. A gente perde mesmo é pelo medo de tentar. Esse, na verdade, é o conselho número 2: arrisque. Vivi 18 anos sem comer mostarda porque achei que fosse ruim. Veja só que medida mais sem comprimento: achei. Achei errado, como várias outras vezes. Provei, gostei e a única coisa que perdi foram 18 anos daquele gostinho marcante de mostarda em minha vida. 
Ah, esse é o conselho número 3: esse espaço de tempo consciente que apelidamos carinhosamente de vida é exatamente isso, um espaço de tempo que passa - e passa que é uma beleza. Aliás, pode ser uma beleza. E pode não ser. Mas a gente pode tentar fazer ser uma beleza, ao nosso jeitinho, especialmente nesse dia que fica entre o ontem e o amanhã! Porque, de repente, ele já não existe mais. Tem isso também: tudo passa, ainda bem! E esse é o conselho número 4: não se aborreça tanto assim, tudo vai chegar ao fim. Tudo pode mudar. As coisas são criadas e recriadas a cada instante. Essa sua tragédia de agora, possivelmente, não será nada no próximo ano. Quem te chateia hoje, amanhã vai estar seguindo outros rumos.
Eis o conselho número 5: as pessoas são coautores de nossa história. Não desperdice isso e nem, tão pouco, faça delas os únicos autores. Somo todos colaboradores e ninguém está nenhum degrauzinho acima. Falando em estar acima, não queira. Conselho número 6: faça o melhor que puder, seja o melhor que puder sem precisar (ou desejar) estar acima de ninguém. Mantenha a ideia de que somos colaboradores.
Plante, cultive e espalhe amor é a melhor forma de convivência e sobrevivência existente. Diga bom dia e seja o último a sair de um abraço. Somos colecionadores de miudezas, na verdade, somos construídos por elas. Falo das coisas que não têm tamanho, aquelas que podem parecer pequenas mas são tão apreciáveis que tornam-se imensuráveis. Coisinhas. Coisinhas que nos edificam sem que percebamos. Conselhos 7, 8 e 9. E esperando que o décimo seja realmente um acréscimo digo: acredite. Qual é o pior que pode acontecer? Não acreditar é um ato de desesperança e covardia tão grande que apaga milhares de chances todos os dias. Acreditar é ter um caminho para trilhar. 


sábado, 26 de dezembro de 2015

Borboleta: ai de voar!



A vida é muito frágil, fragilíssima, quase efêmera. A vida é um piscar, é um sorriso, um olhar. A vida é uma borboletinha amarela que voa, voa, voa e, de repente, não voa mais. E a gente quase não percebe. A gente não percebe que um montão daquelas borboletinhas amarelas param de voar todos os dias. É que parece que existem outras borboletinhas amarelas, né? Mas eis aqui a verdade: não existem. Parou de voar e acabou. Acabou para nós aqui, do lado de cá "carne e osso" do universo. Acabou, e acaba todos os dias, para nós que ansiamos tanto guardar a vida em potinhos, em fotos, em caixas, em carros e em fórmulas deixando-a, assim, escapar.
E quando, felizmente, não a deixamos escapar, quando decidimos cuidar, queremos guardar, proteger, salvar, acolher, cobrir, escoltar, socorrer, defender, tutorar, amparar, apadroar... Mas borboleta dentro de caixa não dá para ficar. Não dá para deixar a vida lá, guardadinha, a gente olha, dá um beijinho de manhã e pronto, fica olhando do canto: tem que soltar, deixar ser, let it be
A gente admira a vida - que é digna de admiração mesmo- mas é para ser vivida, não olhada de longe. O agora é tudo que temos. Não se sabe de nada, hoje tem Sol e amanhã quem sabe? Quem vai afirmar alguma coisa? Eu não ouso. Ontem mesmo afirmei que a borboletinha amarela que visitava minha janela iria voltar no dia seguinte e nem a olhei. Hoje não sei dela. Achei que a vida ia esperar por mim, não esperou.
É fato que nenhuma borboleta amarela vai voar para sempre e eu mesma não estarei aqui para sempre para vê-las voar. Vou sentir falta delas e alguns outros vão sentir minha falta. Então, o voto de hoje é para que possamos viver as borboletas enquanto estão aqui, voando ao nosso redor. Sem prender a vida e sem observá-la de longe. Honrar a presença enquanto a borboleta quiser e puder voar perto de nós, depois podemos agradecer por termos tido a chance de conhecer algo tão belo, de sentir a vida e de vivê-la enquanto foi possível, afinal, nenhuma borboleta voa para sempre. 
In Memorian de Wellica Costa que tanto trouxe alegria, vida, sorrisos e beleza a esse lado de cá do Universo. 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura



Falar de amor é como falar de lixo. Vamos lá. Estamos esgotados de tanto ler, ouvir, assistir e repetir: lugar de lixo é no lixo. Não devemos jogar lixo no chão, nas ruas, nas calçadas, nos bueiros: lixo no lixo. É quase um mantra repetido mas as ruas continuam abarrotadas de lixo. Não, o amor não é lixo. Mas é tão dito, entoado, cantado, versificado, escrito, descrito, declamado, recitado e receitado que quase soa como se já tivesse sido dito demais - como a história do lixo no lixo. E isso não faz mal nenhum desde que seja acompanhado por ações.
Assim como os panfletos de reciclagem, o amor parece ser sempre uma filosofia que serve de paisagem de fundo para as nossas vidas. A gente vai falando, lendo, vivendo repetindo os mesmos discursos algumas vezes por ano, desejamos bençãos em dias de aniversários e quando chega, finalmente, dia 24 de dezembro é bonito de ver: luzes, abraços, música, presentes, gente presente, felicitações, mensagens de carinho e apoio. Pelo menos uma vez, um dia, uma lâmpada mágica parece acender-se em nossas cabecinhas e mostrar: dá para apaziguar, dá para pacificar, dá para amar. E dá. 
Ao invés de dizer que não adianta nada, que o lixo vai continuar sendo jogado nas ruas, e que apenas um dia de amor universal é hipocrisia eu quero te convidar a dizer mais.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Promessa de ano novo



Não precisa ligar. Não precisa mandar uma mensagem e nem pedir para que alguém me diga alguma coisa. Se for para dizer meias palavras, não precisa. Não é ironia, não é falsa moral, nada disso. Não precisa fazer qualquer esforço para criar justificativas - nas quais nem você acredita. Melhor: não precisa porque não vale a pena. Não vale nada. Qualquer coisa dita em vão, não me vale nada - nem a mim e nem a ninguém. 
Me vale mais um "não fui porque não quis" que um " aconteceu isso ou aquilo". Me vale mais um "não gostei disso" verdadeiro que um "tudo bem" chateado. Me vale mais um "eu gosto de você" ardente que um "eu te amo" frouxo. Me vale mais um "adeus" com o coração em chamas que um "eu fico" sem nenhum fervor. Se é sem fervor, é sem valor. É morno.
Não me acostumo com o morno. Imagine só, café morno, presta? Não. Sopa morna, abraço morno, chá morno, presta não. Clima morno, então? É aquela coisa abafada que não se sabe se chove, se molha, se queima ou se mata: enforca. Amizade morna é aquela que enfeita: não briga, não liga, não ajuda e não ajeita. Um morno aqui, um mais ou menos ali, um tanto faz aculá e a pessoa fica morna, com uma vida morna e vivendo de metades mornas.
Metades também não me valem. A inteireza é tão bonita! Dá um trabalhão? Dá sim. A gente tropeça, leva um tombo daqueles para deixar no chão por dias, chora que se acaba. Se acaba por inteiro. Mas quando levanta é por inteiro também. Chorou tudo que tinha para chorar para poder sorrir de verdade. Que coisa triste é um sorriso pela metade. Nos submetemos a cada coisa, né? Sorrir pela metade.  Vai aceitando felicidade mais ou menos, amigos mais ou menos e amores mais ou menos. Se mata, finge que não, dissimula, faz das tripas o coração mas dizer a verdade? Não. Essa simples negação é a causa e não a solução.
 E é por isso que estou apostando em abrir as portas para a verdade, dar a cara a tapa, e ouvir o que ela tem a me dizer. Sabendo que a verdade pode doer, que laços vão se desfazer e que só o que me vale vai permanecer. Arriscando jogar tudo pra lá, chutar o balde, meter o pé para acabar com todo tipo de farsa que possa haver. Desconstruindo paredes de realidades irreais para abrir portas para verdades adventícias. Sem medo e sem pesar, medo a gente tem que ter é de dissimular, iludir e enganar - aos outros e a nós mesmos: qual é a mentira que contas para o reflexo no espelho?
Sendo assim, não precisa ligar, mandar cartão, fax ou mensagem. Se as palavras forem vãs, jogue-as fora. Poupe aos outros e, primeiramente, a você. Mas se, sinceramente, quiser conversar, pode vir cá, a gente toma um chá, se acerta e papeia sobre as promessas para o ano que está para chegar.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Retrospectiva: melhores músicas de 2015

A nossa existência, vida, passagem pelo planeta Terra, é marcada por momentos, histórias, estórias, risadas, quedas, lágrimas, tropeços, pessoas, sentimentos, cheiros e sons. E quantos sons! É impossível deixar de notar que nossas vidas parecem, por vezes, ter uma espécie de trilha sonora - ao menos a minha tem. Considerando que todas as linhas de nossas vidas são escritas em conjunto com aqueles que vivem conosco, resolvi compartilhar uma parte da trilha sonora do filme da minha vida em 2015. Afinal, o ano está indo embora e, sempre, vale a pena lembrar das coisas boas que foram produzidas - apesar de tanta bagunça, tivemos uma produção musical agradável no Brasil e no mundo. Sendo assim, separei (com muita dificuldade em escolher) 15 músicas que considero as melhores do ano de 2015. Pegue os fones de ouvido and let's have some fun.

1- Tô na vida - Ana Cañas
2- Hoje nunca mais - Ana Cañas
3- Passarinhos - Emicida (Part. Vanessa da Mata)
4- Singular - AnaVitória
5- Believe- Mumford & Sons
6- A noite - Tiê
7- Coisas - Ana Carolina 
8- Let it go - James Bay
9- Love me like you do - Ellie Goulding
10- Coisa Linda - Tiago Iorc
11- Adventure Time - Codplay
12- Let it all go - Birdy
13- Ela - Maria Gadu
14- Felicidade - Adriana Calcanhotto (regravação)
15-Like I'm gonna lose you - Meghan Trainor

E aí, foi ou não foi um ano musical? Caso queira compartilhar sua playlist, mande para cá.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Coletânea Nanquim: Minha primeira publicação





Quando eu tinha, aproximadamente, 10 anos de idade (não vamos fazer cálculos aqui, por favor), em meio a brincadeiras de uma tarde quente de domingo, ouvi o Faustão dizer "E o que foi que te fez decidir ser Jornalista, Fátima?" parei de pular a tempo de olhar para a TV e ouvi-la responder "Me questionei sobre o lugar onde eu conseguiria ser com mais força. Me perguntei qual profissão seguiria para dar 100% de mim." Tudo bem, eu tinha 10 anos e uma tendência a ser a pessoa mais emotiva que esse planeta já conheceu mas a forma como ela disse isso me fez querer ser 100% em tudo, achar o lugar onde eu conseguiria chegar em 100%.
Depois que, finalmente, fui alfabetizada (trocando muitos "f" por "v" e muitos "p" por "b") comecei a escrever até nas paredes (literalmente) e, então não parei mais. Aos 10 anos de idade eu tinha dificuldades até para segurar o lápis mas, gloriosamente, os professores ao longo de minha vida escolar me apresentaram formas muito interessantes de aprender a escrever respeitando o meu tempo, o meu espaço e minha personalidade. Diários, agendas, cadernetas, guardanapos, e as últimas folhas dos meus cadernos começaram a ser dedicadas à escrita de pensamentos- muitas vezes desordenados. Para ordená-los, me faltava ler. E li. Aprendi a ler, definitivamente, aos doze anos de idade com o livro Pollyanna (super indicação, ein). A leitura me salvou - em vários sentidos. Encontrei meu 100%, me encontrei.
Comecei a escrever e hoje, alguns anos e muitas linhas depois, cada vez que escrevo uma palavra encontro o lugar onde, como diria Fátima Bernardes, consigo ser com mais força. Em cada linha, cada vírgula eu me vejo transbordar e vejo, com muito amor, as pessoas se encontrarem também. E aí me faço também, me construo e me encontro: na troca, quando alguém me lê. Sempre que escrevo, me sinto 100%, mas hoje estou 200%. Minha PRIMEIRA PUBLICAÇÃO aconteceu. 
Através do trabalho maravilhoso da Editora Andross (que também é parceira do blog) meu conto "Sabedoria Microscópica" foi publicado no livro (coletânea) Nanquim. A coletânea é composta por contos e crônicas, de temas diversos, de vários autores -alguns, assim como eu, estão em sua primeira publicação e outros já são publicados. O livro está recheado de coisas maravilhosas que, garanto, vão agradar a quase todos os gostos. Até mesmo você, que não gosta muito de ler (depois diz que não sabe escrever redação, né?) vai gostar. Os contos e crônicas são curtos e são muito bem escritos. 
Para custear os gastos da gráfica e da editora, os livros estão sendo vendidos a R$ 20, 00. Quem quiser adquirir o seu e, além de prestigiar a blogueira aqui, se divertir bastante pode me mandar uma carta, um fax, um sinal de fumaça para comprar. Espero que vocês gostem do trabalho tanto quanto eu - ou mais. Aguardo os comentários. E fico do lado de cá assistindo cada um encontrar o seu lugar de ser 100%. 
OBS: Os livros vão assinados e com um marca páginas personalizado da Editora. 

E-MAILS PARA CONTATO: anekaroline1@gmail.com / viverescrever@gmail.com
FACEBOOK: https://www.facebook.com/rearteculando/?fref=ts


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Pra você


"Tinha orgulho de mim...dedicado a nós"
Você era a rosa mais bela do paraíso
Sabia cada uma das canções celestiais
Meu coração nunca amou daquela forma
Lindo jardim de primavera verdejante
Eu existia apenas para você
Amo as pétalas que se espalham pelos descampados
Você as dispõe ali par ao meu deleite
De uma beleza afrodisíaca
Um ser cheio de mistérios pessoais
Jeito sedutor de quem sabe o que faz
Que talvez não saiba que sabe
Não é completamente certeza
Sei que há dúvida em ti também 
Ao menor sinal de encantamento
Menos se compreende e endurece
Explicar tudo isso seria impossível
E ainda assim o que sinto cresce
Essa é forma que o que sentimos toma
É o rumo a que nos dirigimos
A fronteira de uma abismo para saltarmos juntos
Melhor forma de estar ao seu lado
Parte comigo

Voltaremos sempre um para o outro

Adolfo Rodrigues

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

A resposta: O fim


"Você foi apenas mais um alarme falso"

    O começo foi preenchido de alegria. A eletricidade que percorria o meu corpo quando a minha pele tocava a sua. Ouvir sua voz fazia o meu sorriso se alargar. Eu mergulhava na imensidão dos seus olhos, fundo. Então você vivia em meus pensamentos. Caminhava aqui e ali, em minhas memórias. E tudo parecia certo. Eu sabia que você precisava de muito espaço. Sabia que trazia consigo as marcas de um passado ao qual eu não tinha acesso. Mas o medo de saltar só existe até que você salte. Depois disso a queda livre vale a pena. E foi baseado nisso, que me permiti.
    Quando meus sonhos transbordaram com seus sorrisos e olhares, eu sorri. E enfim encontrei o equilíbrio na corda bamba, por um instante. O mundo caía ao meu redor, mas você me manteve firme. O que tínhamos era só nosso, e ninguém podia tomá-lo de nós. Ninguém, além de nós.
    Uma coisa que sempre me fez pensar é em como cada ser humano é um universo individual. Cheio de suas próprias nuances e formas de existir. Meu universo é amplo, quente e cheio de vida. Meu universo é combustão, acúmulo de poeira estelar, surgimento. Meu universo é complexo, cheio de falhas e imperfeições. Você começou a conhecê-lo, um dia. Mas, serei honesto, como todos os outros, interessou-se apenas pela superfície.
Se todos nós somos uma equação única, por que tantos tem a mesma resposta?
    E mais uma vez eu fui pego mergulhando de cabeça em um lago raso. Tentando encaixar minha completude em uma caixinha. Tentando ser completo por dois. Uma vez mais me pego tentando sentir por dois, criar alguém para estar comigo, quando, na verdade, esse alguém já está incompleto faz tempo. O que você tinha de mais precioso você escondeu. Por tanto tempo que nem se lembra onde está. E agora terá de viver incompleto, colocando a culpa de sua incompletude em outras pessoas. Preenchendo-a com amigos vãos, em lugares vãos, com bebidas vãs.
    Pode demorar, é verdade, mas seguirei em frente. O bom de ter o coração partido é que se pode distribuir os pedaços. Quanto ao que uma vez existiu, talvez a resposta seja clara. Quando dois não mais compartilham de um desejo, a resposta é o fim.
    Sim. O mais simples e absoluto fim. Onde os laços são afrouxados, para outrora serem partidos, e enfim conquistarmos o ar sobre a superfície de nossos mares de tristeza. Você é pássaro, eu sei. Prefiro deixar-te ir a ser eu gaiola a te aprisionar. Se você vai encontrar outra mão para pousar, não devo me perguntar. Mas se o que eu sinto é real, só te ver sorrir já basta. E mesmo não me contentando, me contentarei.
    O caminho existe, quer você o percorra ou não...

Adolfo Rodrigues

domingo, 6 de dezembro de 2015

Natal do bem



Tentei ser mais gentil que o necessário e percebi que, para isso, teria que ser minimamente gentil:  a quantidade necessária. Não tratando, aqui, a gentileza como algo obrigatório. Me refiro à gentileza como aquele elemento essencial para a boa convivência humana, para a boa vivência - deixando de tratar a vida apenas como existência. Me refiro, aqui, ao mínimo da gentileza- aquele mínimo que vem sem sacrifícios e sem maiores esforços, aquele mínimo que deveria vir naturalmente se, ao longo do tempo, não o tivéssemos podado. O mínimo da gentileza é pensar no outro como se pensa em si mesmo. 
Como anunciei aqui, me coloquei no desafio de ser (durante sete dias) o mais gentil que o necessário. Tentei. O desafio não me ensinou a ser mais gentil que o necessário mas me mostrou, por outro lado, que não consigo ser mais gentil que o necessário pois ainda não sei ser minimamente gentil. Ainda não sei amar genuinamente. 
Tornando isso uma razão ainda maior para começar, resolvi aceitar as chances do universo e me dispus (com muita alegria por ter conhecimento da oportunidade) a ajudar uma causa maravilhosa: a Trupe do bem. Trata-se de um grupo de pessoas dispostas a ajudar as pessoas de Brasília e região. Sendo assim, estão organizando uma linda ação social para o próximo domingo (dia 13 de dezembro) atendendo 450 crianças o Natal do bem vai acontecer no Bairro Sol Nascente na cidade de Ceilândia. As crianças receberão lanche e brinquedos. Contudo, nem todos os brinquedos foram conseguidos. Portanto, se você quiser ajudar, pode doar um brinquedo novo ou usado em bom estado ou qualquer quantia em dinheiro. Os brinquedos serão embalados na quinta feira próxima. Caso você se interesse (como aconteceu comigo) curta a página da Trupe ou fale comigo
Aguardo vocês, rearteculadores!

sábado, 5 de dezembro de 2015

Tropeç(ando)


foto: Ane Karoline


Tenho tentado atenuar, diminuir e suavizar. Tentado tornar tudo mais leve e fácil, diminuindo o passo. Tenho trancado as tempestades e tantas vontades. Trancando algumas verdades aceitando calamidades, pura e simplesmente para evitar qualquer descompasso. Tenho tido tanto medo de tropeçar, cansada de frequentemente titubear. Tenho evitado falar, querendo tanto acertar, tenho evitado falhar. Mas tenho tanto, tão tenazmente, que não é possível atenuar. Não quero mais sobre essa linha tênue me equilibrar. Não dá.
Temo ser essa infinitude insistentemente incoerente, irrequieta e inconstante. Tornaria-me irreconhecível se não fosse impertinentemente  . Trago, inerente à essência, esse desejo insaciável pelo que é intenso. Teimo, por vezes, em ser inconciliável, irremediável trazendo ideias incompatíveis. Mas, intimamente, é simples interpretar: não há necessidade de atenuar, é muito mais eficaz aceitar.
Traço escapatórias entre equações e evidências, estruturando decisões hesitantes. Tanto traço que tropeço na desordem de dúvidas equivocadas. Esquivo-me e continuo a cair e a encher-me de enganos ambíguos e esvaziar-me da essencial espontaneidade. E essa, agora vejo, é tão extremamente essencial que se não a exerço esvaio-me.
Teorizo as sensações sabendo que as sentirei ainda mais. É que, veja bem, tomei para mim a tarefa de sentir vigorosamente, sem voltar atrás. Se voltar, seja sempre para amar mais. Troquei o atenuar pelo acentuar, o trancar pelo tecer e o equilibrar pelo enfatizar. Testemunho, agora, tropeços equivalentes a recomeços. Evitando-se tropeçar, empata-se o levantar.








quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

(D)escrever


"Ficaria, ficar e ria..."


Ele coleciona memórias
guarda coisas na cabeça boa
cria outras na mente estranha
vive na hora tardia
Saltando da balaustrada da varanda do seu quarto
Encontra a escuridão no meio da noite
faz amizade com os seres que vivem abaixo das estrelas
Ele foi tão magoado que lhe falta espaço para mais
há riscos em seu coração
marcas e rasgões, feridas e arranhões
Ele olha pra cima, para conter as lágrimas
Ele quer casa, teus braços
Que o envolva em seu lar móvel
Faz corda bamba das quinas das calçadas
Vira as esquinas e vê o mundo girar
Quem era ontem não conhece quem é hoje
Vive apoiado nos escombros de seus sentimentos
Apoiado nos fios elétricos de decepções passadas
A água da chuva escorre e ele observa
e o reflexo é seu melhor amigo
mas ele o acha feio
E enquanto ele não é o único
Anda pela cidade de madrugada
caça sombras e pesadelos
sorri e diz que está bem
Chora no pé da cama
Arrisque por ele, não vai se arrepender
Ele respira a vida que se esvai
O tempo é um inimigo constante
Por que tudo tão cinza?
Você é seu único floco de neve
Se não soma, então some
Deixa o beijo, desejo
Vem dar seu presente de aniversário
O enche de energia, carrega
Sobrecarrega,  e esquenta
E ele vive mais um mês, talvez
Mas teme pelo futuro, pensa mais que devia
Ele continua em seu caminho
mais perdido do que antes
Torce apenas para que você continue sendo a luz
para que ele possa continuar a caminhar
Você é a terra para a sua semente
plante-se nele
e por fim
Germine...

Adolfo Rodrigues

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Estilhaços


"Guardei as memórias de forma organizada, em prateleiras.
Me perdi em meio a tantas, um labirinto."


Jogado em um canto como uma boneca de trapos
Agarrado aos meus farrapos
Caído em meio a uma sala vazia
Aquecido apenas pela luz do dia

Eu era um brinquedo em seus hábeis dedos
compartilhamos tantos segredos
Hoje eu repouso sobre o chão empoeirado
O que resta de mim estraçalhado

O meu exterior reflete a minha dor
Meus olhos vermelhos com ardor
O mundo teve suas cores roubadas
No momento em que nossas memórias foram quebradas

O som já não me me alcança
Meu coração perfurado por uma lança
O dia se vai e traz a escuridão
Quase tão profunda quanto em meu coração

Enquanto o silêncio me conta a verdade
Minto pra fugir da realidade
Você encontrou um novo brinquedo
Dentro de mim criei um rochedo

Desaprendi como se faz para amar
Hoje vejo a vida passar
Vivendo em modo automático
Espero meu momento mágico

Hoje a saudade bateu. E eu, como sempre, apanhei...


Adolfo Rodrigues

domingo, 29 de novembro de 2015

Ser gentil é um desafio?

foto por: Ane Karoline



Além dos dias bons, das linhas bem escritas, das tardes de Sol, dos beijinhos na testa e das risadas. Além dos dias em que tudo caminha para o bem. Além dos momentos em que brilhamos e nos sentimos dignos, merecedores de gentileza. Além desses dias e momentos, existem os outros. Os outros são aqueles momentos em que não conseguimos ver tanto brilho, são momentos em que parece os motivos para a bondade não são suficientes. Os outros, são os momentos em que a gentileza não, parece fazer sentido e nem, tão pouco, efeito. Foi em um dos outros que eu fui capturada. Afinal, os dias sem brilho são tão mais comuns, não é mesmo?
Em um desses dias sem Sol, sem brisa e sem cor fui capturada pelo amor. Achando que entendia muito sobre gentileza e amor (aquele trágico erro humano: achar que entende de alguma coisa) , lá estava eu seguindo a trilha de mais um dia cinza, sem reparar pessoas, coisas, cheiros ou cores. Sentei-me em qualquer lugar e pus-me a ler qualquer coisa quando senti alguém aproximando-se. Não olhei, afinal, não queria conversar. Pela dificuldade em sentar-se no banco, percebi que o alguém era uma criança. Pior. Crianças fazem muito barulho. Senti-a espiar o que eu lia, espiar-me: minhas roupas, minha posição, minha alma. "Tia, olha essa florzinha que cheirosa. Vou te dar ela. Toma." Olhei a criança. Um metro e trinta de altura, cabelos bagunçados, mãozinhas sujas, bochechas coradas. Olhei a flor. Meio despedaçada, perfume exalando. Peguei-a. "Obrigada." A criança sorriu. "Acho que você precisa dela mais que minha mãe." Nem pensei. "Você acha que preciso melhorar meu cheiro?" A criança pareceu alarmada. "Não, tia. É para você se lembrar que você tem um cheiro bom, Minha mãe sempre me diz uma coisa que tenho de bom quando eu estou triste." Não tive tempo de agradecer, nem de pensar em agradecer. Ela saiu correndo e pulou no colo da mãe que nos olhava sorridente. 
Já li, reli, ouvi, escrevi e assisti muitas coisas sobre o amor e sobre a gentileza mas nada, na experiência de vida humana, consegue ser mais forte que a sensação. Naquele dia cinza, eu vi o rosto e o cheiro da gentileza. A única coisa que lamento é não tê-la abraçado e dito que aquilo foi mais gentil que o necessário. E se o gentil já é bom, imagine só o mais gentil que o necessário, mais gentil que o conveniente, mais gentil que o pedido, mais gentil que o escrito em revistas e na coluna de domingo.
Guardei a flor na página do livro que, coincidentemente, dizia "Vamos criar uma regra de vida...sempre tentar ser um pouco mais gentil que o necessário?" para me lembrar de criar essa regra, ao menos, em minha vida. E, já tentando ser mais gentil que o necessário, resolvi compartilhar essa experiência com todos (além dos envolvidos nas referidas gentilezas).
Há algumas semanas, criei uma enquete para a escolha do próximo desafio do blog. As pessoas que votaram, em sua maioria, escolheram o desafio intitulado "Ser mais gentil que o necessário"- o que significa que meu anjinho da flor não é a única pessoa interessada no assunto. Estava, ainda, ponderando a hipótese até ser capturada pela gentileza em um dia cinza. Sendo assim, relatarei os fatos do desafio de ser mais gentil que o necessário por sete dias. Quem sabe não estou criando um hábito para a vida? Caso você queira me acompanhar, queira me contar, compartilhar uma ideia ou experiência, sabe como me encontrar. Podemos tentar juntos e, no mínimo, ter boas histórias para contar. Vamos lá? Se cada um de nós, for um pouco mais gentil que o necessário o mundo vai ser um lugar melhor.


Caso você queira participar, mande um alô nos comentários, na nossa fanpage, no twitter ou email (viverescrever@gmail.com). 

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Eu e você, você e nós



"Se o conhecimento é inimigo da felicidade,
optarei por ser sábio"
Por que de todas as luzes do céu, nenhuma iguala a dos olhos teus
E desde que o branco da tua pele eu vi, as nuvens não são mais tão belas quanto antes
O vermelho da maçã me lembra seus lábios, retorcidos em um sorriso especial
E o seu cheiro me embriaga, como um eterno aroma divino

Você é areia e eu mar
Cheio de marcas deixadas pela vida
Você é luz e eu sol
Solitário em meu caminho de pedras

Você me presenteia com o riso
Razão maior e única do meu sorriso
Eu evito a vida pra não sentir dor
Vivo dormindo pra passar o tempo

O toque quente da sua pele
Me deixa suado com o contato
Medito e busco meu centro
Me desconcentro e penso em você

Nossas promessas vão transcender
E vamos nos esconder nos vãos que a vida oferecer
Nada vai nos acontecer
Queria mesmo era nadar dentro de você

Eu sou noite você é dia
Você podia ficar para sempre
Eu sou o mal que existe em mim
Você é fonte termal que me aquece inteiro

Todo dia eu te quero perto
Eu queria era ser mais esperto
Contando as horas para te ver de novo
Você é a única verdade que existe em mim


A vida passa e tenta nos afastar, lutamos firmes para suportar
Você é certeza em meu coração, não me preocupo com separação
Vamos ganhar da distância pelo cansaço
E continuar dando nossos passos...

Te vivo

Adolfo Rodrigues


sábado, 21 de novembro de 2015


 Alguma vez você já quis saber como os autores do Re(arte)culando fizeram alguma coisa?
Já quis muito tirar uma dúvida, ou dar uma opinião?
Queria conhecer melhor os autores?

  Se você respondeu sim para alguma das questões acima, vai gostar da novidade! Estamos abrindo um espaço especial só para você, leitor do blog, mandar suas perguntas. Entre hoje, 22/11 e dia 30/11 estaremos respondendo a todas as perguntas feitas a nós aqui no blog, ou nas redes sociais. Mande sua pergunta, comentário ou sugestão. Fale sobre algo de que gostou, comente um texto com o qual se identificou, ou apenas diga algo que deseje dizer. Estaremos gratos em responder da melhor forma possível.

Está aberto o #Perguntamento

Mande suas perguntas usando a #perguntamento no twitter, instagram ou facebook
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Instagram: Instagram

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Mais que apenas 7


"Foi quando entendi o que significava imperdoável,
que descobri que não sei perdoar"

Se eles sempre estiveram ali. não sei quando foi que os vi
Se nasceram de algum lugar, não sei como vou explicar
O fato é que agora estão, e não sei se embora se vão
Tornaram-se parte de mim, vão comigo até o fim

O primeiro é veneno certeiro, que corrói o ego inteiro
Rasteja como uma serpente gelada, mas queima como chama azulada
Pode ser vista no olhar, apesar de eu tentar disfarçar
A inveja me encontrou, e em algum lugar se instalou

O segundo aprendi com a vida, em uma situação sem saída
Ninguém quis abrir mão, então ele entrou em ação
Disse que ele não iria mudar, e trate de se acostumar
O orgulho me encontrou, e em outro lugar se largou

O terceiro aparece brincando, e em mim continua morando
Com seu sorriso dissimulado, consegue ser adulado
Luta pelo que deseja, sem nunca deixar que o preveja
A luxúria me encontrou, e ao meu lado se recostou

O quarto me ataca contente, sabendo que é convincente
Sem vergonha ou nenhum medo, não tem cerimônia ou segredo
Toma o que vê pela frente, e sempre expressa o que sente
A gula me encontrou, e o que queria devorou

A quinta é folgada e tranquila, nem se importa e nem vacila
Vive bagunçando a vida, se finge de boba em seguida
Gosta de ter me para si, e foi com ela que cresci
A indolência me encontrou, e em meu colo se deitou

A sexta eu achei sem querer, e levei para comigo viver
Não me importo se a acham ruim, é uma boa companhia pra mim
Nem sempre faz maldade, é a única que me diz a verdade
A ganância me encontrou, e comigo se acostumou

A sétima é deveras volúvel, e por demais imprevisível
Ela eu escondo mais fundo, tento escondê-la do mundo
Quando estoura é uma bagunça terrível, e me deixa com aparência temível
A ira me encontrou, e em meu colo se sentou

Os sete estão sempre ao meu lado, tentando me ver consertado
Me ajudam aqui e ali, aceitá-las aprendi
Jamais me arrependo de tê-las, e não ligo se não compreendê-las
O importante é que lutam assim, a família que criei para mim

Adolfo Rodrigues




terça-feira, 17 de novembro de 2015

Como fazer parte do time dos melhores?

 

  Não sei se você vai ter tempo para ler, não sei onde você está e, também, não sei como você vai reagir a isso mas achei que deveria lhe dizer. Achei que deveria lhe dizer que ainda dá tempo. Estava daqui observando e acho que ninguém te contou, não é? Não se preocupe, a gente não nasce sabendo: a gente vai se fazendo. Ninguém me contou também, mas quero muito investir minha energia em dizer-te isto: ainda dá tempo.
  Não precisa me dizer que a vida te ensinou a ser assim, eu já sei. Já sei que o comando sempre foi esse: seja melhor que os outros. Sei que lá no jardim de infância, a tia só pendurou na parede o desenho mais bonito. Sei que só quem grita mais alto é ouvido, sei que só são mencionados os que são tidos como melhores. Eu sei. Sei que os "melhores" são escolhidos por um padrão injusto que, no fim das contas, não sabemos quem foi que inventou. Eu nunca assinei nenhum contrato, nunca disse que queria e nunca concordei com a ideia de estarmos todos sempre competindo. Aposto que você também não. Então, porque estamos nós seguindo uma ideia que, no fim das contas, não nos favorece? Porque estamos agindo de acordo com uma filosofia que não foi pensada por nenhum de nós? A troco de quê, estamos matando-nos uns aos outros? Não ter essas respostas me relembra: ainda dá tempo.
  Não quero impor, insinuar ou sugerir a ideia de que somos todos iguais em grau, número e gênero. Não me apetece o discurso de que, no fim das contas, pensamos as mesmas coisas e temos as mesmas ideias, isso não é verdade. É discurso de quem tem preguiça de ver as singularidades. E, quando digo que ainda dá tempo, quero ressaltar exatamente isso: as singularidades. Nenhum quebra cabeça é montado com peças iguais: é a diferença que nos constrói e faz de nós necessários. Somos todos necessários. Pense por esse lado: olhe a infinitude de coisas que podemos construir. Juntos.  E ainda dá tempo.
  Não vejo um motivo, ou argumento, forte o suficiente para me convencer do contrário: juntos podemos reconstruir todos os laços, podemos reorganizar nossos passos e arrumar toda essa bagunça. Um pensa na forma, o outro vai dando um jeitinho, aquele ali fotografa, o outro aqui traz as cores enquanto uma galera canta para nos aquecer a alma. Uns vão falando e outros escrevendo. A uma ideia boa aqui, outra nem tanto. Uma discordância ali, às vezes, vira um canto. E em meio a tudo isso, você pode, ainda, estar em dúvida: será que ainda dá tempo? Sim.
  Sim. O não nós já temos até agora e, sinceramente, não me parece que tem dado certo assim. Então, sim, te convido a abrir mão, dizer não ao seu troféu de "o melhor", por agora,  para que possamos construir o planeta "dos melhores". Sim, quero investir toda a minha energia em dizer-te isso: ainda dá tempo. 

domingo, 15 de novembro de 2015

Me disseram, que a solidão me cai bem...


"Ele era um pedaço de tempo,
algo conhecido como livramento..."

Tempos aqueles em que a chuva caía
E as gotas contra a janela eu via
O peso dos céus no meu dia
As coisas da vida que eu não sabia

Era simples viver assim
Brincando com as pedras do jardim
Vivia pelos meios sem me preocupar com o fim
Mas ele chegou até mim

Foi rápido e certeiro
Me atingiu na cabeça primeiro
Me esmagou com o ponteiro
Me deixou sem meu inteiro

Aprendi a viver meio
Meio vazio e meio cheio
Vivendo de receio
Nem sei em quem mais creio

A outra metade partiu
Me deixou e sumiu
Sequer disse adeus quando desistiu
Ninguém jamais o sentiu

Durmo e acordo incompleto
Penso nisso direto
Durante a noite encaro o teto
Mas já não me afeto

Jamais quis ser perfeito
Às vezes eu me endireito
Mas logo me estreito
E me rejeito

Dos sentimentos conheci todos
Os importantes e os bobos
Enquanto uns são prezados
Outros são exagerados

Me disseram que assim me iludem
Que é assim que as almas sucumbem
Repentinamente somem
E aos poucos partem também



Adolfo Rodrigues 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Platônico


Você é, sob a lente dos meus olhos

Toda poesia que existe no mundo.
A boca vermelha que conta todas as histórias
Maiores e melhores que todos os livros.
Bilócas pretas, inseridas no lugar dos olhos
Me ensinam que a escuridão não é nada disso.
Estrela negra
Guiando para o caminho a ser seguido.
Nessa valsa dos ponteiros,
a gente segue.
Um pouco mais distante com decorrer da música.
Algumas palpitações quando você aparece,
Pois o ritmo acelera.
O toque suave de um piano quando você se expressa.
E aquele beijo, que eu nunca provei
Sempre ilustrado na mente e na tela.
Com a delicadeza de um Amor platônico.
Com a intensidade de um romancista.
Pincelado com o drama latino que corre nas nossas veias.
Destacando essa vontade de unir nossos corpos, o mesmo sexo, o mesmo olhar.
A sincronia perfeita das nossas ondas.
Eu poderia ganhar um prêmio por esse quadro.
Vindo De Pessoas Que colecionam Amores que não
Vingaram.

Rafael Henrique Costa


O Rafael Henrique é um jovem canceriano, cheio de ideias e planos. Eu já o conheço há algum tempo, mas, apenas recentemente ele me mostrou sua arte. O poema acima é de autoria dele, e me fascina pela forma particular de escrita. Obrigado pela colaboração "Rafinha". Esperamos vê-lo aqui novamente muito em breve. Sucesso sempre!
Equipe Rearteculando

Lou(cure)-se


"Abri a janela até o topo,
pra ver se entrava um pouco de vida"

   Tentei me recuperar,
juro que me esforcei
 Mas já era tarde
 Com a garganta ferida pelas palavras engolidas, pigarro
 Sempre olhando ao redor
Se você acompanhasse meus olhos ficaria tonto

Toda vez que a solidão me atinge,
Me afogo na espuma salgada de um mar gelado
A felicidade é mais gostosa
Mas a ela estou menos acostumado
É como o roçar da grama na ponta dos dedos
Ou o algodão doce derretendo na ponta da língua

A solidão é mais maleável,
Cabe em qualquer canto
Ela não precisa de luxo nenhum
Se acomoda em qualquer buraco
Soa mais fácil alimentá-la
Afinal ela come qualquer coisa

A felicidade precisa de mais
Necessita atenção, água e luz do sol
Exige uma força de vontade, que não encontro em qualquer mercado
Adubar com sorrisos honestos,
Aguar com lágrimas de "tanto rir"
Sorrir com mais do que apenas a boca

Mas há um remédio que serve para os dois
Faz engordar a solidão e crescer a felicidade
É paliativo, assumo
Mas não estou em posição de escolher muito
Loucura! Nem um pouco comedida
Sem peso nem medida

Faz a solidão ficar esquecida, deixada em um canto qualquer
Torna a alegria menos forçada, menos certa demais
Consegue sorrisos mais sinceros
Permite confissões mais honestas
Congela o estômago, nesse calorão danado
Cria memórias mais significativas

Acho que vou ficar com a loucura
Sai mais caro, mas compensa a longo prazo
Embale sete doses para a viagem
Semana que vem busco mais
Vou ter que diluir em algo, como álcool
Mas isso já me satisfaz

Adolfo Rodrigues

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Entalhado, esculpido, estampado



Não, nunca esqueço. Sempre fiz questão de escrever  minha vida inteirinha à máquina de escrever. Cada pequeno detalhe: cada sorriso, cada olhar,cada carícia, cada cuidado, cada música e cada silêncio compartilhados. Datilografo cada choro, cada falta, cada medo, cada ausência e, principalmente, registro todos os erros. Soa quase poética a minha mania de guardar cada impressão, mas quando a vida é escrita assim, não dá para apagar. E foi aí que perdemos um tempão.
Não nego minha mania de escrever à ferro e fogo. Quando associada à sua tendência de errar, faz de nós uma história incorrigível. Eu nunca fui muito de tentar corrigir: jogo tudo para o alto e recomeço. Você nunca foi muito de tentar consertar: espera acontecer, mesmo que nada aconteça. Sem correção, com muita conexão, sem coesão, com forte ligação, sem coerência, com inconstância. Montanha Russa nós dois, no fim, sempre deixando para depois. Desculpa, meu bem, mas o depois não vem. A gente sabe que essas desculpas já não nos cabem.  
Não há mais o que postergar, ao menos uma vez, vamos acreditar. Não vou rasgar o que escrevi e nem, tão pouco, riscar. Não vou rasurar minha vida. Nunca fui disso. Mas vou abrir mão do não. Vou abrir mão da perfeição. Não dá para apagar o que já escrevemos até aqui. Não dá para deletar, mas dá para continuar. Os erros vão continuar aqui, datilografados em nossa pele, e, assim, não teremos que cometê-los novamente. Seguir. Prosseguir. Escritos à maquina de escrever, não dá para apagar, mas isso nos mostra quanta história já temos e nos dá razão para continuar. 


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Você me quer...


"E enquanto o tempo me mantinha atento,
eu procurava por um leve alento"

Mergulhado da cabeça aos pés nas águas da solidão
Águas frias, correnteza selvagem
Pedras feitas de emoções, com as pontas mirando o céu cinzento
O sal amargo das decepções, na água gelada de mágoas

Continuo aqui, plantando flores azuis,
Na distância que existe entre nós
Enfeito a ponte que nos mantém afastados
Usando-a como memória para o que ainda temos

Os seus olhos gritam que você me quer
O seu corpo insiste em se atrair ao meu
E ainda assim os tornados de sentimentos que existem em você
Te impedem de enxergar o sol em mim

Enquanto você não for capaz de ver o que somos juntos
Continuaremos a viver vidas distantes
Olhamos para o mesmo céu, e vemos coisas diferentes
Enquanto juntos somos mais do mesmo

Somos chuva e sol
Combinados em um tempo ameno
Você é a escuridão profunda
Eu sou a vela de chama bruxuleante

Você é o céu noturno, chapiscado de estrelas esbranquiçadas
Eu sou o cometa que desliza pela sua epiderme quente
Você é a luz de um sorriso tímido
Eu sou a razão devassa da sua pele corada

Quando você é meu, existe apenas você
Seu corpo é cor, seus lábios minha morte lenta
Enquanto anseio por mais de você,
Você se derrama em mim, e transbordamos

Não escolha dançar sozinho,
Quando posso te embalar em nossos dedos entrelaçados
Escolha sentir a textura da minha boca na sua
Ao invés do frio do meu pensamento no seu

Te convido a esquecer as mazelas da vida
E entrar com o pé direito nos jardins de sensações que plantei para nós
Mergulhe de cabeça em meu desejo
E deixe a chama do meu sentimento te consumir por inteiro

Te espero em nosso canteiro...

Adolfo Rodrigues

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Eu sabia


Só não quis te dizer
Para você entender
Você teria que fazer
E então viver esse querer

Não se arrependeu
Se surpreendeu
Assim como eu
Se compreendeu

Não tem mais volta
Não adianta revolta
Que reviravolta
Te peço, não me solta

O seu gosto de luz
Sei cheiro que seduz
Seu olhar reluz
Seu toque induz

Vamos nos perder
Deixar acontecer
E quando anoitecer
Vamos agradecer

O tempo é pequeno
Nosso olhar sereno
Vejo seu aceno
Sinto-me aquecendo

Eu não tenho medo
Vou guardar segredo
E quanto ao desapego
Vou te dar sossego

Porém não me culpe
Se eu tua mente ocupe
E não se desculpe
O gostar se esculpe

Vai me ver te olhar
Se intimidar
Vai perder o ar
Mas se aventurar

Eu vou te provar
Esqueça o errar
Vem se experimentar
No meu abraçar

Escrevo pra viver
E para não esquecer
Que encontrei meu ser
Ao te pertencer

Adolfo Rodrigues

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Tão bem

"Eu te amo." Foi o que eu ouvi enquanto mergulhava naqueles olhos negros, estreitados ao me olhar, vestidos em uma camiseta poída que eu sempre adorei. Eu quis dizer que o amava também. Quis dizer que o amava tão bem! Achei pouco. Dizer "eu te amo" pareceu-me tão pouco, tão pequenininho, tão constrito, tão infinito. Esse tipo de coisa é tão infinita que cabe em um abraço. Dentro de um abraço tem tanto espaço que a gente não precisa dizer nada, até quer mas não precisa. Abraço fala sem sem gritar, balança sem perturbar, aturde sem deixar cair, não acaba antes de nos fazer sorrir. Abraço revela os segredos, que não cabem nas palavras, quando acolhe com o ombro a nossa cabeça que, por vezes, é consumida de pesos. O abraço é o que diz "eu te amo também" quando, no contato físico, os dois corações se encontram. 
Foi assim que resolvi: o abracei, deixando que nossos corações estivessem perto o suficiente para criarem uma melodia juntos. O abracei para que ele, além de ouvir, pudesse sentir meu abraço dizer "eu te amo tão bem". 

domingo, 1 de novembro de 2015

A casa da família Hapstall


                Eu detestei a ideia da viagem assim que meu pai a anunciou. Nunca gostei de viajar de carro. Era desconfortável, e, acima de tudo, entediante. Infelizmente, meu pai era do tipo de gente teimosa, que não muda de ideia fácil. Contra a minha vontade, organizei minhas coisas em uma mochila velha. Minha mãe continuava a reclamar que eu estava levando poucas coisas, e que a mochila não aguentaria tudo o que eu colocava nela.
                Nós passaríamos doze horas dentro de um carro em direção a uma pequena cidade, ao sul. Eu sequer me lembro do nome do lugar. O céu era cinza como concreto, e me dava calafrios apenas de olhar. Por isso, decidi usar as minhas botas. Ainda descalça, corri pelo quarto, para selecionar algum livro para levar comigo. Certifiquei-me de encher meu celular com músicas de que gostava, e de carrega-lo antes de partir. Meus pais tinham o péssimo hábito de ouvir músicas ruins e cantá-las ao mesmo tempo.
                A última coisa que fiz foi pegar um pacote de biscoitos e um guarda chuva. Entrei no carro de cara feia e tratei de abrir meu livro. Ingenuidade minha acreditar que conseguiria me concentrar.
- Por que está de cachecol? –Indagou minha mãe – Está se sentindo bem? Eu disse que você não devia sair à noite.
                Olhei para baixo, para o cachecol azul, de algodão, enrolado em meu pescoço. Estava frouxo, e cobria o colo de meu busto.
- É bonito. – Respondi.
- A garota está bem, pare de neuroses, Clarisse. – Disse meu pai.
                Uma discussão iniciou-se por causa disso. Eles falavam sobre mim e meus hábitos, como se eu não estivesse ali, no banco de trás, ouvindo-os perfeitamente. Em certo ponto, desisti da leitura e joguei o livro sobre o soalho do carro. Pluguei os fones em meus ouvidos e deitei-me sobre meu braço, o qual eu apoiei contra a porta do carro, formando um tipo de travesseiro. A música me distraiu, enquanto eu encarava a paisagem verdejante que passava como um filme pela minha janela. Meus olhos pesaram, e eu adormeci.
*
                O som de uma das portas do carro se fechando me acordou. Esfreguei as costas das mãos em meus olhos, preguiçosamente. Olhei ao redor, tentando me orientar. Era noite. No painel do carro, o relógio marcava uma da madrugada. Minha mãe abriu a porta ao meu lado, curvando-se para falar comigo.
- Vamos querida, passaremos a noite aqui, venha. – Orientou.
                Aqui? Aquilo não era um bom sinal.
                Sai do carro com as pernas meio bambas. O frio externo me atingiu, fazendo me tremer e abraçar-me, à procura de alento. Enfim ao lado de fora, olhei ao redor, apertando os olhos para tentar enxergar melhor. Estávamos em algum tipo de desvio, e havia uma casa grande à nossa frente. Ao olhar para trás pude ver a rodovia. Bosques sombrios, com árvores altas, se estendiam por todo o lugar, circundando a casa.
                O lugar era grande, com dois andares e estilo vitoriano. Era daninha crescia em suas bases, e eu não era capaz de identificar a cor das paredes externas.
- Onde estamos? –Indaguei.
- O GPS quebrou e tivemos que dar uma parada. Por sorte encontramos essa casa. Seu pai foi até lá, mas parece que está vazia. Com o GPS quebrado não podemos continuar, ao menos não em meio a essa escuridão. Passaremos a noite aqui. –Explicou minha mãe.
- Eu não acho que seja uma boa ideia. –Resmunguei – Por que não chamamos um guincho?
- Por que nosso carro não está quebrado! –Respondeu papai, caminhando até nós. Ele destrancou a mala do carro, e começou a retirar um pouco da bagagem. – E porque estamos sem sinal.
                Minha mãe caminhou até mim, passando os braços ao meu redor. O quão clichê era aquilo? Passar a noite em uma casa velha e abandonada, sem sinal de telefone.
- Vocês não assistem filmes? Casa velha abandonada significa: Vá embora se não quiser ter uma morte horrível. –Resmunguei.
- Isso é a vida real, Laura. Pare de besteiras, logo vai começar a chover.
- Podemos dormir no carro. –Retruquei.
                Papai apenas me encarou, revirando os olhos.
-Não custa nada tentar. –Disse.
- Vamos querida! – Orientou.
                Suspirei. Aquilo não me agradava nem um pouco, mas estava cansada demais para discutir. Estiquei o braço para dentro do carro e peguei minha mochila, jogando sua alça sobre meu ombro e fechando a porta do veículo em seguida. Segui minha mãe, ouvindo nossos pés esmagarem a terra úmida sob nossos pés. Papai ia à frente, com a lanterna do celular ligada, guiando-nos. Enfim alcançamos o alpendre da casa, onde subimos alguns degraus, antes que meu pai abrisse a velha porta de madeira.
                A casa estava úmida e cheirava a mofo. O odor era intoxicante e fazia minhas narinas coçarem. Olhei para cima, ouvindo o vento uivar contra a madeira no telhado escuro. O assoalho velho rangia a cada passo que dávamos. À nossa frente havia uma escadaria longa, que levava ao andar de cima. Ao lado esquerdo estava a cozinha, ao direito a sala de estar. Papai virou-se para nós.
- Eu vi um disjuntor lá atrás, vou ver se consigo alguma luz para nós. –Ele entregou o celular para minha mãe e saiu.
                Caminhei dentro da escuridão, observando os detalhes da casa. A única mobília que havia ali eram três sofás velhos, que formavam um “C”, na sala. As paredes estavam descascando, e provavelmente o aquecedor não estaria funcionando.
- Laura, eu vou ver se há água nas torneiras da cozinha. Volto em um instante. –Disse minha mãe.
                Olhei para trás e assenti. Ela saiu, caminhando apressada, e levando a única luz que havia ali. Saquei meu celular do bolso e acendi sua lanterna. Continuei caminhando, saindo do hall e adentrando a sala de estar, onde estavam os sofás. Não havia cortinas, e um dos vidros da janela norte estava quebrado. Eu usava a claridade da lanterna para me guiar, enquanto observava as paredes. Foi apenas quando ergui o facho de luz um pouco mais que notei a grande pintura, pendurada na parede em frente aos sofás.
                O retrato era grande, com as bordas comidas por cupins e a cor desbotada. Nele havia três figuras. Um homem velho, com a barba cheia e a feição séria, uma mulher elegante, com longos cabelos louros e cacheados, e uma garotinha, de cabelos compridos e lisos. Foi a disposição das pessoas no retrato que me chamou a atenção. O pai e a mãe olhavam para baixo, para a filha, com feições duras, como se a reprovassem por algo. A garota, no entanto, parecia me encarar diretamente.
                Andei para o lado, sem mover a vista dos olhos dela. Eles pareciam me acompanhar. Era um daqueles retratos em que, não importa onde você esteja, estará olhando para você. Ótimo. Um chiado chamou minha atenção.
- Temos água! –Gritou mamãe, de algum lugar distante.
- Ótimo! – Gritei em resposta, sem olhar para trás.
                No segundo seguinte a luz da sala se acendeu. Meu coração deu um salto, mas apenas por um segundo. Olhei para trás. Papai estava ali, com um sorriso satisfeito no rosto.
- E temos energia também. – Disse – Quem são os figurões? – Indagou, indicando o quadro à minha frente com um movimento de queixo.
                Olhei para trás, observando a figura novamente.
- Não sei. Gente estranha. –Respondi.
- E não somos todos?
- Pare de colocar essas ideias na cabeça dela, Richard. –Disse mamãe, entrando na sala – Vá buscar os cobertores no carro.
                Meu pai assentiu, retirando-se.
- Há um banheiro no fim do corredor. Vá aprontar-se para dormir. – Orientou Mamãe.
                Assenti.
                Caminhei até o fim do corredor, onde havia uma porta branca. Empurrei-a, com certa cautela. Deslizei a mão pela parede ao meu lado, até esbarrar no interruptor. Pressionei o pequeno botão, iluminando o cômodo.
                Era um banheiro simples. O assento ficava no canto, havia uma pia, com espelho acima, próximo à porta, e um chuveiro no canto mais distante. Ignorei o assento, virando-me para o espelho. As olheiras sob meus olhos eram arroxeadas, e eu estava pálida. Não que eu não fosse, mas parecia mais visível nesse lugar. Passei os dedos entre meus longos cabelos castanhos, desembaraçando-o.  Meu rosto era fino, e meus olhos quase negros. Eu era magra, e baixa. Liguei a torneira e juntei as mãos em concha, para pegar um pouco de água. Usei-a para lavar o rosto e o pescoço. Então me curvei e peguei minha escova e pasta de dentes. Algo naquele ritual de me preparar para dormir me acalmou.
*
                No final das contas acabei ficando com o sofá menor. Era a coisa mais lógica, já que meu pai tem quase um metro e noventa de altura, e eu apenas um e sessenta. O outro sofá parecia em melhores condições, por isso me apressei e deitei-me nesse, para que mamãe pudesse ter ao menos um pouco de conforto. Se é que isso era possível.
                Ela havia trago pães e frutas, e foi apenas o que comemos. Meu pai reclamou, mesmo depois de ter comido seis pães. Ele havia encontrado um pedaço de madeira para cobrir o buraco no vidro da janela, enquanto mamãe havia encontrado algumas velas, para nos aquecer, pois não havia aquecedor por aqui. Elas não fariam grande diferença, mas seria bom não ter que dormir no escuro total.
                Nós conversamos um pouco, depois que as luzes foram apagadas. Papai foi o primeiro a dormir, seguido de minha mãe. Eu, no entanto, estava agitada. O vento ao lado de fora fazia sons assustadores, e a falta de cortinas fazia com que sombras dançassem pelo teto. Decidi que seria uma boa ideia ouvir música, mas a bateria do meu celular estava baixa, e não havia tomadas por perto. Decidi ler.
                Peguei a mochila, no chão, ao lado do sofá, e comecei a vasculhar. O livro não estava ali. Foi quando me lembrei de que o havia largado no carro. O mais silenciosamente que pude, calcei minhas botas e caminhei até a porta de entrada. Ela fez um ruído alto quando a empurrei, mas não alto o bastante para acordar meus pais.
Corri em direção ao carro, abrindo a porta de trás assim que o alcancei. Procurei pelos bancos, sem sucesso. Acendi as luzes do teto, e continuei minha busca. Enfim o avistei, debaixo do banco do motorista. Curvei-me em direção a ele, pegando-o com suavidade. Com o livro em mãos, afastei-me e fechei a porta do automóvel. Virei-me de maneira corriqueira, para voltar a casa, mas congelei ao olhar direito.
No canto lateral direito da casa, havia a silhueta de uma figura humanoide, agachada. Ela se colocou de pé, revelando um corpo masculino, alto. Duas luzes esbranquiçadas eram seus olhos. Levei a mão à boca, prendendo um grito. O que era aquilo?
Era alto demais para ser um homem, e magro demais também. Com a respiração entrecortada, e os olhos vidrados, retirei a mão que cobria minha boca e a levei ao bolso de meu casaco. Saquei o celular e o ergui na altura dos olhos, desviei o olhar por apenas um segundo, enquanto localizava a lanterna.  Apertei o botão que a ligava, e ela se acendeu. Mas não havia mais nada ali. Eu mal podia respirar. Era como se meus pulmões houvessem murchado e o ar não conseguisse inflá-los. Meu estômago pesava com uma tonelada de medo que havia se instalado ali. Era como engolir uma bigorna, fria. Eu tinha de avisar meus pais. E se ele não estivesse sozinho?
Dei um passo para frente, decidida a correr de volta para dentro da casa. Antes que eu pudesse dar o segundo passo, a porta da frente bateu, com um ruído alto. Não pude conter meu grito.
- Não!! – Me desesperei.
                Tomei fôlego e corri de volta em direção a casa. Alcancei-a em um segundo, subindo os degraus depressa e levando a mão á maçaneta da porta.  Eu esperava alguma resistência, mas ela girou com facilidade. Irrompi porta adentro, sem sequer olhar para trás. A lanterna do celular ainda estava ligada, e me dirigi à sala de estar imediatamente.
                Meu mundo caiu quando notei os sofás vazios.
- Mãe! Pai! –Gritei a plenos pulmões.
                Os cobertores deles estavam no chão, mas não havia sinais de combate. Continuei a gritar, olhando ao redor, atordoada. Quando o facho de luz atingiu o retrato na parede, eu comecei a chorar. A figura estava vazia...
Continua...