sábado, 28 de março de 2015

Equilíbrio nosso de cada dia.

   
Foto por: Ane Karoline


   Todo mundo tem uma prateleira torta na parede. Aquela prateleira que a gente finge que esquece durante todo o dia mas quando se deita para dormir percebe: está torta. Não torta o suficiente para que se tenha forças para levantar e resolver imediatamente, mas  a gente sabe que entorta um pouquinho mais a cada dia. Na verdade, esse é o tipo de coisa que a gente dorme esperando que esteja resolvido quando nos levantarmos pela manhã.
   Mesmo sabendo que esperar que tudo esteja resolvido pela manhã é colocar mais peso sobre a prateleira, fazendo com que ela fique ainda mais torta, nem sempre a gente tem um diploma de encanador quando o cano da pia estoura, assim, a gente nem sempre sabe como consertar a prateleira quando ela começa a entortar. Nem sempre a gente está pronto. Nem sempre, sobretudo, a gente sabe onde colocar os pesos que acumulamos sobre a prateleira. E é assim que alimentamos o ciclo de "resolvo depois. Tô preocupado demais para resolver agora."
   Então é isso: às vezes a gente sai por aí, rindo na fila do pão mesmo tendo uma prateleira prestes a cair a qualquer momento. A gente carrega sobre a cabeça o peso de uma prateleira torta andando pé ante pé, tentando equilibrá-la para não cair, e ninguém sabe.A gente vê das pessoas o que querem que vejamos, não quem realmente são. Quem coleciona fotos sorridentes pode não ter nenhum motivo para sorrir. Afinal, quando se vê uma foto do céu não estamos verdadeiramente vendo o céu: estamos vendo o recorte feito pelo fotógrafo, vendo o que o fotógrafo quer que vejamos. Há uma profundidade infinita que os olhos não alcançam. Quer dizer, a gente nunca sabe o que acontece dentro do outro. Algumas coisas não estão escritas na testa da gente.
   Não é que caiba a nós saber as razões porque a mocinha do ônibus rói as unhas até sangrar ou porque a caixa do supermercado não consegue responder o "bom dia". É exatamente isso: às vezes não cabe.Cada um de nós é um mundo, um mundo tão complexo e cheio de detalhes que ninguém vai compreender totalmente.  Então não podemos e nem devemos nos colocar em posição de conhecedores das razões dos outros. Não conhecemos totalmente nem o nosso próprio mundo, como vamos conhecer os mundos alheios? 
   Talvez o amor seja isso: respeitar aquilo que não entendemos. É não medir o outro com os meus números. Não julgar ninguém com as minhas leis. É entender que tanto quem sorri na fila do pão  quanto quem não responde o seu "bom dia" tem uma prateleira, cheia de dúvidas, medos, problemas, paixões, amores e desamores, tão pesada quanto a sua para equilibrar sobre a cabeça.


Ane Karoline