sábado, 30 de maio de 2015

Rearteculando a Real Life

   Vinte e duas mensagens de pessoas diferentes, oito e-mails, duas ligações não atendidas e nenhuma pessoa sentada ao lado para perceber que não tem nenhum "kkk" estampado nos rostos. As ligações, às vezes, a gente não atende para não dar muita bandeira do nosso real estado emocional. As ligações, na atualidade, são extremamente pessoais. Se as ligações são pessoais, as visitas ultrapassam a pessoalidade: são inexistentes. As visitas têm sido dispensadas pela infinitude de possibilidades existentes através de um aparelho portátil. Essa infinitude de possibilidades é a criadora do infinito abismo existente entre as pessoas.
   É reconfortante saber que existe a possibilidade de comunicação instantânea com primos distantes e que não se pode visitar com frequência, inclusive isso ajuda a adiar a visita: a comunicação é frequente, com a presença de um ou dois "estou com saudades" para aliviar a consciência e economizar tempo: ninguém mais tem tempo. É uma rotina de quinze tarefas anotadas na agenda, um livro aberto, sobre a mesa, na mesma página por três dias, relógio avisando que já passa da hora de dormir e parece que nada foi feito: ninguém tem mais tempo. E essa soma de estar sempre ocupado com a sensação de não ter conseguido concluir as tarefas só pode ter um resultado: a frustração. E nada melhor que mais um tempinho jogando no celular para se recuperar da frustração de mais um dia jogado fora, né?
    No fim das contas, dos 223 contatos no whatsapp, quantos podem, sincera e espontaneamente, oferecer um ombro seco naquelas noites de fim de carreira? Das 420 mãos que foram necessárias para os 210 likes na foto da festa de sexta, apenas uma seria suficiente para enxugar algumas lágrimas, ou para te ajudar a levantar. Mas são 420 mãos virtuais, são 223 contatos que não estão realmente presentes, são 22 mensagens que não existem na vida real. A gente investe o nosso tempo real em 22 duas mensagens que se perderão em meio à tantas outras, tão irreais quanto.  A gente investe o nosso tempo real em postar a foto do céu ao invés de contemplá-lo. Aliás, será que o nosso tempo -assim como nossa vida- ainda é real?
   Mesmo sabendo que essa era digital tem suas inúmeras vantagens, a partir da reflexão sobre essa vida não palpável que estamos vivendo, pensei em reartecular a vida real com o desafio #RearteculandoRealLife. Mas, provando que tenho relações na vida real, não me meti nessa sozinha: convidei alguns amigos que não me decepcionaram e se prontificaram e compartilhar suas experiências.

domingo, 24 de maio de 2015

Ballet, como faz? Passos de bailarina parte 1: "Eu louvo a dança".



   Recebo, inúmeras vezes, o título de otimista por sempre conseguir acreditar  que vida pode ser mais doce e os nossos passos podem, sempre, ser mais leves: depende do quadro que a gente pinta para a vida da gente, depende da coreografia que a gente escolhe para a nossa vida. Eu tenho a sorte de encontrar pessoas que compartilham comigo a vontade de re(arte)cular a vida. Tenho a sorte de encontrar, em meu caminho, pessoas que compartilham comigo a vontade de ser mais leve, de dançar a vida. E foi em um desses passos, da minha dança pessoal, que encontrei um alguém especial que dança comigo desde então e que vou apresentar para vocês durante esse mês de junho. Eu a entrevistei para mostrar a vocês uma outra visão otimista da vida- que não a minha- e melhor: uma visão de uma artista, uma bailarina. Não me delongarei, ela faz as honras de se apresentar. 
  •  História pessoal com a dança
Eu louvo a dança

A dança significa transformar o espaço,

o tempo e a pessoa, que sempre corre perigo
de se desfazer e ser ou somente cérebro,
ou só vontade ou só sentimento.
A dança, porém, exige o ser humano inteiro,
ancorado no seu centro,
e que não conhece a obsessão da vontade de
dominar gente ou coisas,
e que não sente a demonia de estar perdido em
seu próprio ser.
[…]
Ó homem, ó mulher, aprende a dançar,
senão os anjos do céu não saberão o que fazer contigo.


Santo Agostinho, em Eu louvo a dança

   E é com as palavras de Santo Agostinho que começo a escrever a minha história na dança. Primeiramente, (bom dia, boa tarde, boa noite!). Meu nome é Ana Luiza e fui convidada à escrever para vocês sobre minha experiência na dança. Sempre fui apaixonada por ballet, e apesar de fazer dança de salão desde cedo, não tive a oportunidade de começar a dançar ballet desde criança. Sim, comecei já ''bem tarde''- como diriam os leigos. E é sobre essa experiência maravilhosa que venho até aqui começar essa maratona de textos com vocês.  Aos dezoito anos, isso mesmo, DEZOITO ANOS, criei coragem e fui até a escola mais próxima de ballet para me matricular. Depois, claro, de pesquisar, ler estórias e depoimentos de meninas mais velhas, tirei a vergonha da cara e fui! Chegando lá me surpreendi com a quantidade de meninas mais velhas se matriculando, e algumas já dentro da sala de aula. (QUE EMOÇÃO!)
   Meu coração disparou, e por alguns segundos conseguia ouvi-lo bater tão forte que pensei que outras pessoas também conseguiam escuta-lo.  A emoção de comprar o primeiro collant, a primeira sapatilha meia ponta, a primeira meia fina, que de tão pequena parecia não me caber: até coloca-la e me sentir uma bailarina nata! Lembro que minhas primeiras aulas seriam em dias de terça e quinta-feira. Não me aguentava de tanta felicidade. Sempre fui muito tímida- mesmo que consiga disfarçar bem- mas já havia trabalho essa timidez na dança de salão, então imaginei que seria mais fácil.
   A escola em que me matriculei, é uma escola profissionalizante. Lá nós temos aulas práticas, teóricas e provas semestrais. Quando entrei, a minha turma já tinha uma prova prática marcada, e eu teria que aprender as cincos posições básicas naquele mesmo dia para que pudesse fazer a prova na outra semana. Assim que aprendi as cinco posições, na outra aula tive que aprender uma coreografia (com essas cinco posições), sendo ela de cinco minutos. Aí vocês podem me perguntar: “Mas só cinco minutos?” Deixem-me contar-lhes um segredinho: cinco minutos em uma coreografia de ballet iniciante, É UMA ETERNIDADE!!!
 Além de ter postura, você precisa concentrar na respiração, já que por mais dor que esteja sentindo, você precisa se mostrar leve! Para dar uma ideia a vocês, o que aprendi em uma única aula: 
POSTURA;
RESPIRAÇÃO CORRETA;
POSIÇÃO DE BRAÇOS SEGUIDAS DAS POSIÇÕES DAS PERNAS E PÉS;
QUEIXO LEVANTADO!!!!
  Gente, é muita informação! Depois de uma hora, aprendendo tudo isso, a recomendação da professora era: TREINO. Eu precisava treinar em casa para conseguir fazer a prova, já que as meninas da minha turma estavam treinando isso há um mês. Nossa mestre, que é professora e diretora da escola, estava de licença maternidade e só iria aparecer na escola no dia da prova para nos avaliar. Meu nervosismo foi à flor da pele. Pois na quinta feira lá estava eu, morta por dentro, me tremendo até o último fio de cabelo. Aprendi as contagens da música ali mesmo, porque não tive tempo para isso. Uma fila de meninas nervosas, todas com a idade entre 16 e 18 anos. Isso mesmo, eu era uma das mais velhas. A professora ia chamando pela ordem de chamada convencional, e lá fui eu, a segunda a ser chamada.
Entrei para me apresentar:
- Olá!
-Olá!
- Seu nome completo e idade por favor!
-Ana Luiza M. R. P de Azevedo, dezoito anos!  Já estou velha pra isso né? (risinho nervoso)
-Velha? Não existe velhice para nada que a gente queira para nossa vida! Pode se posicionar.
   E lá estava eu, me sentindo a bailarina, me olhando no espelho com o queixo para cima, me encarando no espelho, pensando no meu futuro ali dentro. Consegui dançar a coreografia inteira, agradeci e sai da sala com o sentimento de dever cumprido! E hoje estou à dois anos (quase três) fazendo a coisa que mais amo na vida: DANÇAR.
   No nosso segundo encontro por aqui, vou falar mais detalhadamente sobre meus treinos e rotina. E se você, como eu, tem o desejo de se tornar uma bailarina, ou um bailarino vá em frente. Não deixe ninguém te dizer que você não vai dar conta. Exemplo disso sou eu!

Abraços, Ane Karoline e Ana Luiza.


LIVROS EM PAUTA - CONGRESSO DE LITERATURA, QUADRINHOS, RPG E OUTRAS MÍDIAS NERDS

Em sua quinta edição, Livros em Pauta ampliou programação para contemplar também o universo das histórias em quadrinhos, games e jogos de RPG. Todas as atividades são gratuitas, abertas ao público e com censura livre.
Concebido como um encontro de profissionais e público ligados ao livro e à literatura, o Livros em Pauta - que realiza sua quinta edição no dia 30 de maio, em São Paulo – ampliou a programação para contemplar outras áreas de interesse: quadrinhos, cinema, séries de TV, RPG, games e outros produtos relacionados à cultura pop.
O consumidor de livros, ao longo dos anos, passou a apreciar outros tipos de mídias correlatas. Basicamente, essas pessoas consomem histórias, não importando em qual tipo de suporte elas se apresentam”, explica Edson Rossatto, editor da Andross Editora e organizador do evento.
As atividades, todas gratuitas, incluem palestras, bate-papos, workshops, encontro do Clube do Livro e mesas redondas sobre diferentes temas, como crítica literária, mangás, jornalismo turístico, direitos autorais, dublagem, adaptações para cinema e muitos outros.
Entre os nomes confirmados estão os jornalistas e escritores Gonçalo Jr. e Paulo Gustavo Pereira, o editor responsável pelas revistas em quadrinhos da Disney, Paulo Maffia, e o ator Felipe Folgosi, que recentemente teve seu projeto para a graphic novel Aurora financiado de forma coletiva.
O evento dispõe de uma área com mesas de editores e autores para o público adquirir livros, gibis e itens com temática nerd – camisetas, canecas e ímãs – a preços promocionais, e também uma sala reservada para os jogadores de RPG.

Lançamentos

Durante o Livros em Pauta, acontece o lançamento de oito antologias de contos literários publicadas pela Andross Editora. São elas: De Repente, Nós; Viagens de Papel; As Quatro Estações; Legado de Sangue; King Edgar Hotel; Imaginarium; Além das Cruzadas e Sede – Contos distópicos sobre um futuro sem água. Os autores estarão disponíveis para conversar com o público e distribuir autógrafos.
(Veja abaixo a entrevista do organizador do evento Livros em Pauta, Edson Rossatto)

PROGRAMAÇÃO

11:00 às 12:30

Palestrante: Altemar Domingos

Palestrante: Alfer Medeiros

Palestrante: Alice Reis

Palestrante: Átila Oliveira

Palestrante: Alan Uemura

Palestrante: Renato Modernell

13:00 às 14:30

Curadoria: Edson Rossatto

Curadoria: grupo Traçando Livros

Palestrante: José Carlos Júnior

Palestrante: Miragaia René Angelino

Palestrante: Lúcia Helena Bettini

15:00 às 17:00

Palestrante: Vinicius Cestari

Curadoria: Edson Rossatto

Palestrante: Gledson Zifssak

Debatedores: Cesar Patoulos, Natália Borges e Fernando Augusto Dias Afonso Mediador: Bruno Anselmi Matangrano

Debatedores: Denise Simonetto e Gonçalo Júnior Mediador: Maurício Muniz

Debatedores: Paulo Maffia, Rogerio Saladino e Ivan Barbieri Mediador: Marcelo Naranjo

Debatedores: Paulo Gustavo Pereira, Silvia Helena Penhalbel e Surya Bueno Mediador: Eduardo Marchiori

17:30 as 19:00

Palestrante: Alessandra Barros Marassi

Palestrante: Juliano Barbosa Alves

Debatedores: Felipe Folgosi, Luciana Masini e Filipe Larêdo Mediador: Wilson Simonetto

Debatedores: André Morelli e Clóvis Furlanetto Mediador: Alan Uemura

Debatedores: Marcello Simão Branco, Roberto de Sousa Causo e Paulo A. Zoppi Mediação: Luciano Marzocca


Durante o dia

Diversos jogos de RPG Público-alvo: qualquer um que queira jogar

SERVIÇO:
Livros em Pauta – Congresso de Literatura, Quadrinhos, RPG e outras mídias nerds
Data: 30 de maio
Horário: 10h às 20h
Local: Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação – FAPCOM (Rua Major Maragliano, 191 – Vila Mariana – São Paulo – próximo à estação Vila Mariana do metrô)
Entrada gratuita – Censura livre
Todas as atividades são gratuitas; porém, as vagas são limitadas e preenchidas por ordem de chegada

Mais informações para a imprensa:

Edson Rossatto
11 2943-7687
11 98217-6191
edson@andross.com.br
www.livrosempauta.com.br

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Você é naturalmente mau?

   

   "Quer ler, moça?" me perguntou o senhorzinho, ao meu lado no ônibus, que lia um jornal e me notou me esticando na tentativa de ler o jornal que segurava. A matéria intitulada "Comovidos, policiais pagam fiança de ladrão e fazem compra para ele" me chamou atenção e fui bem audaciosa "Quero sim, obrigada. Obrigada." A situação foi inusitada desde o início, quer dizer, ele viu o meu interesse, me viu. A situação foi inusitada porque nós não temos mais o costume de ver uns aos outros. A gente esbarra em gente o tempo todo mas não as vemos. 
   O que li- me deem licença poética, e humana, para dizer-  foi igualmente inusitado e me deu esperanças de ver gente agindo como gente, seres humanos usando sua capacidade  de associar o afeto e a razão para ponderar, refletir e, sobretudo, agir e não ficar de braços cruzados. Aprender a ficar de braços cruzados foi o nosso pior aprendizado. Na verdade, essa atitude de ficar de braços cruzados está equiparada à de fingir que não viu. Afinal, se eu fingir que não vi a criancinha, esfarrapada, vendendo bala no sinal ela some, né? E aí, ufa, eu não tenho nada com isso. Se eu colocar os óculos escuros quando passar pela fila de gente, esperando no Sol quente, por atendimento no hospital eu não vou tê-los visto e não vou ter que testemunhar nada. Se eu fingir que não vi que o meu vizinho é o cara que aparece na TV por ter roubado carne para alimentar o filho eu, provavelmente, não vou ter nada a ver com isso até o momento em que o dono da carne roubada seja eu. É mais ou menos isso, né?

domingo, 10 de maio de 2015

O carrossel da sua vida gira?

   
Foto por: Ane Kelly


   Eu cortei o cabelo. Cortei, também, meus dedos nas cordas afiadas do violão de tanto tentar compor alguma coisa, acredita que, finalmente, eu consegui? Pois é, eu nem te contei, né? Também não contei que quase fui sequestrada e que li quatro livros maravilhosos no último mês. Não contei do meu novo trabalho artístico, do problema no banco, da cirurgia do meu tio e nem te chamei para comemorar o aniversário da minha mãe. Pensando bem, não te contei nem que mudei de sonho, de gostos e de jeito. Parando aqui para calcular, percebi que a última pessoa para a qual pensei em contar foi você. Pelos meus cálculos a gente não só não se pertence mais: a gente nunca se pertenceu. 
   A verdade, meu bem, é que a gente tem que largar essa ideia fixa de que as pessoas nos pertencem, aliás: temos que ser cautelosos com qualquer ideia que tenha a pretensão de ser fixa. Qualquer coisa que tenha essa característica invariável, inflexível não pode ser agradável. Nós, por exemplo, sempre seguimos um padrão de comportamento: um lado sempre fez besteira e o outro lado sempre tentou consertar. Se, ao menos uma vez, as coisas fossem diferentes, flexíveis, maleáveis, nós conseguiríamos caminhar lado a lado, sem que ninguém tivesse que carregar o outro nas costas, poderíamos caminhar lado a lado sabendo que todos somos carne, osso e um turbilhão de emoções: não há como sermos rígidos e constantes. E foi, por ser alguém de carne, osso e um furacão de emoções que eu desisti de tentar fazer de mim um baú que recebe e guarda tudo, que sempre tem um espacinho a mais para coisas que não merecem um espacinho. Desisti, finalmente, de ser um baú que guarda coisas que, há muito, deveriam ter ido embora.
   É isso mesmo: às vezes a gente tem que se despedir para poder avançar. É mais saudável ter uma lembrança bonita e verdadeira dos dias de Sol na sorveteria e dos abraços quentes nos dias frios, do que manter-se acorrentado a alguém que não te faz mais rir durante o sorvete não consegue mais te entender e consolar em um abraço. É totalmente natural que você, que costumava saber tudo sobre mim, não me conheça mais o suficiente par me consolar em um abraço e nem tenha mais tanta intimidade me arrancar um sorriso durante um sorvete. O que não é natural é manter uma relação acorrentada: quando duas coisas estão acorrentadas uma, naturalmente, se arrasta e, nesse caso, quem tem sido arrastada sou eu. 
   Não é que eu esteja sendo radical, mas alguém tem que ter a coragem, né? Não quero nunca apagar nada e nem vou falar de ponto final, mas é preciso tirar as engrenagens que não funcionam mais para que o carrossel da vida gire. Se for para existirmos você vai saber se transformar em uma engrenagem que é cuidada e que funciona.  Afinal, se ainda existíssemos eu não precisaria falar do corte de cabelo: você notaria. 


Ane Karoline

domingo, 3 de maio de 2015

Qual é a sua medida?

Foto por: Ane Karoline


   O meu desejo é que a gente não se acostume com metades. Sejamos inteiros para nos relacionarmos inteiramente, para que possamos sentir inteiramente e para que nossas palavras sejam inteiras: sejam palavras carregadas de significado e de verdade. Que as nossas palavras sejam inteiras o suficiente para dizerem exatamente o que devem dizer e não sejam subterfúgios. 
   Que tenhamos a inteireza de ter coragem de dizer o que precisa ser dito, sem deixar nada nas entrelinhas. Porque é que a gente insiste em escrever nas entrelinhas se podemos escrever nas linhas? A escolha de dizer as coisas em meias palavras, com meios sorrisos desenhados no rosto faz com que sejamos figurantes da nossa própria história, afinal, quando a gente não é inteiro o suficiente para ser sincero com o outro, e dizer exatamente o que queremos dizer, é porque a nossa relação pessoal conosco é de mentira: existe mentira pior que mentir para si mesmo?
   Mentir para si mesmo é pedir que o outro minta para nós. Não dizer para a garota do cursinho de inglês que gosta dela e agir despretensiosamente, esperando que ela te note por si mesma, pode ser a chave para que ela se sinta desprezada: no happy ending. Não dizer para uma amiga de infância que está chateada com ela, com sorriso no rosto e a mágoa crescendo no coração é perder a chance de esclarecer a situação e cultivar a amizade. Não dizer ao seu avô que o ama e esperar que ele saiba disso porque você o visita uma vez por mês é perder amor.
  Não ter a coragem de dizer que gosta de alguém, por medo, ou não ter a coragem de resolver um mal entendido, por achar que é perca de tempo, para mim, é conversa de quem tem preguiça de viver. É papo de quem vive na beirada mas nunca pula, de gente de que joga a sujeira para baixo do tapete. É papo de gente que não tem vontade para escrever a própria história, ou que nem tem história para escrever.
   Já me dizia alguém que amo muito: quando a gente tem que escolher as palavras é porque a relação ainda não é verdadeira. Se não somos inteiros para dizer o que o nosso coração pede, sem filtros e nem freios, não inteiros o suficiente para receber palavras inteiras. Se não fizermos questão da verdade, não somos dignos de recebê-la.
   O meu desejo é que a gente não se acostume com metades. O meu medo é que já tenhamos nos acostumado. 

Ane Karoline