sábado, 24 de dezembro de 2016

Hoje não, é Natal.



Em meio à tanta correria, desespero, pressa, desastre, medo, anseios, e frustrações, a gente vai perdendo algumas coisas; de tanto correr, a gente não chega a lugar algum. Eu mesma, percebi hoje, na véspera, que era Natal por ter ouvido a moça, no ônibus, conversar ao telefone: Meu bem, vamos deixar para conversar sobre isso quando estivermos mais calmos? Hoje não, é natal. Senti um choque, uma pontada do lado esquerdo do peito e um nó na garganta: me lembrei da luz diferente que sempre me contagiou em dezembro e que me fazia pensar: desespero, hoje não. 

Sempre foi assim, pelo menos para mim. Sempre, desde 1995, Dezembro tem uma coisa especial, uma coisa além de especial. Além das luzes, além das músicas, além dos gorros vermelhos, além das rabanadas, além das árvores, além das piadas, além dos risos e das lágrimas, além dos especiais do Mickey, além dos presentes e além dos ausentes. Uma coisa que, apesar dos abraços, parece quase intocável, quase impalpável, quase inventada, quase santa: uma sensação. 

Não vou negar a possibilidade de ser uma emoção causada pela comoção que ocorre quando se vive em um seio Cristão, como eu sempre vivi. Mas é uma emoção boa, é um impulso. Um impulso de fazer o que é bom, de agir com gentileza e de abraçar aquele amigo que sumiu. É uma disposição, não imposição, para agir com um pouco mais de suavidade e doçura; uma energia que paira e desacelera o coração. E, apesar do pesares, não tem como um temperamento assim ser ruim. 

Com pesar dos pesares, me refiro ao fato dessa gentileza durar apenas um dia, quando dura; me refiro ao fato de uns esbanjarem ceia farta, enquanto outros não podem comer; me refiro ao fato de que ter tem mais peso que ser; e me refiro, principalmente, à aversão por essa gentileza. Eu sei, é só por um dia. Mas dentre tantas tristezas, tanta violência e tanta hostilidade, eu opto por comemorar a inspiração de um dia de amor - ou da tentativa de agir com amor. Esse um dia, pra mim, parece uma esperança que de, em algum momento, possamos começar a agir assim por dois dias, uma semana, um mês, ou um ano. 

Pra mim, essa é a Santidade maior da Data: tentar, mais uma vez, amar e esperar o bem. Mesmo que no sofá da sala, ou na vala, esperar o melhor. Em nosso calendário Gregoriano, estamos, também, encerrando mais um ciclo, e o coração avisa: sobrevivemos até aqui. Para todos nós, fica o convite: vamos juntos? Eu aceito, convite de amor eu sempre aceito. Desesperança hoje não, é Natal. 

com amor, Ane Karoline

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Desinteresse não me interessa.

imagem: we heart it
                                      

Talvez você não goste do que vai descobrir mas eu, daqui, fico olhando você e te percebo engasgado: sempre querendo dizer alguma coisa, sentindo mais do que mostra (ou mostrando o que não sente, para esconder o que sente), sem o atrevimento para revelar o que acha, só vivendo no morno, pisando em ovos, sem a coragem para dar um baita grito, ou para se desculpar.  Por sensatez, e amor aos próximos, respeito essa escolha de vocês que não dizem o que querem dizer. Respeito, mas não faço uso da mesma filosofia. Sei que o silêncio pode até ser ouro, mas só quando não há mais nada a ser dito.

Disso eu tenho certeza: entalada em não morro. Se, por acaso, eu achar que alguma coisa deve ser dita, vou dizer - seja por grito, fala, palestra, mensagem, fumaça, canção, sussurro, abraço, choro ou carta. Não vou dissimular, esperar que você ligue, fingir que não me importo, desdenhar e nem jogar. Se você soubesse da amargura que sinto só de pensar em todas as coisas que eu perderia se decidisse bancar a desinteressada proposital, nem tentaria fazer esse joguinho comigo - e nem com ninguém. Até porque eu também sei jogar, todo mundo sabe. Eu jogaria se quisesse, mas não quero. Essa competição de quem demonstra menos é tão tola que quando a percebo me retiro - o desinteresse não me interessa.

Esse medo de perder alguém por dizer o que sinto, eu não tenho. Não que não me importe com as pessoas, pelo contrário, as quero bem perto. E é por isso que quem quer que me conheça, vai me conhecer assim, de cara limpa, à flor da pele e emoções que gritam, abraçam e beijam. Quem quer que eu ame, vai receber amor assim: exposto, gritado, escancarado. Quem quer que me interesse ou, minimamente, me cative vai saber, vai ter notícias minhas. Porque é assim que eu vejo a vida: intensa e breve. Intensa demais para fingir que não se afeta pelas pessoas, e breve demais para não dizer isso a elas. Sendo assim, nesse breve espaço - intenso- de tempo, que é a vida, não dá para perder tempo com gente desinteressada. 

domingo, 11 de dezembro de 2016

Amor, que dói, é transformação.



Eu o vi hoje pela manhã, enquanto olhava distraída meu reflexo no espelho: um grande hematoma, em formato circular, me pegou de surpresa. Parei de olhar para o reflexo e olhei para mim, era real: um belo hematoma arroxeado, ainda dolorido, em meu braço direito. Enquanto o observava, me lembrei do acidente bobo que o causara e percebi que era uma marca de guerra, marca da guerra diária que é a vida. Pensando assim, por alguns instantes acreditei que aquele era o maior hematoma que eu já tivera, mas, então, me lembrei: existimos nós, eu e você. Nós fomos o maior hematoma que eu já tive. 

Como ter acreditado que conseguiria me espremer em um metrô lotado sem me machucar, me trouxe um hematoma no braço, acreditar em nós me trouxe um hematoma na alma, me tornou uma ferida ambulante. Eu acreditei em nós. Acreditei com essa minha mania de acreditar em contos de fadas e em histórias de amor de gente que se conhece no cursinho de inglês, no trânsito, ou no metrô. Realmente achei que fosse dar certo, tinha certeza de que éramos as pessoas certas ou, pelo menos, as pessoas erradas que se acertariam. Mesmo quando dava errado - e deu errado muitas vezes-  eu achava que, depois, daria certo.  Estava certa de que tudo encontraria seu devido lugar e que encaixaríamos perfeitamente as nossas imperfeições. Mesmo nos dias em que minha cabeça doía, pela noite mal dormida, eu achava que você apareceria e me acalmaria. Esperei que você viesse curar as feridas que me fez. Apostei todas minhas fichas em você e tirei meu time de campo, não via mais ninguém, só você. Deixei até de me ver por um tempo. Exagerei. Até porque você nunca me pediu nada, né? Nem para ficar. 

De tantas pancadas, de tantas palavras mal ditas, de tantas frases soltas, de tantas mentiras, de tanta frieza, muitos hematomas também ficaram e se tornaram um: um grande roxo, vazio e opaco dentro de mim. Esse foi o hematoma que você me deixou, o maior que já tive.  Hoje ele ainda está roxo, dolorido e tenho evitado tocá-lo. Mas sei que logo vai começar a perder a cor e a força,esse processo é conhecido: dói, marca, mancha, parece que não vai passar, mas passa.

Eu sei que todo mundo já teve um hematoma, o que eu não sei é se todo mundo ama.  A mim, posso garantir,  foi dado esse dom de amar que, sim, tem lá suas mazelas - como o arrebatamento-  mas que no fim das contas, todos esses hematomas, que vão ficando, fazem com que eu seja mais eu, fazem com que eu, agora, saiba que me firo, mas é, sempre, por ter dado espaço ao amor que me fere, mas me fere doce. E de amar eu nunca vou me arrepender, por mais que isso possa me ferir, essa coragem que eu tenho não é em qualquer esquina que se pode encontrar.

Com amor, 
Ane Karoline

domingo, 4 de dezembro de 2016

A simplicidade, Bento!


Adriana faleceu aos vinte e oito anos. Em outubro completaríamos o nosso terceiro ano casados. Três dias antes de sofrer uma parada cardíaca, estávamos deitados no sofá da sala e, entre uma gargalhada e outra durante um programa de piadas repetidas que passava na televisão, ela disse:
– Bento?
– Eu sei, essa daí passou semana passada. Mas nunca perde a graça, né?!
–  Quero que me prometa uma coisa.
Abaixei o volume da televisão e esperei.
– Quero que seja sempre assim. Se coincidir do meu aniversário de oitenta anos ser em um dia de domingo, eu quero comemorar desse jeitinho aqui, fazendo o que fazemos em domingos que não são o meu aniversário. Às três da tarde em ponto, corremos para a sala, assistimos o mesmo programa, com as mesmas piadas e...
– Não dava para escolher um programa melhor para assistirmos até o fim de nossas vidas? – Sorri, provocando-a. Ela inclinou a cabeça para a direita como uma criança insistente que tem seus doces negados – Tudo bem, tudo bem. É isso que você quer que eu prometa?
– Eu quero que você me prometa a simplicidade, Bento. Quero continuar encontrando a felicidade nas coisas mais simples e, como você é o meu par, quero que o faça também.
Três dias depois, estando ambos em seus horários de trabalho, nos dois extremos da cidade, Adriana me liga e não diz oi. Chora. Tentei acalma-la, até que ela disse ofegante:
–  O meu coração está pegando fogo, aqui, dentro de mim. O lado esquerdo do peito. Dói muito.
Antes que eu entendesse, ouvi vozes apreensivas do outro lado da linha, até que um bombeiro da empresa em que ela trabalhava pegou o telefone e disse:
– É Bento, o seu nome? Mantenha a calma. Estamos levando-a para o hospital. Ela pediu para você tentar encontra-la, pediu também que tentasse não se preocupar.
Corri. Peguei o carro. E o trânsito parado. Parado. Eu olhava o relógio sessenta e uma vezes por minuto. Chorei. Choro doído. O que ela faria se estivesse aqui? Iniciei um monólogo em voz alta. Está tudo bem, Bento. Está tudo bem. Vamos achar graça disso depois. Você precisa estar calmo para tranquiliza-la. Respirei. Recitei o nosso poema preferido: “O amor bate na porta/ o amor bate na aorta/ fui abrir e me constipei/ cardíaco e melancólico (...)”. Cardíaco. Ela não vai morrer. Ela não vai morrer. O sinal abriu.
Dois bombeiros, quatro enfermeiras e uma médica de cabelos grisalhos olhavam com pena para mim: um homem com um metro e oitenta de altura, de terno, gravata e rosto vermelho de chorar.
– Onde está a Adriana? Qual é o número do corredor? Ela é a minha esposa. Eu preciso vê-la, sei que ela se acalmará ao me ver. Eu preciso me acalmar também. Fiquei preocupado quando ela me ligou chorando. Nunca a vi chorar assim. Mesmo. Em todos esses anos. Ela sentiu muita dor? Acredita que ela nunca me diz quando está doente? Tem mania de dizer que é inabalável. Ela brinca, sabe?! Mas ela vai ver só: a partir de hoje vamos prestar mais atenção na saúde. Eu vou traze-la ao hospital sempre que precisar, mesmo que eu precise carrega-la no colo. A mãe dela fazia assim quando ela era criança. Nunca gostou de hospital. Mas quem é que gosta?
Silêncio e olhos assustados.
– Ela está bem, não está?! Será que alguém pode me informar o número do corredor?
– Então você é o Bento? Bonito nome. É o nome do meu filho... – A médica introduziu, tentando amenizar o que falaria em seguida. – Bento, a sua esposa sofreu uma parada cardíaca e não resistiu.
Lembro-me de sentir uma dor no peito tão forte que acreditei ser o próximo a sofrer uma parada cardíaca. Olhei calado para a médica esperando que alguém entre aquelas sete pessoas - ou entre as mais de sete bilhões que existem no mundo, fizesse algo. Eu tive certeza que alguém a traria de volta.
Os sete dias que se passaram foram, provavelmente, os mais intensos da minha existência. Teve grito e silêncio. Dentro e fora de mim. Eu queria respostas. Elas não vieram.
Existe uma teoria que diz que as vozes das pessoas que amamos ficam gravadas em alguma parte do nosso cérebro, independente de passarmos dez anos sem ouvi-las, com um pequeno esforço lembraremos o timbre exato da voz de cada uma delas. Isso nunca foi tão torturante. Durante os dias de luto, o riso e a voz de Adriana ecoavam na minha cabeça.
“Bento? (...) Quero que me prometa uma coisa.” “A simplicidade, Bento!”
Shakespeare afirmou que há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar a nossa vã filosofia. Provavelmente, uma dessas coisas é que – apesar da dor pulsante que as pessoas deixam quando partem, ninguém quer ser lembrado com tristeza. Falecendo aos vinte e oito, Adriana nunca saberá se o seu aniversário de oitenta anos será em um domingo e eu nunca poderei comemorar com ela em frente à televisão, três da tarde em ponto; mas eu decidi, no sétimo dia sem ela, que eu cumpriria a promessa por ela proposta enquanto eu tivesse vida. Encontrar a felicidade nas coisas simples. Era a maneira mais eficaz de senti-la viva e perto de mim.
Se hoje consigo escrever com clareza sobre como perdi a mulher mais bonita que eu conheci, é porque se passaram trinta anos desde o falecimento de Adriana. A promessa virou parte da rotina: danço sozinho, como um bom velho que já sou. Acordo cedo para ver o nascer do Sol e gosto de imaginar que ela está vendo, de algum lugar. Ser feliz com o mínimo. Esses dias comprei um livro de piadas por três reais na banca de revistas. Eu vou à praça em que nos conhecemos sempre que me sinto sufocado por tudo que aconteceu. Sempre ajuda. Esses dias a ajuda veio através de uma pequena menina de cabelos loiros:
– Mãe, por que é que o céu é azul?
– Porque sim.
–  Azul é a cor preferida de Deus?
–  Clara, a gente não pode pensar muito nisso. Se não, enlouquece.

Então o segredo é não pensar muito nos porquês. Caminhei de volta para casa. Era domingo, duas e quarenta. Ás três em ponto eu tinha um compromisso. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

É hora de seguir em frente


"E som estranho que eu ouvia, era o vento zunindo no buraco do meu peito..."

Não sei como isso pôde acontecer comigo. Logo eu, que dificilmente me
apego ou me apaixono de verdade por alguém. Mas aconteceu. 3 anos e 2
meses, e eu ainda não te superei por completo. O que você fez comigo?
Com que direitos achou que poderia me submeter a tal circunstância
dolorosa? É, foi um lance passageiro, mas você continua na minha vida
e sempre continuará, feliz ou infelizmente. São 3 anos e 2 meses de
tentativas frustradas de te esquecer, óbvio. Sim, eu me envolvi com
outras pessoas, mas você ainda permanece no meu coração. Que droga!
Nunca me senti tão vulnerável como agora, e parece que essa
vulnerabilidade não vai passar, me parece que sempre carregarei você
aqui, do lado esquerdo do meu peito, como uma ferpa que incomoda a
carne, daquelas que você não sabe se dói mais sem mexer ou quando você
tenta tirar. Às vezes eu consigo ficar meses sem pensar em você, às
vezes acordo aflita querendo te ver, querendo falar com você, tentando
entender onde foi que você me marcou tanto assim e quando será que eu
irei te esquecer. Eu estou em abstinência de você há alguns meses e
tento não quebrar esse voto de silêncio. A minha vontade era sumir da
sua vida, contudo nós sabemos que seria impossível. Somos ligados, de
alguma forma sintonizados, desde que me entendo por gente. Parece
coisa do destino, aquelas peças que ele te prega e que você não
consegue se livrar. O que eu fiz pra não merecer você? Será que tudo
isso tem um propósito? Eu não sei que objetivo o destino teria em me
mostrar toda vez que você é feliz com ela. Poderia ser eu, mas é ela.
Eu não sinto inveja, talvez seja ciúmes, talvez seja amor, nem eu sei
dizer o que é. Só não volte mais uma vez, enquanto eu estiver no
processo de superação, me fazendo relembrar tudo o que vivemos e ainda
alimentar esperanças falsas de uma possível vontade de viver tudo
novamente. Isso não é justo comigo. Não volte se não for pra cumprir,
não volte se não for pra me amar, não volte, fique onde está. Eu estou
bem, eu vou ficar bem, eu conheci um alguém. Agora é a minha vez de
ser feliz, de tentar arrancar esse incômodo do meu peito, porque eu já
estou cansada de sorrir mesmo sentindo dor. Eu mereço mais do que suas
migalhas, do que sua falsa consideração, do que essa saudade fingida.
Eu mereço paz, mereço alguém que realmente me ame reciprocamente. E,
se você não é capaz de corresponder à altura, não volte mais. Uma
parte de mim sempre te amará, mas não se atreva a voltar.


— Helena.

A contribuição de hoje é da  Lila Conde. Com suas idéias próprias e uma personalidade forte, ela constrói seu caminho com esforço e determinação. Aquariana de nascença, suas palavras refletem a mente rápida e cheia de pensamentos. Para conhecer mais dessa jovem escritora é só ir ao Alma Efêmera. Esperamos que essa seja a primeira de muitas contribuições!

domingo, 27 de novembro de 2016

Caminho


Aqui estou eu, olhando pro teto e tentando encontrar as palavras certas para dizer.
Logo eu, que não as conheço tão bem, eu que as evito sempre que possível. 
Usar de textos para mim é algo inimaginável, algo que prefiro trocar pelo silêncio, pois o silêncio me representa tão bem que já o sinto como uma extensão do meu ser.
Mas hoje não, hoje me senti na obrigação de falar até que me faltem palavras. 
É como se fosse um chamado, ao qual eu jamais poderia recusar.


        Vivemos uma vida de ilusões!
Passamos dias e noites pensando em como tudo é perfeito, em como temos sorte por acordar e encontrar quem amamos ao nosso lado.
        Tudo vai bem, finalmente encontramos o nosso amor verdadeiro, finalmente conseguimos o tão esperado emprego dos sonhos e até mesmo a nossa grama, no fim das contas, parece mais verde que a do vizinho.
        Então você chega, e me leva tudo o que eu mais amava, me tira de todo o meu conforto e da minha paz. 
       Mas tinha que ser logo eu, a enfrentar esse frio, essa escuridão?
       Assim tão de repente? Eu ainda tinha tanto a dizer, tanto a realizar, eu ainda tinha muita vida para gozar.
        E todos aqueles que ficaram, eles não merecem sentir minha falta, eles não merecem sofrer.
       Afinal de contas, porque isso teve que acontecer? Quem lhe deu permissão de encostar esse seu dedo frio, asqueroso e desesperançoso em mim?
       Agora me encontro aqui, nessa montanha de perguntas, nesse mundo de desejos não realizados.         Já não tenho mais esperança, pois, sei que não posso mais voltar atrás. Sei que essa é uma triste realidade que terei que enfrentar sozinho. 
     Queria tanto poder dizer a todos que deixei que vai ficar tudo bem, para que todos vivam suas vidas como se não houvesse amanhã...
      Queria pela última vez dizer a todos que amo o quantos eles são importantes pra mim, o quanto eu vou sentir falta de cada singularidade que os tornou tão especiais para mim. Queria dizer que não chorem.
       Mas acho que já não tenho mais tal poder... 
      Aqui estou eu, começando sozinho uma nova jornada.
      Só me resta torcer pra que tudo corra bem e para que minhas palavras cheguem de alguma forma a quem elas têm que chegar.
    Sintam mesmo minha falta, exatamente como eu sinto a de vocês nesse momento. Mas sigam adiante, é tudo que lhes peço. Amem sem medo, briguem, errem, façam amor, sorriam, chorem, façam o que convém. Mas jamais esqueçam do quanto essa vida é curta, e que hoje estamos aqui para fazer tudo isso, mas e se...?
      E se amanhã você não puder mais falar ou demonstrar como se sente? 
      Bote pra fora agora, liguem, enviem mensagens, esclareçam o que quer que seja. 
     Vivam! Vivam enquanto têm esse dom, e não aguardem essa visita inesperada, afinal, ela virá de qualquer forma. Então aproveitem tudo o que puderem, e se puderem, fiquem bem.
   Sentirei eternas saudades de todos,e aguardo ansiosamente pelo dia em que poderemos nos encontrar novamente. 
     É isso, até a próxima...
Adeus

-Jandilson Dantas


A contribuição de hoje é do meu querido amigo, Jandilson, que sempre esteve envolvido com a escrita indiretamente, e finalmente deu um passo à frente e resolveu arriscar. Dono de uma mente que não para, uma personalidade única, e muitas vezes difícil de compreender, ele é imprevisível. Agradecemos a contribuição e esperamos que seja apenas a primeira, de muitas!
-Rearteculando

sábado, 19 de novembro de 2016

Insônia



"Se eu soubesse da verdade antes...não mudaria nada!"
Às vezes me pego pensando em você...
Às vezes a saudade me consome...
Às vezes a vontade de estar com você é maior que a de viver esse dia..
E as horas passam, e a distancia parece crescer
E a cada momento, a vontade aumenta
E tem dia que ela passa e eu nem sinto mais sua falta
Mas, no dia seguinte, a vontade e o desejo vem em dobro
E nessa vida, vou sofrendo sempre que me vejo longe de você
E hoje, só por hoje, me tardarei a estar contigo e em ti
Perdoe-me minha fiel companheira
Mas hoje me atrasarei um pouco, para que me consuma em seus braços
E me faça sonhar em nunca mais acordar e estar sempre perdido nos seus encantos
E depois disso tudo, só queria dizer que te amo, e amo cada momento com você.
Você é unica para mim,
Cama, desculpe minhas traições com os sofás e ônibus da vida, mas no fim, sempre volto para seus braços.

-Ítalo Goulart


 Cinéfilo, Cruzeirense e dono de uma mente cheia de ideias. O Ítalo é criador de si e do próprio caos. Se você gostou do texto acima, pode encontrar mais do autor acessando o Papo Torto. Agradecemos pela contribuição e esperamos que seja a primeira de muitas!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Não era você, era eu.



Você quis dançar comigo. E não foi pura e simplesmente por aceitação, você me propôs a dança. Veja bem,você teve a audácia de propor uma dança a mim, logo a mim que sempre estive dançando sozinha, procurando um par para me acompanhar. Dancei com você, dançamos. Você me embalou com tal simplicidade que me enebriou, fiquei tonta de amor. Desequilibrada, desnorteada, recebi seu convite: vem comigo? Fui. Eu bem sei que você pensa que eu não fui, que te recusei, que nunca tentei, mas eu fui. Fui devagar, dando um passo de cada vez e talvez por isso você não tenha visto o quanto eu sempre quis dançar com você.

O problema é que eu sempre fui de me atirar de cabeça, sem medo, sem cautela; disposta a nadar mares e marés; com fôlego para dançar da primeira à última música, mas foi justamente essa coragem toda acabou me desencorajando, antes de você chegar. De tanto me entregar, me perdi; de tanto não hesitar, levei golpes que me vieram a paralisar. Por isso, depois de ter me visto aceitar seu convite para dançar, para você, ter me visto recuar, foi algo difícil de compreender, eu bem sei. Afinal, não foi você quem me roubou a paz e atirou em mim enquanto eu estava desarmada. Não foi você quem me feriu e, por mais que pensássemos o contrário, não coube a você me curar. Eu mesma tinha que  me emendar, para te ser tão inteira quanto você me era. Tão inteiro que se dispôs a tentar me ajudar a reparar o pandemônio que existia dentro de mim, mas, meu bem, não era você.

Não era, e nem nunca foi, você a causa das minhas noites maldormidas e das minhas, constantes olheiras. Na verdade, todas as vezes em que não dormi pensando em você não me fizeram mal algum. Não foi você, com seu sorriso tão largo que fecha os olhos, que me tirou a paz. O seu sorriso, se te apetece saber, sempre me deu paz; ficar sem ele é que me abate. Não foi você, com sua mania de tentar fazer piada das coisas para me fazer rir, que me apagou o sorriso. Inclusive, sempre que me lembro de nossas conversas me vejo rindo sozinha. Os retalhos de nós dois sempre me fizeram bem, mesmo em fragmentos, sempre fomos o bem: eu o seu, você o meu. 

E se não era você, era o quê? Eu. De tanto me doer, hesitei. Você, que também é de amar, sabe como é: a gente, quando se liga a alguém, há de sofrer; sentimento é laço que dói. Nossa história, se bem me lembro, me doeu logo de início, conturbei nosso romance pelo medo de dar errado. Percebe a insensatez? A vida consegue, vez ou outra, acovardar até os mais bravos- como eu. A coragem vacila, vez ou outra na vida da gente. A gente tem hiatos de coragem: são momentos de deserto, nos quais seguimos a vida, um dia após o outro, sem coragem alguma; só de passagem, sem vontade, desejo ou zelo. Só. E foi aí, em um desses desertos, em um hiato de coragem que nos esbarramos, e esse lapso durou tempo suficiente para que você não conseguisse mais ficar. Eu fiquei. Fiquei sentada, vendo você partir, sem agir. Essa é a razão pela qual você nunca me conheceu: esteve comigo enquanto eu não era eu, em uma lacuna do tempo.

Digo lacuna porque a coragem sempre volta. A minha, já começo a ver apontar no espelho, cada dia um pouquinho mais, o tempo tem me levado de encontro a mim, com o tempo, tenho me recomposto, e estado inteira o suficiente para, agora, ver você, e deixar que você me veja. Como você mesmo sabe, o tempo faz bem. Hoje mesmo, depois de tanto tempo, tive um insight, percebi que estou pronta para dançar novamente, dançar de peito aberto e alma entregue e, para completar, queria que meu par fosse você. Será que a nossa música ainda toca no rádio ou viramos um clichê?

com amor, 
Ane Karoline


terça-feira, 1 de novembro de 2016

Cinco e quarenta e cinco



Aconteceu na última segunda-feira – dia internacional do recomeço, por capricho do protagonista. Era tardezinha na capital do país quando eu entrei no ônibus que me levaria para casa. Mais precisamente, cinco e quarenta e cinco da tarde. Cinco e quarenta e cinco da tarde muita coisa acontece. Na escola próxima ao terminal de ônibus, mocinhas e rapazes encerram suas aulas. No prédio também próximo dali, homens e mulheres andam apressados após um longo dia de trabalho. Do lado de fora do ônibus, um vendedor de chocolate também anuncia que o dia de trabalho está chegando ao fim: “só sobraram cinco barras de chocolate meio amargo. A promoção de fim do dia é duas por um real. Alguém?” Ninguém.
E o ônibus parado no terminal. E a fila não acabava. Meu Deus, as duas horas do trajeto prometiam passar mais rápido do que aqueles dez minutos em que o motorista esperava todas as pessoas da fila entrarem. Enquanto eu balançava a minha perna direita sem perceber, uma mocinha sentou ao meu lado. Aparentava ter uns vinte e três anos. Ela sorriu para mim como as pessoas costumam sorrir para a gente antes de sentar ao nosso lado no ônibus e eu sorri de volta. Por fim, entrou o último rapaz da fila e o ônibus seguiu. Respirei aliviada.
Enquanto eu fazia um cálculo mental de quantas horas eu teria de sono àquela noite, duas vozes atrás de mim me trouxeram de volta ao momento presente.
- Pois é, cara. O trampo foi puxado mês passado, chegou no meio do mês e eu estava em um nível de estresse que a minha fuga foi pegar o carro, colocar o dinheiro, que eu estava guardando, de gasolina e meter o pé na estrada. E assim o fiz.
- Pô Paulo, sozinho?
- Sozinho e meio sem rumo, cara. Eu só precisava me lembrar de quem eu sou, respirar ar puro, longe daquela empresa.
- Teu emprego é mó bad vibes, não é? Passei lá esses dias - semana passada, eu acho, para te dar um “Oi” e não me deixaram entrar, cara.
- Ih, irmão, deve ter sido por conta do teu jeito largado: bermudão, tatuagem, alargador... As pessoas de lá batem o olho em você e, dependendo da roupa que usa, não te deixam entrar mesmo. Isso pode afetar o status da empresa, segundo eles. O meu chefe é aquele que eu te disse pô, tem parceria com uma igreja. O que mais me instiga é isso: de cinquenta funcionários, só eu e mais dois não temos religião. Todos os outros são da mesma igreja e quase matam uns aos outros, todos os dias. A galera não se suporta mais, João. Mó climão. Eu só ainda estou lá porque preciso da grana...
- Verdade, as tatuagens!  Eu nem tinha pensado nisso... A galera julga sem dó, mesmo. Religião sem espiritualidade faz um estrago, parceiro. Cê entende quando eu falo, né?!
Olhei para trás rapidamente e quis dizer: eu entendo. Eu entendo! Mas percebi que o momento
 era tão inteiramente de Paulo e João, que não quis atrapalhar. O meu papel ali, um banco à frente deles era só escutar.
-  João, quando eu fiz essa viagem sozinho eu refleti muito sobre isso, cara. De verdade. A cabeça estava pesada, o pensamento longe. Quando percebi, tinham dois caminhões na minha frente. Sabe aquelas plaquinhas meio surradas que geralmente colocam na traseira dos caminhões? Na traseira de um estava escrito “Deus é amor” e na traseira do outro “Deus é fiel”. Isso fez sentido para mim àquele dia como nunca antes...
- Cara! É isso! Eu tive uma sensação bem louca agora. Desde moleque eu lia essas frases pelas esquinas e pensava que havia um significado bem complexo por trás delas, mas já pensou no sentido mais literal? Deus é o puro sentimento de amor.  Existem mais de dez mil religiões no mundo inteiro, a forma que damos para o divino arquiteto muda, mas a essência é a mesma: amor. E a certeza que eu tenho, irmão, é que ele é fiel. Eu já me livrei de muito perrengue nessa vida.
Eu preciso escrever um texto sobre isso, pensei. Eu preciso transformar isso em uma crônica. Olhei pela janela, deixando o diálogo de João e Paulo em segundo plano. Já estávamos na metade do trajeto. A mocinha sentada ao meu lado se remexeu.
- Moça, desculpa perguntar, mas qual é o seu nome?
Ela disse, dirigindo-se à uma mulher em pé à nossa direita. Na voz, um sotaque forte de Minas Gerais. Era gostoso de ouvir. Me vi prestando atenção em mais uma conversa.
- Maria. Por quê?
- Quando eu tinha oito anos, você foi minha catequista. Sabe, eu não sou muito boa com nomes, mas com rostos sim. Eu nunca esqueço os rostos. Nunca esqueci o seu.
E assim aproveitaram os trinta minutos finais do trajeto conversando sobre os últimos anos, sobre as coisas que mudaram e sobre o que não mudou: depois de alguns anos morando em outro estado, a mocinha voltou a frequentar a mesma capelinha onde Maria foi sua catequista. Elas enchiam os olhos para falar da grandeza de Deus. Assim como os rapazes atrás da gente. Elas eram católicas. Eles sequer seguiam alguma religião. Mas enchiam os olhos ao falar de Deus, também.
Parada solicitada.
- Bom te ver, Maria. Fica com Deus!
- Vou nessa, Paulo. Fica com Deus!
A moça e o rapaz desceram do ônibus, Maria e Paulo ficaram. Com Deus. Eles, que provavelmente nunca tinham se visto, ficaram com a companhia do mesmo Deus.


Sem dizer adeus


Um penal entreaberto, folhas vítimas de seus traços, ora inspirados, ora apenas por descaso. Era o que ele via. Uma garrafa que ainda restava água de dias atrás, e uma montanha de livros que serviram de banquete durante madrugadas como aquela. Ele devorara todas as palavras de forma a saciar sua ansiedade.
Uma melodia que ecoava rouca, intensa, como se um chamado. Eram os cães da madrugada que ele ouvira.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Linha 13




- Um bando de filhos da p***! Isso é o que eles são. – Erik esbravejava, enquanto sua voz ecoava pelas escadas que davam acesso à plataforma do metrô.
        Queríamos encontrar outra festa para ir, até que nos expulsassem novamente por causa de alguma confusão causada por Erik. Então partiríamos para outro lugar e repetiríamos o ciclo até o dia amanhecer.
-Acho melhor irmos para casa – disse Linda, prudentemente. 
- Não vamos para casa – Sarah falou. – Só precisamos controlar o esquentadinho aí.
        Já passava da meia-noite. Nós pegaríamos o último trem do metrô da linha 13 e cruzaríamos alguns quarteirões. Mesmo àquela hora, pegar um trem ainda era a maneira mais rápida de se chegar a algum lugar.
        Aquela estação era suja. Pichações cobriam as paredes e o cheiro de urina era forte. Metade das lâmpadas não funcionava e havia ladrilhos da parede despedaçados e espalhados pelo chão.
- Meu Deus! – exclamou Linda, a voz trêmula e assustada.
        Ela apontava para a parede paralela aos trilhos, na plataforma onde estávamos. A imagem de um pentagrama invertido em vermelho vivo bordava os ladrilhos encardidos, a tinta ainda escorria pela parede – parecia recente.
- Precisa mesmo fazer tanto escândalo? – perguntou Erik, que não largava sua garrafa de cerveja.
     Cheguei perto da pintura grotesca para avaliar melhor. Um cheiro de ferro misturado com um aroma adocicado emanava da parede. Toquei na tinta, que era pegajosa e tinha textura espessa.
- É quente! – eu disse, com espanto.
- Meu Deus! É sangue! – Linda se desesperou ainda mais, sempre fora muito assustada com tudo.
- Isso é coisa de algum bosta querendo aparecer – disse Erik. – Sai da frente que foi acabar com esse c******!
       Ele lançou a garrafa que tinha em mãos. O vidro explodiu bem no centro do pentagrama invertido e a cerveja se misturou à tinta (ou ao sangue) do desenho, que começou a se dissolver. 
         Um barulho agudo e um vento quente invadiram a plataforma, mas não havia trem. O lenço que Sarah levava no pescoço foi jogado nos trilhos pelo vento.
- Droga! – Ela saiu correndo para pegar sua peça.
- Não vá para os trilhos, Sarah – disse Linda. – Deixa pra lá.
- Eu paguei uma nota naquilo, não vou deixar aqui.
        Não havia trem vindo. Então Sarah pulou nos trilhos até alcançar seu lenço, que ficara preso a uma das ferragens.
- Esquece isso, Sarah. Eu te compro um novo – eu disse.
        As luzes começaram a piscar e o ar ficou mais frio.
         Sarah enfiou a mão sob o trilho para tentar desprender o tecido, mas seu braço acabou tocando em uma parte eletrificada. A energia do choque jogou seu corpo a cinco metros de distância. Não sei dizer, mas acho que morreu na mesma hora.
         Linda começou a chorar em desespero. Erik ficou estático sem falar uma palavra. Eu corri para a beirada da plataforma para tentar puxar o corpo de Sarah, mas estava muito longe.
         Um barulho alto anunciou o trem chegando.
       Sangue respingou na beirada da plataforma quando o transporte de metal passou violentamente sobre o corpo de Sarah, rasgando pele e triturando ossos.
      Na parede atrás de nós – onde antes ficava o pentagrama – os ladrilhos pareceram estar sangrando. Linhas vermelhas começaram a brotar dos rejuntes e, assustadoramente, formaram com letras distorcidas a frase:
OS SETE PRÍNCIPES CAMINHAM
        As luzes iniciaram sua dança novamente. Uma névoa veio acompanhada de um ar gélido.
        Agarramos Linda pelos braços e a carregamos para dentro do vagão.
      As portas foram impedidas de serem fechadas por completo – o novo sistema de segurança do metrô impedia os trens de se locomover com as portas abertas.
      A névoa estava quase invadindo o vagão. Então Erik viu que um pedaço de ferro dos trilhos estava travando o mecanismo da porta. Ele agachou-se no chão e começou a puxar o pedaço de ferro. Me juntei a ele para ajudar.
       Quando finalmente conseguimos, as portas se fecharam bruscamente. Perdi o equilíbrio e caí para o lado, mas as portas prenderam a cabeça de Erik para fora do vagão. O trem começou a se mover enquanto Erik sufocava. Linda e eu tentamos desesperadamente abrir um espaço nas portas para livrarmos nosso amigo, mas pareciam estar travadas. 
         O túnel se aproximava com velocidade.
         De repente, as portas se fecharam por completo.
       Olhei para a camisa de Linda. O que era branco, agora estava manchado por sangue. Minhas roupas também estavam cobertas por sangue e pedaços de pele e cartilagem. 
        No chão, o corpo de Erik sem cabeça era envolto por uma poça do próprio sangue.
     Agarrei linda e a levei para um canto mais afastado. Os vagões não eram interligados, então estávamos confinados àquela imagem de horror até a próxima estação.
Ficamos abraçados, sentados no chão, esperando a próxima estação chegar.
       O frio ficou tão grande que começou a embaçar as janelas. Algo chamou a atenção na janela de frente para nós. O vidro começou a trincar de maneira não natural até formar o desenho do mesmo pentagrama invertido que havíamos encontrado na parede da plataforma. O mesmo fenômeno também se repetiu nos vidros de todas as outras janelas.
Ficamos de pé, apavorados. Já havíamos chegado à estação.  
       O silêncio era apavorante. Olhamos pela janela e vimos a névoa nascer do chão. 
- Ainda não acabou – disse Linda, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
Os vidros das janelas explodiram em todo o vagão, as luzes pareciam mais enlouquecidas que antes, lâmpadas também estouraram no caos.
       Corremos pelo vagão e pulamos o corpo de Erik. O cheiro de ferro com tom adocicado era insuportável do lado de fora. Linda tropeçou e acabou caindo na plataforma.
Quase perto das escadas, olhei para trás. Estava tudo calmo novamente.
Linda se levantava vagarosamente. Seus dedos da mão estavam retorcidos de forma asquerosa, seu corpo todo tremia. De repente, ela emitiu um grunhido assombroso incomum a qualquer espécie animal.
       Aproximei-me para olhar em seus olhos. Foi como olhar nos olhos de um demônio.
- Saia daqui, filho da luz! – disse a voz distorcida que saiu da boca de Linda. – As asas que o protegem não nos deixam tocá-lo. Mas a cada alma que nossos cavaleiros levam nos tornamos mais fortes. Vá, filho da luz! Deixe o medo crescer dentro de si, até chegar a hora que beberei seu sangue. 
       O corpo de Linda se contorceu violentamente e caiu sem vida no chão.
       Não sentia meus pés, mas corri. Subi as escadas. Saí correndo no mundo lá em cima. Continuei correndo. Correndo. Correndo. Não olhava para trás.
Ainda não tenho coragem de olhar para trás.
***
- Há algo a mais que queira me contar, Arthur? – perguntou o médico psiquiatra e terapeuta Augusto Flynn.
        Arthur balançou a cabeça negativamente. Era sua primeira sessão com Augusto, mas já estava convencido de que seria o mesmo que foi com todos os outros.
- Você sofreu um grande trauma, Arthur. As investigações constataram que você e seus amigos foram atacados por um serial killer com indícios psicóticos. A sua mente transformou tudo o que você sofreu em uma alucinação, que substituiu a memória traumática sofrida por você naquela noite. Casos assim são mais comuns do que imagina. Eu posso lhe afirmar que não há nada de sobrenatural quanto ao que aconteceu na linha 13. Podemos começar a trabalhar na próxima sessão para livrarmos você desse trauma.
        Arthur se despediu educadamente de Augusto, mas não voltaria a se consultar novamente com nenhum médico. Sabia que não era louco, não queria admitir o contrário.
        Na mesma noite, voltou à estação onde tudo começou. O horário era aproximadamente o mesmo de quando pisou seus pés ali pela última vez.
- Vem me pegar! – começou a gritar. – Você me quer? Vem me pegar! Acabe com isso logo! Vem me pegar! Vem me pegar!
Seus gritos viajaram pelas paredes do túnel. Gritou com todas as forças. Gritou. Gritou. Gritou...

-Fernando F. Morais

Assombrado


Lembro-me daquela noite como se fosse ontem. A chuva era torrencial do lado de fora. O vento uivava pelas frestas da janela, trazendo uma sensação de mau agouro.  Eu estava sozinha em casa, assistindo à um filme qualquer na televisão. O filme apenas passava, sem que eu realmente prestasse muita atenção a alguma coisa. Minha mente cheia repassava coisas inúteis.  Já passava das onze da noite quando meu celular tocou. Eu estava tão perdida em pensamentos que dei um pulo no sofá. Com o coração palpitante, chequei o nome na tela. Era minha amiga Laura. Respirei fundo antes de atender, na tentativa de não parecer uma maluca. Laura sempre falava demais. Essa noite ela estava propondo que fossemos com o namorado dela visitar um hospital desativado.

domingo, 30 de outubro de 2016

Laço inquebrável


Era um fato: em menos de 24 horas completaria 18 anos. Ela ansiava por isso, mais do que houvera ansiado pelos outros 17 aniversários anteriores. Significava o início de um novo ciclo, uma nova era, uma nova vida: ao completar 18 anos teria a idade que sua mãe jamais tivera. A mãe, aquela que falecera por complicações no parto, aos 17 anos de idade e não teve a oportunidade de ser conhecida pela própria filha, filha essa que, quando a meia noite chegasse, seria, então, mais velha que sua mãe jamais fora e isso tinha um significado muito especial, estava celebrando a vida que ganhou através do sacrifício e amor de alguém. 

Apesar da dor que, inevitavelmente, sentia sempre que chegava o dia de seu aniversário (e, consequentemente, o aniversário de morte de sua mãe), ela estava feliz. Quando o relógio marcou meia noite, respirou fundo e agradeceu silenciosamente por mais um ano de vida, mais uma oportunidade. Alguma coisa dentro dela sempre temeu por essa data, temia não chegar a tal idade. Mas chegou. E, nessa noite, foi dormir tão cheia de vida a ponto de quase não conseguir aquietar o coração. 

A manhã não tardou em raiar e, apesar da noite mal dormida, sentia-se exalar vida. Olhou-se no espelho: o mesmo rosto manchado de Sol, o mesmo dente um pouquinho torto na frente, a mesma mecha de cabelo rebelde de todas as manhãs. Mas essa manhã era diferente, sentia que algo a esperava, sentia que a vida a esperava, que a vida, finalmente, havia chegado. Nunca se sabe como que é a vida nos bate à porta. Cumpriu sua rotina matinal diária quase aos pulos, enebriada pela energia que os aniversários geralmente causam em seus respectivos aniversariantes. Ao sair para cumprir seus compromissos, recolheu as correspondências- como de costume- e deparou-se com uma caixinha de madeira de aparência velha no meio dos envelopes de contas e cartas. Curiosa, apressou-se em abrir a caixa "Será um presente? Se sim, de quem?" - pensou enquanto procurava uma forma de abrir a caixa sem quebrar o lacre. "Que complicado, será que há um segredo para abri-la?". Por fim, percebeu uma espécie de chave sob a caixa e a girou, a caixa foi aberta.

Assim como a caixa, o presente refletia delicadeza. Um colar, revestido de ouro e com com um pingente, também de ouro: a metade de um coração. Um presente que parecia ter sido escolhido com muito cuidado e apreço. De tão encantada com o presente, demorou-se em enamorar o colar e só depois pensou em procurar o remetente. Olhou superficialmente pela caixa e não encontrou nenhum bilhete, carta ou dedicatória. "Quem é que manda um presente desses sem se identificar?".

Ao perceber-se atrasada, guardou a caixa e partiu para seus compromissos, já exibindo o colar em seu pescoço. O pingente criava uma leve sonoridade ao movimentar-se pelo colar, com o vento, o que a fazia se sentir acompanhada. Mas logo se sentiu sufocada. Depois de algumas horas, o colar parecia apertado demais, cada vez mais apertado. Mal conseguiu se concentrar em suas tarefas: sentia como se seu pescoço estivesse inchando a cada hora que se passava, a ponto de não conseguir retirar o colar sem quebrá-lo. Pediu ajuda a alguns amigos: nada. Tentava manter a calma, "É só um colar, um colar pequeno demais para mim. Quando chegar em casa, conseguirei retirá-lo."

À noite, ao seguir para casa, já planejava procurar o telefone do fabricante na caixa para ligar pedir auxílio. O desconforto já era tal, que o colar não se movia mais em seu pescoço, a pele ao redor começava a inchar levemente pela compressão. Caminhava em passos largos e a esquina nunca pareceu tão longe de casa. Ao chegar, encontrou a caixa onde havia deixado ao sair: no chão da sala. Ninguém em casa, todos já a esperavam no local de sua comemoração de aniversário. Bastaria uma ligação e ela estaria livre do colar.

Ao revirar a caixa, percebeu algo que deixara escapar pela manhã: uma figura colada no interior da tampa da caixa. Era uma foto. No segundo seguinte a caixa estava no chão e ela subia as escadas aos pulos: aquela foto deveria estar dentro de sua última gaveta, escondida em seu diário:a foto de sua mãe, ainda aos 17 anos, exibindo uma enorme barriga do sétimo mês de gestação. Empurrou a porta do quarto e atirou-se no chão, abrindo a última gaveta à procura do diário. Jogando as roupas no chão, em desespero, percebeu que o diário não estava ali. "Mas eu o deixei aqui! Eu tenho certeza!" - pensava atordoada enquanto sentia o colar apertá-la ainda mais, mas de uma forma diferente: como se alguém o estivesse puxando. Virou-se e só deu tempo de tempo de ver o pescoço que carregava a outra metade do pingente de coração antes de ouvir:

 - Achou que a mamãe iria te abandonar nessa vida sozinha?

Ane Karoline

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Desejos


A rotina do dia pesava sobre as costas muito bem vestidas. Aquele terno era parte de uma realidade na qual há muito não se encontrava. Reminiscências de outra época: Aquela que fora realmente feliz. Sua vida perfeita havia sido destruída por uma única jogada errada. Tudo se perdeu. Se foi seu prestígio no escritório, seu renome, seu dinheiro, sua mulher e filhos... Tudo que um dia foi bom acabou sendo levado pra longe. Seu destino era como a criança sádica do parquinho, dando-lhe tudo que sempre quis somente pra poder tirar-lhe no final.  Essa última, sua esposa, doeu mais. Doeu muito. A ponto de fazer com que pensasse em se matar tantas e tantas vezes e, ainda assim, ser covarde o suficiente pra continuar vivendo. Como poderia culpá-la? Aquele homem que já teve tudo era o mesmo que agora tinha de pegar o metrô para ir trabalhar, sob o risco de não ter o que jantar no fim da noite. Sequer se considerava um homem, era só fração daquilo.
Naquele dia em especial, teve a infeliz ideia de andar para espairecer. Afinal, em uma vida desgraçada, tudo parece sufocar. Precisava de ar. Ar que fizesse circular o sangue, ar que o fizesse pensar melhor, ar que fizesse a ansiedade da vida em declínio ir embora. Ironicamente, naquele dia choveu. Em meio a um mês de fins de tardes quentes e céu limpo, naquele dia o céu decidiu desabar sobre sua cabeça, como todo o resto do mundo. Inutilmente, tentou utilizar o jornal velho que carregava consigo para cobrir-se dos respingos. Que ingenuidade a sua! Aquela chuva estava longe de ser só garoa e na medida que engrossava, fazia seu andar se apressar, findando em uma corrida desesperada por abrigo.
“Onze horas da noite.” Pensou consigo mesmo. “Onde vou achar um lugar aberto?!” E porque talvez o destino estivesse cansado de brincar com sua cabeça, um barzinho velho despontou no final da rua escura. Era sujo, estranho, mas o único lugar que tinha suas luzes acesas, ainda que as portas estivessem fechadas. Não pensou duas vezes ao correr até lá, empurrando a porta que parecia emperrada. “Não tem ninguém!” Chutou uma poça com raiva, desistindo de tentar se cobrir com o jornal ensopado.

Como um anjo, uma jovem saiu detrás do balcão, abrindo-lhe um sorriso apressado e se adiantando para abrir a porta. Não pensou em nada, só entrou. Ao menos ali estava seguro da tempestade que estaria por vir, ainda que não fizesse ideia do porque seus pelos da nuca se arrepiaram.
— Graças a Deus! Achei que não tinha ninguém aqui...
A garota sorriu com simplicidade, mas de uma forma que julgou no mínimo encantadora.  
— Tudo bem. Já estávamos fechados, mas não iria te deixar na chuva.
Algo no tom da voz dela o fez acalmar. Talvez fosse o fato de que pela primeira vez em semanas, alguém havia lhe tratado com gentileza. Bateu as mãos nas roupas, tentando se livrar do excesso de água. Ela havia sido gentil, ele também seria com ela.
— Acho que eu poderia beber algo, pra compensar o incômodo de ter de me abrigar aqui.
— Não é incomodo algum..
Ela sorriu, caminhando na direção do balcão e se posicionando atrás dele, voltando a secar uns copos que estavam ao alcance da mão. Aquilo mais parecia uma desculpa, pois nenhum deles parecia sequer molhado. Será que estava com medo dele? Talvez tivesse se arrependido de tê-lo deixado entrar. Sentou-se em um dos bancos, escorando-se na bancada. Ficaria bem ali, onde pudesse vê-lo. Sem saber o porquê, achou que deveria ser também gentil.
— Pode me servir um copo de uísque?
De pronto se apressou em entregar-lhe um copo bem servido de White Horse, que ele agradeceu com um sorriso ameno. Bebericou de qualquer jeito, relaxando o corpo cansado e frio sobre o balcão.
—Dia difícil?
— Nem me fale... O pior de todos. – suspirou. — Acho que preferia estar morto.
— Preferia?
Ela riu de uma forma engraçada, a reação completamente oposta a que ele achou que seu comentário iria causar.
— Não sei.. Talvez eu já esteja. – deu de ombros – O que poderia ser pior que isso?
— Huummm – ela pensou, estreitando o olhar. — Talvez o inferno.
O inferno. Sempre foi um cara que acreditou que o inferno era a própria Terra. Os acontecimentos dos últimos meses só confirmaram suas crenças. A lançou um olhar desdenhoso.
— Acho que o inferno é superestimado no final das contas.
A risada que recebeu em troca do gracejo foi gostosa, boa de se escutar. Aquela garota não era bonita e vestia roupas que haviam saído de moda há pelo menos dez anos atrás, mas algo nela era atraente. Talvez fosse porque ela era de fato um sopro de vida em meio a tantos dias mortos. Por isso conversaram. Conversaram por uma hora que passou em menos de dez minutos. Estava tão descontraído que nem se deu conta que lá fora, a chuva já havia passado. Sentiu um pesar comprimir o peito. Aquela era a única pessoa com quem tinha realmente tinha tido uma conversa decente, fora do automático e acabou percebendo que aquilo fazia falta. Queria conhecer mais sobre aquela garota, muito mais.
— A chuva parou.. – disse ele.
— É, parou.. – respondeu.
Um segundo quase constrangedor de silêncio se instalou entre eles, até que ele finalmente deixou vir à tona seus pensamentos.  Culpe o quarto copo de uísque, mas sentia que havia uma conexão palpável entre eles.
— Escuta, não quero parecer pretensioso..  Mas possivelmente eu não vou voltar aqui depois que sair por aquela porta... - pigarreou um tanto desconcertado - Então, pensei que talvez pudesse pegar o seu número.
As bochechas da jovem coraram. Pegou um pedaço de papel e uma caneta, se colocando a escrever, enquanto ele avaliava os traços daquele rosto um pouco pálido pela falta de sol. Tomou o último gole da sua bebida e se colocou de pé, pronto para sair. A moça empurrou pequeno pedaço de papel em sua direção, recolhendo as mãos acanhadamente. Talvez não fosse tão comum assim que acasos a levassem a um potencial encontro, então tentou dar a ela o crédito da surpresa. Sorriu, encorajando-a enquanto guardava o papel no bolso. Queria dizer alguma coisa, mas um barulho ecoou pelo bar vazio, chamando sua atenção para os fundos.

O semblante da garota mudou no mesmo instante, ficando nervosa e agitada. Fechou os olhos, como se algo de muito perturbador estivesse prestes a acontecer. Estava ávida e sobressaltada, genuinamente com medo. Mas porque?
— Se não se importar, eu tenho que ir agora. – Apressou-se, saindo de trás do balcão. — Acho que meu pai voltou.
O homem se frustrou com a ideia da outra o deixar sozinho e até tentou impedir, mas ela já havia desaparecido em direção aos fundos do bar. “Eu te ligo.” Pensou intrigado com a súbita mudança no comportamento da jovem. Será que seria muito estranho, caso decidisse segui-la? Guiado pelo instinto, caminhou na direção onde a outra havia sumido segundos atrás e para sua surpresa, o que saiu de lá foi um homem grande, careca e com uma espingarda muito bem carregada nas mãos.
— O que diabos pensa que está fazendo, invadindo o meu bar?!
Ergueu as mãos por instinto de preservação, arregalando os olhos para o careca grandalhão à sua frente.
— Invadindo? Não! Estava chovendo lá fora então a menina me deixou entrar! – foi tudo o que conseguiu dizer em sua defesa, logo recuando dois passos largos.
— Que menina?! Você está louco? Eu estou sozinho! – o homem retrucou com azedume. — Estava nos fundos arrumando as coisas e ouvi ruídos aqui. Como ousa invadir o meu bar?! – apontou a espingarda para o rosto do homem, já branco de medo. — Vou te matar por isso.
— Por favor! Ela estava bem ali, atrás do balcão. Foi ela quem me deixou entrar! – a exasperação não o deixava formular sentenças coerentes, tudo o que realmente queria era salvar sua pele. — Nós ficamos conversando enquanto eu bebia uísque! Eu não estou mentindo! Ela.. ela.. – o suor descia gelado pela testa. — Ela era morena, mais ou menos um metro e sessenta. Sardas no rosto e olhos cor de mel! Eu não estou inventando. Ela deve estar por ai em algum lugar!
A expressão do homem mudou por completo, mas ele não soube identificar se era tristeza ou ofensa. Abaixou a arma só o suficiente para se encararem.

— Você está dizendo havia uma garota aqui? – passou a mão por detrás do balcão, puxando um porta retratos. — Essa garota?!
O homem estreitou os olhos, vendo a imagem perfeita da garota que o acolhera, abraçada ao brutamontes arrogante. Era ela! A mesmíssima pessoa com quem passou uma hora extremamente prazerosa, minutos antes. Conservava o mesmo sorriso tímido, o mesmo olhar meio insano.. Parecia até que estava olhando pra ele. O outro homem, por sua vez, parecia muito mais novo e não ostentava nem de longe aquela carranca amarrada ou mesmo a barriga protuberante.
— Sim! Foi ela mesma! É sua filha?
Um tiro. No chão, mas passou perto demais.. O grandalhão fincou o porta-retratos no balcão com força.
— Como se atreve a falar que minha filhinha esteve aqui?! – engatilhou a arma novamente caminhando com raiva em sua direção.  — Minha filha morreu há dez anos atrás!
E mais um tiro, só que esse realmente pegou. Dor. O tiro pegou de raspão, mas doía como se etivesse cravada em seu braço. A morte estava tão próxima que podia sentir seu cheiro. Saiu em disparada, correndo o mais rápido que pode, sem saber que seu braço sangrava. Pulou cadeiras, jogou mesas para trás, tudo no intuito de desviar a atenção do homem e tentar salvar sua vida.

O coração batia tão forte que por um segundo achou que fosse sair pela boca. Puxou a porta e saiu, batendo-a logo em seguida. E correu. O máximo que pode. Sem olhar pra trás. Até suas pernas vacilarem. Quando não conseguiu mais, sentou-se no chão, resfolegando. Não havia sinal do grandalhão e tampouco sabia exatamente estava ou quanto tempo havia corrido. O que diabos estava acontecendo? Aquele homem falava coisas, mas não fazia sentido algum. O pânico se apoderou dele. Será que a garota estava bem? A expressão de pavor no rosto dela não lhe saía da cabeça e agora conseguia entender o motivo: Seu pai era louco!

Precisava falar com ela, saber se estava bem ou se, no ápice da loucura, seu pai não havia lhe feito mal. Apertou a palma das mãos contra os olhos e as luz do poste piscou três vezes, fazendo um calafrio percorrer o corpo. A sensação era de que estava em um pesadelo e não conseguia de fato sair dele. O que fazer? Deveria ligar para a polícia?

Ligar.
“O telefone!”
Enfiou a mão nos bolsos, sacando o celular e o pedaço de papel que havia ganhado da garota. Se ela atendesse, saberia que aquilo era loucura! Desejou que ela estivesse bem, com toda a sua alma. Suas mãos tremiam, geladas pelo susto e pelo clima, mas ainda assim conseguiu - na terceira tentativa - desbloquear o telefone. Desdobrou o papel com cuidado.“Por favor, que não tenha me dado seu número errado..” Esticou-o sobre a perna dobrada, se esforçando para ler em meio a pouca claridade. Para a sua surpresa, não havia números ali. Era uma mensagem simples e de fácil compreensão.
“Você implorou para estar morto. Eu vou voltar pra te buscar.”

Raíssa Barreto