"Os emaranhados dos teus cabelos eram tão macios quanto os dos teus dedos..."

Em uma existência abissal
De dimensão colossal
Esbarro na pedra fria do vazio escuro
Enquanto chuva de poeira cósmica turva minha visão
Enxergo ao longe o rei da imensidão

Ele não se senta em um trono de ouro e poder
Mas sim em uma matéria escura e disforme, que o mantém oculto
Ele não tem a mesma forma que eu e você
Não, ele é mais
É luminosidade abstrata, calor que não queima

Ele é sangue, que discorre e escorre pela pele cortada
É broto que germina na madruga
É flor que desabrocha e renasce mil outras vezes
Ele é o tudo, mas tem som de nada
É corrente forte, como a de um rio
Ele é fogo sem lenha

Ele me chama, desanuviando seus arredores
Ao seu redor dançam estrelas menores
Corpos astrais que o circundam pelo seu magnetismo
Orbitam ao seu redor, seu próprio paraíso
E ele me toca apenas ao me olhar
Pois identifico ternura nos olhos a me abençoar

E quando penso que sua completude atinge um limite
Observo a chama espectral se deslizar pelas beiradas do universo
E ela gera e destrói
Pois,
Apenas da destruição pode haver renascimento
E em sua sábia perfeição, Ele tudo atinge

Abro a boca para perguntar seu nome
Ele se adianta e me aponta um dedo de luz.
Olho para o peito e acho a resposta
A morada da bondade é conjunta
Eu tenho um pedaço que carrego sempre comigo
Me abraço contente, pois sou parte do todo

E ele de mim...

-Adolfo Rodrigues



Estou me matando. 

Essa foi uma das últimas mensagens que te enviei. E, realmente, estava. Todos os dias e cada dia um pouquinho mais. Me matando estava eu,  em cada segundo que perdia, esperando você parecer. Me matava em cada opinião que deixei de dar, para evitar uma discussão. Me matava em cada vez que sorria das piadas que você fazia de mim, cada vez que te via zombar dos meus sonhos, para não te deixar sem graça. Me matava todas as vezes em que aceitava seus meio sorrisos e seus desaparecimentos inexplicáveis. Me matava, ainda mais, quando te aceitava de volta, surgindo, como se nada tivesse acontecido, perguntando sobre uma coisa qualquer para puxar assunto. Me matava por permitir que você sempre me resgatasse de volta - sem nenhuma intenção de me amar, só para ter certeza que eu ainda estava ali: à mercê de você. Me matava por acreditar que estava fazendo algo por nós quando, na verdade, estava fazendo por você. Me matava por acreditar que isso era amor. Não era.

Mas sobrevivi. É que -  ao contrário do que pode ter parecido - aquela última mensagem não era uma carta de suicídio, era uma carta de alforria. Percebi que estava me matando, aliás, deixando que você me guiasse para que eu me matasse, me enlouquecendo. Afinal, nenhum esforço era suficiente, nenhum dos quatro idiomas, nem as frações, nem os poemas, nem o gráfico da função, nenhum estratagema. Nada. Percebi que estava me matando por nada: nada que eu fizesse seria suficiente para colocar algum sentimento nesse nada que você sentia por mim. Digo algum sentimento porque, agora, estou certa de que o que eu sentia não era mais amor. Nesse ponto, quando você já me tratava como louca, não era mais amor. Pode ter sido, lá no começo, quando você me emprestou seu casaco pela primeira vez. Pode ter sido quando eu ficava super feliz ao ver você tentando cantar, todo atrapalhado. Ali era amor: me dava vida, me animava, recarregava minhas baterias. E, mesmo que eu tivesse que atravessar a cidade para te ver, isso não me sugava: me alimentava. Não me matava, me libertava. Pena que, logo depois, acabei ficando presa pelas suas mentiras e pela minha vontade, incessante de fazer dar certo. E o amor, que é característico da liberdade, não ficou presente para me ver sendo encurralada. Acabou.

Não sei mais se existia amor de sua parte. Nunca soube. O que, no começo, caracterizou a genuinidade do meu amor: nem precisava da reciprocidade para existir. Depois, esse não saber, caracterizou meu desamor: a busca desesperada por essa certeza. Me matava aos pouquinhos, cada dia mais. Me enlouquecia, me torturava, tirava meu sono e me devastava. Morri de amor. Mas, cariño, é uma delícia morrer de amor e continuar vivendo. Renasce. Floresce. Faz a gente perceber que amor, de verdade, não machuca, não consome, não humilha, não mata e não destrói. E, comigo, foi assim: te queria um bem danado, mas estava me matando, então, fui lá e me libertei. Essa foi a última mensagem que te enviei. 


Texto sugerido por Beatriz Emily e escrito com o amor de sempre por mim, 
Ane Karoline,



imagemm: rearteculando


Ontem eu a vi. Distraída, precisei olhar duas vezes para vê-la. Mas, quando a vi, senti um leve soco no estômago. Depois a olhei com mais cuidado e a agonia no meu estômago foi se dissipando. Quer dizer, lá estava ela: sentada, com um livro na mão. Um livro, inclusive, que eu li há alguns meses. Parecia absorta e totalmente inofensiva. Parecia até simpática, quase frágil: com roupas em cores claras, como eu mesma costumava usar. Ela também estava distraída e não me viu. Quando deixou cair uma caneta, por estar distraída com o livro, tive o impulso de pegar a caneta para ela. Quis ajudá-la. Ri de mim e para mim mesma: eu estava querendo o bem de quem havia levado uma parte de mim. Ou, pelo menos, algo que eu achava ser uma parte de mim.

Olhar para ela, ali, tão pertinho de mim, sem aquele vestidinho mullet, com o qual a conheci,   me fez lembrar de como foi ouvir você dizer que a amava: da mesma forma que tinha me dito duas semanas antes. Vê-la ali, lendo um exemplar do livro que eu guardava na minha segunda prateleira, me fez lembrar de como eu me senti a primeira vez que vi vocês dois juntos, enquanto eu voltava sozinha para casa, em uma noite escura qualquer. Mas, além disso, vê-la ali me fez perceber que nunca, em nenhum momento, desejei qualquer coisa que pudesse ferir a você ou a ela. Quando, há muito tempo atrás, eu recebi esse golpe nas costas, eu só consegui pensar: agora serão felizes, sem que eu esteja aqui para atrapalhar. 

Segui. No início, quando via uma foto,  ouvia uma música, via um conhecido, ou via algo que me lembrasse você, ou vocês, eu só conseguia desejar que vocês fossem felizes e, de preferência, longe de mim. Quis que, como eu, vocês seguissem. Depois que a ferida se curou e eu comecei a lembrá-los só muito raramente - quando via algo em alguma rede social, ou os via - percebi que desejava era um bem danado para vocês. E cada dia o faço com mais força. 

Desejo que tenham, juntos, a felicidade que não pudemos - eu e você- ter. Desejo uma paz mais intensa do que a que eu tinha antes de que vocês a destruíssem. Desejo que você tenha com ela a paciência que não teve comigo. Desejo que pergunte à ela sobre os livros que ela lê e a escute com atenção. Desejo que se cuidem, mutuamente. Com isso tudo, só tenho ganhado. Tenho desejado o bem e ele me deseja também. Do lado de cá, quando tenho notícias suas, torço para que consiga alcançar o que quer, encontrar o que perdeu e ter o sucesso que você sempre quis. Do lado daí, sinto que você também deve ter percebido que não tem razão para me ferir, torce, também, por mim. 

Eu sei que pode parecer meio estranho ou forjado, mas estou dizendo isso para que você entenda que, para mim, a felicidade alheia é lucro. Quer dizer, enquanto a vejo ali, sentadinha, eu percebo que é  mais um ser humano com um sorriso bonito por quem eu, sinceramente, não consigo sentir nenhum tipo de aversão. Quis, inclusive, falar com ela sobre o tal livro. É que o amor não é capaz de desejar o mal. E eu amei você e você, por amá-la, estende à ela o afeto que tenho. Por mais que tenhamos nos ferido reciprocamente, eu amei você com todo o meu coração e quem ama, ou já amou, é incapaz de desejar o mal. 

Hoje quando vejo/ouço algum exemplo de antipatia, de crueldade, inveja ou maldade vindo de quem diz um dia ter amado, sei que o amor nunca existiu. Esse papinho de que quando o relacionamento - de qualquer espécie - acaba,  o bem querer acaba junto, é invenção de quem nunca soube amar verdadeiramente. O que acaba é a relação, o contato, a amizade, a paixão e até o amor. A gente pode até se cruzar por aí e nem lembrar. Mas malquerer, jamais. Onde já existiu amor, mesmo quando maltratado, mesmo quando acaba, não é um lugar fértil para ruindade. A malquerença, é fruto de um coração que demonstrou um sentimento falso. Quem é capaz de atirar pedras, é porque nunca apreciou. Se hoje te vejo sorrindo, seja com quem for, também feliz estou.


Com amor, 
Ane Karoline



Foto por: Ane Karoline (instagram)


Minha cabeça está sempre cheia, confesso. O coração, quase sempre, apertadinho que só. Uma confusão. Mas luto arduamente para não deixar que essa confusão transborde e agrida as outras pessoas como, geralmente me agride. Talvez por isso, sempre me surpreendo com a grosseria gratuita que vejo sendo espalhada por aí. E, foi assim que, mais uma vez, fui estapeada pela estupidez sem razão: manhã chuvosa de quarta-feira, na honrosa companhia de minha irmã caçula. 
Chegamos, as duas, sorridentes, de mãozinhas dadas, como sempre andamos. Encostamos na janela fria de uma das secretarias do labirinto bárbaro que é a Universidade de Brasília.  Interrompemos nossa conversação e eu fui chegando toda simpática:

-Bom dia!
(silêncio)
-Tudo bom? - aumentei o sorriso na intenção de aumentar a efetividade
-Bom dia. 
- Então, gostaríamos de buscar a carteirinha da minha irmã aqui. Você poderia nos ajudar?
- Identidade.
- Aqui! -ela abriu o sorriso imenso e ensolarado dela e entregou a identidade ao homem
-Tem que aguardar!
- Tudo bem! - sorrimos juntas e continuamos nossa conversa enquanto ele procurava a carteirinha.
Quando ele, vários minutos depois, atirou a carteirinha na mão dela, agradecemos e, antes de sairmos, me lembrei.
- Ah! Moço, moço, ia me esquecendo! (risadas) Você poderia, também, imprimir uma grade horária autenticada?
Ele me olhou com uma expressão que não consigo definir de outra forma que não seja nojo, antes de cuspir:
- É pra você ou pra ela?
- É pra ela. - respondi menos cheia de sorrisinhos
- Ela é muda ou doida?
- Desculpa, como assim?
- Carteirinha.
- Como assim? - repeti sem conseguir ignorar a agressividade dele.
- Ela é caloura, né? Calouro tem essa cara de que não sabe onde tá. Deixa ela se virar. -  ele disse com tanto desprezo que parecia que o tínhamos agredido. 
- Ela é minha irmã. Estou ajudando-a, já que não tem escrito protocolo em lugar nenhum de como se comportar. - meu coração começou a disparar quando olhei para  onde, alguns segundos antes, estava o sorriso da minha irmã e vi um rosto confuso.
- Carteirinha . - ele já estava sentando, digitando algo no computador.
Ela, que não era muda, nem doida, nem sonsa, nem perdida, entregou a carteirinha. Logo em seguida, pegou o papel e, olhando bem para ele, disse bem alto e claro: 
- Muito obrigada. Tenha um bom dia. 
Não consegui agradecer. 
Seguimos em silêncio. As duas tentando entender a razão de tamanha grosseria. Tentando entender a grosseria gratuita. Eu, que estou sempre muito abalada por tudo, resolvi tomar um gole d'água para engolir o nó que o tal secretário criou em minha garganta. Eu, que sempre causo tragédias, esbarrei em um rapaz. Garrafa d'água para um lado, tampa para o outro, minha dignidade para o outro. A camiseta verde ficou ensopada. Preparada para uma grosseria -  com razão - comecei a me desculpar repetidamente.
- Ei, ei, moça! Calma! Tudo bem. Daqui a pouco seca. Essa camiseta tá imunda, foi quase um favor. 
Respirei.
Ele, sorrindo, continuou.
- Olha, eu vou indo, tenho aula agora. Tenham um ótimo dia! 
Daquela camiseta verde imunda, recebi de volta a gentileza que havia dado alguns minutos antes. Não faço por retribuição, mas o ciclo da gentileza nunca me deixa na mão. 

Insisto incessantemente na gentileza e não é porque sou um ser humano iluminado e superior. Muito pelo contrário. Minha insistência na gentileza é, na verdade, a expressão do que sinto: não vejo graça nenhuma em magoar as pessoas. Além disso, ser gentil não me custa nada. Nadinha. Geralmente, para ser bem sincera, me acrescenta bastante. Ganho sorrisos belíssimos, escuto estórias, causos, contos e histórias. Ganho inspiração. 


Transformando desamor em poesia - em parceria com a melhor irmã do mundo - com o amor de sempre, 
Ane Karoline.

A gente segue sorrindo, né não? (instagram)





Quatrocentos miligramas de baunilha com chocolate, toda sexta feira à noite para adoçar as lembranças amargas e, quem sabe, apagá-las. Um filme qualquer, ao qual eu não dava a mínima atenção. Coração na mão. Algumas semanas, mais calmo. Outras, apertado. Sexta-feira, quando era doze, era ainda mais penosa. Oitocentos miligramas de baunilha com chocolate e música triste. Sempre achei que precisava de alguém para me ajudar a tomar meu sorvete, mas fui aprendendo a tomá-lo sozinha: devagarinho, o tempo ajuda. Era tudo muito sutil mas muito significativo. O ritual do esquecimento também incluía uma olhada na timeline do facebook. 
Rostos sorridentes. Quem bom, melhor chorar de sorrir que rir para não chorar. Muita gente bonita, de rosto bonito e alma bagunçada. Muitas informações. E você. Você sempre aparecendo, mesmo que eu tente me esquivar. Sempre sorridente nas fotografias, ao lado de alguém - ou vários alguéms- que não conheço, ou que não conheço mais, pessoas que você nunca fez questão de me apresentar ou que se apresentaram de formas diferentes para mim e para você. Lá está você: sorrindo de orelha à orelha, fazendo piadas e compartilhando músicas que você nunca me mostrou. Amigável, jogando o futebol sobre o qual nunca quis falar comigo, cantando e dançando como se não tivesse ignorado todas as canções que fiz para você.
Ali, naquela página azul, dia após dia, parei de te reconhecer. As fotos, as frases, o discurso, a humildade forjada de quem não quis os meus poemas ler. Não vejo você. Vejo, sim, um produto que não corresponde com a realidade - ao menos, a realidade que eu conheci. Vejo alguém que vende gentileza e entrega descortesia. Vejo alguém que vende amor mas entrega desistência. Vejo alguém que, ao contrário do que pensei, não merece minha insistência.
Na última sexta feira, cansada da rotina semanal, cheguei a passar perto da sorveteria mas passei direto. Enjoei. Segui. Saí. Aceitei o convite para um daqueles programinhas calmos, que eu sempre te convidava para ir. Foi bom, pasme: tinha gente de verdade lá.  Ninguém tentando me ferir ou me manipular. Mais tarde, olhando as fotografias da noite, percebi que as expressões de alegria correspondiam exatamente ao que estávamos sentindo. Reais. Acabei optando por nem postar: vou deixar esse papel de sorridente das redes para você. Mas confesso que acho engraçado e fico me perguntando se, algum dia, a aceitação (de que no mundo real existem pessoas mais legais que seus amigos fieis, que existem reais maneiras de ser feliz - sem aos outros diminuir, que nem tudo que você vê é o que realmente é) vai chegar até você. Enquanto não chega, espero que esse sorriso com covinhas seja oferecido, também, para as pessoas reais.

Para quem conseguir nas entrelinhas se encontrar, achando graça, 
Ane Karoline



Não tenho tido notícias suas. Há tanto tempo não te vejo, nem sei dizer quanto. Hoje fui acometida por uma grande surpresa quando não consegui contar, não consegui me lembrar ao certo a última vez em que te vi. É tanto tempo que se tornou algo abstrato, não palpável, incontável. Digo, o tempo, não nós. Estou cada dia mais certa de que nós sempre seremos palpáveis, mesmo em minhas lembranças mais abstratas, você me é sempre bem real. Está sempre aqui comigo no que vejo, no que sinto, no jeito como me expresso, em minhas referências. Afinal, mesmo com esse jeitinho de quem não queria nada, de quem não impõe nada, mas de quem tudo cuida, você me mudou e deixou carimbo em mim: estou indo, mas estarei sempre por aqui. Até a saudade é real, sei exatamente do que sinto falta: sua risada incontrolável ainda me chicoteia com a mesma intensidade, como se eu tivesse acabado de ouvi-la. Bem aqui. Mas agora é saudade. E, tenho que dizer: que saudadezinha gostosa essa que agora sinto! Digo agora porque sei que não é eterna: sem tardar, vou te encontrar novamente e a camaradagem vai ser a mesma, como se nunca tivéssemos nos afastado. 

A verdade é que nunca nos afastamos realmente. É claro que a vida seguiu, fez e aconteceu. A vida tem acontecido em um ritmo diferente do que costumava acontecer, em um ritmo que difere para nós. Mas isso não nos impede de ser o que somos. Seguimos sendo. Continuamos sempre sendo aquela pessoa "para contar", aquela pessoa que, no mar do desespero, é para quem vamos ligar. Continuamos sempre nos acompanhando.  Os desencontros não impedem que, mesmo no silêncio, continuemos torcendo para a nossa felicidade mútua, muito pelo contrário: faz com que a torcida seja ainda mais sincera já que não é gritada ou exposta em outdoors. O tempo não impede que continuemos nos lembrando mutuamente: 30 seconds to mars, para mim, ainda é a sua banda. E, sobretudo, o amor não impede com que o carinho continue a ser essa plantinha que sempre cresce em nossos corações. É que, pelo visto, amizade é esse tipo de amor : um que nunca morre. 

Essa separação é, na verdade, uma breve interrupção. A rotina desse início de vida adulta tem nos mostrado que amizade vai além do que acreditávamos. É claro que também é estar presente, também é cinema, também é estar junto o tempo inteiro. Isso tudo é uma delícia, mas não é só isso. É saber com quem se pode contar. É, também, saber que o abraço de um amigo é um segundo lar. 

A todos os meus amigos e amigas - em especial para os que não vejo sempre (texto sugerido por Tallysson Aguiar)



Sexta à noite. Caminhava apressada, sonhando com o banho quente e o fim de semana de descanso. Quem sabe um filme, uma pizza, um livro. Paz. Perdida em pensamentos, demorou a perceber que estava sendo seguida. Tentou se acalmar: que loucura é essa? Arriscou uma olhadinha para trás: definitivamente, estava sendo seguida. É só acelerar o passo, pensou. Acelerou. A sombra perseguidora, apertou o passo também. Tentou um desvio, o perseguidor se aproximou. Começou a calcular: não sabia lutar, quem sabe negociar? Tinha o celular - não estava nem pago ainda. Que chatice. Tá. Ia entregar o celular, os 12 reais que estava no bolso de trás da calça e a bolsa. Decidiu que não ia resistir. Ia entregar tudo e ir andando para casa. 

Acelerava o passo, desviava, tropeçava. A distância diminuía na mesma proporção em que o desespero aumentava. Era novembro, estava frio, mas o suor escorria coluna a baixo. A testa já estava pegajosa, a mão escorrendo. As pernas pareciam não conseguir acelerar. Pensou em correr. Desistiu, ia cair. Se caísse, não teria chance. Apertava o passo e a distância diminui. 

 - Ei!

Pronto. Morta. Estava morta. Começou a pensar, arquitetar: ia escrever a carta de despedida na nota fiscal do lanche dizendo que amava a mãe. Quem a encontrasse, ia entregar a carta para a mãe. Talvez desse tempo de escrever umas palavras para a família toda. Talvez desse para pedir uma missa bem bonita no enterro. Derrubou as chaves no chão. É isso. Talvez desse para lutar. Arriscou uma olhadinha para trás, catou as chaves e colocou entre os dedos. Não ia desistir sem lutar. Menos de um metro de distância. Era correr ou morrer: correu. 

-Ei! Calma aí.

Calma aí o quê? O perseguidor corria também. Correu mais. Derrubou a bolsa. Levantou, correu. Caiu. Joelhos. Começou a catar as coisas quando sentiu a mão no ombro. Fechou os olhos, golpeou a perna do alguém com as chaves. E viu a pessoa cair de joelhos.

- Meu Deus do céu! Calma!
-  QUER ME MATAR?
-Tá perdida moça? Vi sua cara de quem não sabe onde está. 

Não sabia mesmo onde estava. Perdida num mundo onde a gente tem medo de caminhar. 


Sempre com medo, Ane Karoline (texto sugerido por Marta Guedes)



Outro dia me meti em um labirinto mais complicado que a caverna do dragão: cuidar de uma criançada para liberar a família. Todo mundo sabe como é o rebuliço de ter criança em casa. Pode ser só por um dia, uma hora, ou uma vida. Criança é aquela coisa, né? Um furacãozinho desenfreado ambulante. Uma perguntação infinita, uma insistência quase azucrinante, tira a gente do eixo. Instabilidade, inconsistência, gritaria:  Ô TIA!  

Foi loucura: uma brigaiada sem fim. Bastava uma chamada: calma, galera. Eles mesmos se organizavam. Comecei a observar: agora é a vez de quem? Não, não, você já foi. Vamos todos juntos, então? E foram. Corriam para um lado, para o outro, de repente: Ô TIA! Lá ia eu. Me ouviam e pediam minha opinião. Brinca com a gente, tia. Lá fui eu. Sentamos no chão. Algum tempo depois, morrendo de rir, olhei ao redor: ninguém ali tinha dinheiro, nem interesses políticos, nem diplomas. Me misturei, me diverti, me perdi. Que loucura! Vivi ali.

Depois, como as crianças não eram minhas, acabou. Os pais foram chegando, se desculpando. Canseira, né? É. Disfarcei bem. Na verdade, estava revigorada. Deu tudo certo? Deu. Deus: vi Deus na pirralhada. Achei que tinha visto o suficiente até que a pequenininha veio:
- Ô tia, vamos brincar só mais uma vez? 
- Ô meu bem... Você não está cansada?
- Estou! Mas foi legal! Foi o dia mais legal de todos.  - ih, enchi o olho d'água
- Foi? Para mim também foi! E a gente só brincou, né?
- Tia! A gente não SÓ brincou! A gente teve as coisas mais legais da vida: brincadeiras, colegas, refrigerante e pipoca.
Não tinha o que discordar. Só completei com o que faltava para a lista: um abraço.

Alegríssima, Ane Karoline (texto sugerido pela Kamilla Costa)




Se eu pudesse te dar um conselho, seria: fique só. Afaste-se de todos. De todo mundo mesmo. Acostume-se com a sua própria companhia até que consiga construir intimidade consigo mesmo. Eu sei que se conselho fosse bom, não seria gratuito, mas confie na gratuidade desse: tenha um tempo com você. Aliás, confie na gratuidade da sua companhia: tão preciosa e tão barata. Antes de qualquer coisa, esteja com você, é a melhor companhia que você vai ter. Ainda não te convenci? Vamos usar a lógica, então. Quão bem você se conhece? Provavelmente, não o suficiente para se julgar insuficiente. Vamos lá, se dê uma chance.

Estou te incentivando porque a solidão é o encontro com o vazio e, acredite se quiser, o vazio pode ser cheio de gente. Vazia. Ou de gente cheia - de si. Ninguém vai conseguir preencher um vazio que tem o seu formato. É como querer encaixar um quadrado dentro do espaço exato de um triângulo: não vai caber. Eis aqui o que você vai praticar: vai investir em você. Quando você se encontrar, a solidão vai parar de te assediar.  Dito isso, quero esclarecer: não estou te impelindo a se isolar, só estou dizendo para se acalmar. Vai se conhecer, se descobrir, se encontrar e, posso te garantir, a solidão vai te esquecer - ou você vai esquecê-la. A solidão é um parasita que se alimenta do nosso medo de ficar só e nos faz pensar que é melhor estar mal acompanhando que só. Mas não é. Como é que alguém vai te acompanhar, se nem você sabe quem é?

Depois, quando sua companhia for suficiente para te fazer feliz, aí sim, volte e deixe que as pessoas te acompanhem, enquanto você também as acompanha. Aí sim, vão ser companhias saudáveis. Aí sim, serão companhias que não te jogarão no abismo da solidão quando precisarem ir embora. Não serão necessárias, serão acréscimos, vão te transbordar. E como é delicioso se deixar acompanhar sem precisar. Essa é a companhia verdadeira: não é necessária, é uma escolha. Mesmo sem ela, a gente consegue seguir . Não da mesma forma, mas consegue. 

Do meu quarto, sozinha, Ane Karoline (texto sugerido pelo Adolfo Rodrigues)


Pelas minhas contas, tinha certeza que ia dar tempo: aos 18 anos estaria com a vida ganha. Universitária, realizada, com um amorzinho leve para abraçar nos dias frios, cuidando dos meus pais como eles cuidaram de mim e curtindo a vida adoidado. Quando cheguei aos 18, pensei: se chegamos à meta, vamos dobrar a meta, é assim que se faz, certo? Me dei mais dois anos. Sempre pensando que quando tal coisa acontecesse eu, finalmente, me daria paz. Sempre supervalorizando o que poderia vir e não o que tenho. Aos 20, percebi que meu plano infalível parecia, então, estar falhando. E, aí, me assustei. E se tudo der errado? E se esse momento processual nunca passar? E se eu, que nem sei nadar, acabar morrendo na praia? E se eu...? E se?

De tanto me preocupar, acabei criando um monstrinho: medo horrível de não chegar a nenhum lugar. Afinal, o fulano já casou, já se estabilizou e eu ainda no cursinho de inglês. O temor em fracassar, começou a se tornar maior que a vontade de ganhar, maior que a fidelidade comigo e com meus sonhos. Dia após dia a rotina era me afligir: sem me permitir ser feliz. Quando o carro chegar, quem sabe, aí eu vou ter motivo para sorrir. Mas nessa ânsia de acertar, comecei a tropeçar em meu rastro, andando em círculos. Ah! Deixa para lá! Quis parar, mas foi aí que percebi: é de tanto não parar que a gente chega lá.

Na pré-escola eu tive medo, chorei, caí e levantei. Aprendi a ler. Depois tive medo de andar de bicicleta, de nadar, de viajar, do colegial e da faculdade. Tive medo de tudo isso e, durante várias noites, tive a certeza de que não iria conseguir. Mas, no fim, nunca parei. Segui. E hoje, a criancinha que aprendeu a ler aos 10 anos, está aqui. Não ali, não lá, não onde o fulano está: estou aqui. Estou exatamente onde me era cabível estar e sei que, apesar de ainda ter muitos travesseiros para molhar, vou, sempre, me levantar, e chegar lá: onde quer que eu tenha que chegar. 

Ansiando pelo paraíso, Ane Karoline (Texto sugerido pela Érica Rodrigues)



De mãos dadas, outro dia, nos chamaram de casal. Depois, na fila do pão, alguém me perguntou se não brigávamos. Eu sorri e respondi que sim, brigávamos. A pessoa sorriu aliviada. Achei engraçado e, caminhando para casa, tentei me lembrar da última vez em que havíamos brigado. Não lembrei e, ao invés disso, ansiei em te contar o ocorrido. Ansiava em te contar tudo, na verdade. Sua opinião sobre os assuntos, que geralmente é diferente da minha, sempre me interessa, me acrescenta e me faz rir. Antes de te contar, parei para pensar e não sabia se era trágica ou cômica a situação: as pessoas se surpreendem com amor entre irmãos. 

Para mim, parece loucura. E, ao mesmo tempo, é triste: soar inapropriado ter afinidade com alguém que sabe tudo de você, que sofreu, sorriu e chorou com você. Eu não consegui entender, fiquei assustada. Como, na fila do pão, não tinha você comigo, comecei a devanear sozinha e fiquei em choque quando percebi que o amor sem interesses parece ter perdido a credibilidade. O amor que torce pelo sucesso do outro sem nenhum interesse ou inveja, parece mentira. Horrorizada pensei: o mundo desaprendeu a amar. Com lágrimas nos olhos eu quis te ligar mas, por saber da sua rotina, preferi esperar você chegar em casa para desabafar. Disso, pelo menos, eu sempre poderia dispor: sua companhia, mesmo quando silenciosa, a me conter. Será? Com você o mundo é mais lar.

Agoniada com minha constatação, comecei a temer o futuro: nós vamos graduar, casar, viajar e nos separar. Que desespero. A descrença alheia começou a me afetar. Lembro-me do momento exato em que chegou em casa: depois de um dia exaustivo, ao invés de reclamar, me viu aflita e quis saber como eu estava, como havia sido o dia e me ordenou: deixa de bobagem! Deixei. E num abraço percebi: não há maior conexão que o abraço de um irmão.

Com muito amor, para os meus pimpolhos, Ane Karoline (texto sugerido por Angelo Dourado)


Não foi por hoje. Quer dizer, foi sim. É claro que foi. Mas não foi "só" pelos 20 minutos de atraso. Mesmo sabendo que você sabe que eu odeio atraso, a gente tinha feito um trato, até onde me lembro. E você, mais uma vez, o ignorou. Ignorou um acordo no qual chegamos juntos. Mais uma vez. Na verdade, acho que foi isso: mais uma vez. E, dessa vez,  eu não quero mais explicações. Pelo que te ouvi dizer, um imprevisto aconteceu e ocasionou o seu atraso. Perdoável. Isoladamente perdoável. Mas, meu bem, não foi um caso isolado. Foi a gotinha que faltava para encher o copo. Encher o saco. Me encher. E eu, que estava equilibrando esse copo sozinha, tentando não deixá-lo cair, finalmente, transbordei.

O que acontece é que cada um dos pequenos gestos cometidos sem consideração,  fizeram com que eu, não só quisesse, mas tivesse que abrir mão. Cada mentirinha, cada troca, cada afronta, cada deslealdade, cada irreverência, cada desaforo e cada desprezo me fizeram perceber que confiança precisa ser regada para crescer. E eu, sempre cheia de energia, regava esse jardim com as explicações e os pretextos que você me oferecia, me esforçava tanto que florescia. Descobri essa forma de sustento sozinha. E foi durante os 20 minutos te esperando que me lembrei do teatro - no qual você nunca confiou. No teatro a gente não pode atrasar. Quem atrasa, não é digno de estar lá. E é assim que a gente vai aprendendo em quem confiar: construindo, através de merecimento. A confiança que eu te dei, sendo assim, não tinha razões para continuar. 

Então é isso, os 20 minutos, que você julgou como nada, como desimportantes, foram suficientes para me fazer acordar: quem quer confiança, tem que edificar. Se assim não for, não há razões para ficar. Agora, que já não empenho energia em o jardim da confiança mútua regar, tenho mais tempo, e espaço, para deixar que a confiança em mim mesma floresça. 

Confiante,  Ane Karoline (texto sugerido pelo Gabriel Souza)


Cheia de certezas, transbordava sonhos e chovia opiniões. Ritmo desenfreado. Adolescente coração pulsante, que não a permitia descanso. Somente acelerava parecia em busca de um amor. A mente era colecionadora de devaneios. Tão pouco tempo vivido e do mesmo modo sentia: tão. As mazelas do mundo carregava nas costas. Tão assertiva, se achava, que não via ninguém. Quando o viu, foi um alívio: um poço de tranquilidade. Alguém que sonhava mais devagar. Alguém que não era nothing but a song without no rhyme. Foi quase imediato: um rompante, um soco. A lâmpada se acendeu naquela cabecinha sonhadora.  Ele tinha o espaço que faltava nela, o descanso que ela queria, a calma que ela buscava, a praticidade que ela praticava - fazia contas como ninguém- e, pelas contas dele, seriam felizes. Era uma graça, graciosa a relação. Quem a via, a via intensa e calma: a cabeça, quando doía, era recostada no ombro dele. Quem o via, o via orgulhoso e levemente inquieto: queria protegê-la. 

Ela tendia a ver demais, ver além da conta, e via nele o lugar para repousar. Era quase escravidão: o tratava como um rei. Fazia das coisas do coração, leis. No começo, o amava com paixão: cegamente. Se ligava, estava interessado. Se não ligava, sem problemas, devia estar ocupado. Se a convidava, era êxtase. Se não a convidava, ela não esperava, quebrava o tabu e o chamava. O colocou em planos, sonhos e canções. Escreveu para ele em emails, cartões, guardanapos de padaria e em seu coração. Deixou que a fantasia do amor a envolvesse, depois da formatura ficariam juntos. Afinal, seria a melhor oportunidade de apresentá-la para a família. A dele, a dela já sabia. Na verdade, quem quer que a visse, saberia. Estava estampado na sorriso tímido que ela dava quando o via argumentar. Paixão, como passa, passou. O amor se tornou a caridade que tudo suporta: doente, ia vê-lo jogar. Só para vê-lo e, quem sabe, fazer com que ele a visse. Deitava-se, todos os dias, com a esperança  virginal de uma criança, a ponto de estar sempre só: esperando um sim ou um nunca mais.

Ele via de menos. Não viu neles o futuro que teriam. O fim chegou quando ela, finalmente, terminou o que ele nem havia começado. Para ele ainda era cedo e ela já não tinha mais tempo a perder. Desistiu, quando percebeu que o primeiro amor, esgotado, estava impedindo o segundo de chegar. Saiu cambaleante: já não tinha mais certezas e as opiniões começaram a garoar. Satisfeita, fora da insensatez da adolescência, aprendeu que essa montanha russa que é o amor, pode nos lançar longe mas nos ensina, também, a frear. 

com amor, Ane Karoline (texto sugerido pela Hidaiana Rosa)


Caí na farsa. A ilusão de que sempre tem alguém que gosta menos e que é vantajoso ser esse alguém. 
De fato, não raramente, existe um lado que gosta mais e, consequentemente, um que gosta menos. A tv, o cinema, a música, as praças e os livros estão abarrotados de histórias assim: alguém gosta mais, se entrega mais e sofre mais. Esse lado da premissa é verdadeiro. Mas estou prestes a negar o outro lado, pasme: ser quem gosta menos não é mérito nenhum. Ser quem gosta menos também pode não ser problema nenhum, afinal, ainda não existe um SAC onde podemos reclamar da falta de controle emocional. Não dá para controlar. Mas dá para evidenciar. Ninguém nunca disse que sentimentalidade era um jogo e que ganharia quem tivesse mais cartas escondidas na manga: não é. Inventamos isso. E, sinceramente, foi uma das invenções mais infelizes da humanidade. 

E assim foi: caí. Depois de ter vivido na pele de quem gosta mais, achei que a solução era acatar o conselho de contenção. Eu tempestiva, que sempre fui dada aos excessos, me vi reprimida. Economizando afeto. Querendo ser quem gosta menos, quem demonstra menos, quem sente menos. Mesmo em erupção por dentro. Que perrengue! Tanto me reprimi que consegui. Me tornei o que me feriu e saí ferindo os outros. Me protegendo, eu dizia. Mentira. Farsa. Ferir o outro é, na verdade, ferir a mim também. Cada pessoa que machuco, é mais um passo que dou para o fundo do poço. Submersa, do fundo do poço foi que percebi: o problema não é gostar menos, é simular. É na simulação que o respeito se perde. Ninguém demonstra o que sente, um jogo em que ninguém joga limpo e, no final, todo mundo perde. Quando percebi, em choque, entendi: o que não faço ao outro, não quero para mim. Se o sentimento não existe, ou se está fraquejando, não há mal nenhum em dizer: eu não quero estar com você. Vai doer. Mas a verdade é o que tem que prevalecer: uma tempestade de uma hora, é muito menos dolorosa que um chuvisco de um mês. 

Eu, que nunca escolhi certo, me deixava guiar pelo medo cego da dor - em mim ou em outro alguém - aprendi que covardia não protege ninguém. E que reciprocidade, além de ser a ligação e resposta idêntica ao sentimento de alguém, é, sobretudo, a coragem de respeitar e não causar ao outro o que pra mim também não convém. Ao iludir o outro, da mesma forma, me iludo. A consideração e a bravura de dizer a verdade, é muito mais recíproca que um costume disfarçado de amor.  

Tentando devolver ao universo, o amor que recebo (texto sugerido pela Fran Nascimento)


Duas carimbadas interromperam o silêncio. Ela não me olhava enquanto escrevia freneticamente no papel. Profissional, pensei. Cocei os olhos e tentei olhar ao redor para parecer mais relaxada. Agir como um ser humano adulto: indiferente ao que acontece ao redor. Cocei os olhos. Se coçar piora, ela me disse. Parei.
- Histórico com álcool? 
- Não.
- Drogas?
- Nada.
Ela prosseguiu anotando, quase inconsciente da minha presença. Me ajeitei na cadeira e resolvi puxar assunto.
- Tenho 23 anos e nunca tive um porre. 
- Que bom. 5 dias de atestado, a medicação está prescrita aqui. Repouso. Volte se persistirem os sintomas.
Continuei sentada, ela me despachou com um sorriso e um boa tarde. Os sintomas persistiram quando, ao sair do consultório, vi o que poderia ser uma festa: umas 15 pessoas desconhecidas que não passavam dos 30 anos de idade. Não era uma festa porque estavam todos abatidos: olheiras maiores que os olhos, sorrisos escondidos, testas franzidas. Todos doentes. Como eu. Eles nem me viram, eu , literalmente, também não pude ver muita coisa. Meus olhos coçavam. Síndrome do olho seco. Eu estava seca. Não me lembrava a última vez em que havia chorado. Um turbilhão por dentro, uma verdadeira tempestade. Por fora, seca. O olho coçava me pedindo: chora. Não chorava. Não tinha tempo para chorar: trabalho, família, trabalho, estudo, trabalho, trabalho, trabalho. Resumo da ópera: enquanto me afogava em mim mesma, fiquei doente por não chorar. Tanto temi parecer fraca, que vulnerável me tornei. 
No fim das contas, a médica estava certa: os 5 dias me ajudaram. Percebi que não sei para onde estou indo, mas que ninguém sabe. Não faz mal não saber. Isso é coisa que colocam na cabeça da gente: aos 25 tem que ter doutorado; 26, casamento; 28, filhos. A gente quer tanto encontrar resultados, que se esquece de ser antes de estar. E na verdade, o resultado principal fica de lado: a construção de nós mesmos, o cuidado com nós mesmos. Acabamos travando batalhas por conquistas que nem são exatamente por nós e a intensidade da juventude faz com que nos enchamos de tralhas no caminho: ansiedade, medo, tendinite, síndrome do olho seco, síndrome do pânico, síndrome disso, síndrome daquilo. Síndrome de estar fazendo o que não queremos fazer, por razões que nem conseguimos esclarecer.  Então, antes de chegar lá, resolvi o caminho aproveitar. Eu não "já" vivi até aqui, eu "só" vivi até aqui. Os sintomas persistiram mas, ao invés de voltar ao hospital, vou sair para me encontrar. Quem sabe esse olho seco não está precisando de um porre para, nem que seja de vergonha, se molhar?

Ansiosa por resultados, Ane Karoline (texto sugerido por Débora Kelly) 


Parda. Habitante de uma pele muda. Um corpo sem identidade que gritava abafado. Talvez por isso eu tenha demorado a me ouvir. Os cabelos que, desde a infância, escorriam pelos ombros, chegando à cintura, expressavam o sangue indígena que corre em minhas veias. A pele sempre foi o que me traiu, o que me fez me perder em minha própria identidade: acobreada, se perdia em meio à branquitude da família que veio do sul. Sulistas. Mas eu, antes de centro-ocidental, sou brasileira. Demorei a perceber que sou filha da terra, dessa terras que já existiam antes de serem descobertas. Vivi muito tempo sem raiz: a gente, vez ou outra, tenta imitar o que o outro diz. Perambulava vendo gente se vender: dentro do Brasil, não via espaço para brasileira ser. Quer dizer, que loucura um país no qual os estrangeiros são sempre mais valiosos que você. 

Enfeitiçada pela cultura européia fui: uma gente de pele clara, sem manchas de Sol e suor. Enamorada fiquei pela forma como o inglês sounded so much better que o português. O português que -  se comparado ao nível do inglês falado na Inglaterra-  sempre foi tido como muito mal falado no Brasil. Que país! Tão sem identidade que ninguém fala a própria língua. De tanto assistir cinema intercional e comercial de TV, me apaixonei pelo que não me pertencia. Mas paixão passa. Passou. Me olhando no espelho eu percebi: foi daqui que eu nasci. A pele parda, bronzeada do Sol, e a minha voz, ecoando, enquanto canto marisa monte me mostraram que meu português é tão valioso quando o inglês e, sobretudo, o português que escuto aqui, o português que você usa, ao invés do que tu usas. O português brasileiro. E que, se por alguma razão, não foi bem dito o suficiente para gerar comunicação efetiva, é porque precisa de mim: precisa do que digo, do que escrevo e do que falo. Aliás, precisa de mim e de você. Precisa de nós para desatarmos os nós que nos impedem de avançar. 

Hoje me vejo brasileira: filha da miscigenação e, sobretudo, filha tupi-guarani dos filhos dessa terra. E reconheço, com admiração, a magnitude das culturas europeias e dos nossos vizinhos norte-americanos. Mas reconheço, ainda mais, que eles estão lá, construindo seus países. A minha cultura também depende de mim, meu país também depende de mim e, além de maldizer o que está sendo feito, preciso me levantar e fazer para que, quem sabe, possamos construir um Brasil que de todos nós possa ser.

Deitada eternamente em berço esplêndido, Ane Karoline (texto sugerido por Ane Kelly)





Não percebi de onde veio. Foi uma brisa muito leve que encontrou meu rosto e me vi, instantaneamente, girar nos calcanhares. Não tinha nada ali além de uma multidão de desconhecidos mas o cheiro me era conhecido. Lembrei que já era agosto. Muito tempo sem vê-la e o cheiro ainda era forte o suficiente para me fazer parar em uma avenida movimentada e olhar ao redor. Contei o tempo mentalmente e peguei o celular. Melhor não, me freei, nem feliz aniversário eu desejei para ela, não tem como aparecer agora out of the blue. Fiquei uns bons minutos nessa divagação, andando sem rumo. Andando devagar, do jeito que ela sempre me pedia para andar - para o tempo durar mais, ela dizia. Bobagem. 
Segui. Não tenho tempo para isso, nunca tive. Me ocupando passa. O cheiro passou, foi só um fantasma, um lapso. Mas uma semente de desordem ficou ali no meu peito, fazendo morada onde ela ficava quando, miudinha, me abraçava e fazia de mim seu lar. Não doía não, oco não dói. Mas incomodava. Tomei dois cafés seguidos para... Para quê? Nem sei. A inquietude é que me guiava, devia ser da mesma espécie da inquietude que a movia. Peguei o celular, horário do almoço. A gente costumava se falar na hora do almoço, quando não tinha ninguém perto e eu tinha coragem de ligar para ela... Tenha Santa Paciência! Respirei, uma, duas, três... Ela tinha umas loucuras de exercício de respiração, será que isso funciona? Eu, por fora calmo, por dentro estava uma pilha. Me senti metafórico e comecei a achar que ela tinha me escrito. Uma gota de suor pingou na mesa. Tudo isso por conta de uma brisa que resolveu me lembrar de um perfume.  Aquele mesmo perfume que ficava impregnado em minha jaqueta nas segundas e quartas. Bobagem.
Ocupa. Ocupa que  uma hora o fantasma vai embora. Almoço, cerveja, email, trabalho, planilhas, excel, futebol, facebook. A primeira postagem era dela. Cheia de opinião, como sempre, imaginei que deveria estar se posicionando em causas universais outra vez.  Pensei que fosse um sinal para forçar contato, reatar o que eu mesmo havia destruído. Me enganei Não era texto, era uma foto. Ela estava linda, o cabelo crescido, cara de doutora, cara de feliz. Mais feliz ainda era o cara com ela na foto. Era um sinal mesmo, mas era o contrário: o amor pede licença, a saudade entra sem pedir e, geralmente, quando já não a cabe mais ali.

Ane Karoline (texto sugerido pela Ana Luiza)




O conselho que te deram está incompleto. Também me disseram que doía. Me disseram que eu não deveria me basear no que vi no cinema e nem no que li. Achei um exagero, um engano. Eu, que sempre insisti em ver o copo meio cheio, guardei os conselhos na gaveta e fui me aventurar. Me convenci de que esse tal pessimismo era coisa de gente que gosta de dramatizar: onde é que já se viu amor machucar? A coragem, pensei, não vai ser necessária, mas vou levar. 
Que jornada! Esqueceram de me dizer que é loucura. E que louca fui, agora vejo. Imprudente. Corajosa. Amor é coisa de gente que tem coragem. Desvairada me joguei nesse mar de amor que eu mesma criei e na falta de reciprocidade, desaguei em mim mesma. O amor, que permiti que em mim habitasse, se fez tão genuíno que já não esperava nada em troca, só esperava. Suportava. E, por um longo tempo, suportei com uma esperança inigualável, quase com prazer. Esperei que essa tempestade que sou tanto batesse no coração dele que furasse: abrisse espaço para o amor. 
Mais uma vez o falatório popular fracassou: não abri espaço nenhum em um coração sem ardor. Me afoguei em meu próprio amor e nas fantasias que criei -foram muitas. Mas a gente pode aprender o que quiser, não é mesmo? Aprendi a nadar até me encontrar. Foi um esforço imenso, eu acho que você não vai lembrar mas eu tinha medo. Não tenho mais. Nadei um oceano inteiro de desilusões, julgamentos, e frustrações. E dessa vez foi por mim. Perdi o fôlego várias vezes, meu corpo, infinitas vezes, fraquejou, quase morri. Mas foi por mim e, quando é assim, o cansaço é recompensado: renasci. 
Das dores que senti, a facada dos olhares que me diziam "eu te avisei" foi uma das maiores. Doeu, como me disseram que doeria. Foi diferente dos filmes porque o meu final feliz foi sozinha. Me avisaram mesmo, mas tem algo que não me disseram: como é bom amar! O jeito doce como a vida faz sentido, como o Sol brilha mais bonito e como os sentimentos são tão desmedidos. A gente cresce: tomba, cai, se machuca, se desconstrói e se reinventa. Uma companheira de batalha me contou: amar alguém só pode fazer bem, pelo menos a nós mesmos, quando ao outro não convém. 
Portanto, aqui vai: dói. Dói quando dá errado e quando dá certo também dói. Não parece em nada com os filmes: os nossos finais são muito mais criativos e a gente tem uma vida inteira para reinventá-los. Um amor mal sucedido não estraga a nossa vida para sempre. E, no fim das contas, vale a pena. Vale a pena porque, quando passa, prepara a gente para que vier: nos traz coragem e nos traz fé. 

Revigorada, Ane Karoline (o texto foi escrito pela sugestão de Jéssica Carvalho)



Calado. Era apático, quase invisível. Quando pintaram as paredes do escritório de branco, comprou várias camisas brancas. Camuflava-se. Era de uma insegurança que, se não fosse triste, seria cômica. Falava pouco, existia menos ainda. Opiniões, há muito deixara de ter, afinal, para quê? Nunca tinha coragem de dizer. Era aquele camarada que quando começa a falar, fala com tanta insegurança que ninguém dá atenção. Ninguém nunca dava atenção. Ele, por sua vez, vivia nessa confusão: queria ser notado mas fugia de qualquer aproximação. Dava a volta no quarteirão para evitar um grupo de duas pessoas ou mais. Enquanto andava, era apressado. No trabalho, calado. Nada engraçado. Quieto. Manso. Vivia quase que em obediência ao mundo. O aceno com a cabeça era sua frase mais comum. Uns o julgavam covarde, ele preferia se ver cauteloso. Comedido. Prudentíssimo. Não problematizava nadinha. O Senhor da concordância: evitava mais um conflito que um giló. No ônibus era aquele cara que sabe se comportar: não encosta em quem não deve, não faz barulhos excessivos, não torra a paciência de ninguém. Quase oculto. 
Tão oculto que, em uma tarde quente de sexta feira, parecia não ter sido visto pelo tio grisalho de 1,80m dentro do ônibus lotado. A cada pisada do motorista no freio, questionava a física: será mesmo que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço? O tal cara impertinente provavelmente não sabia disso. Se inquietou: dava umas olhadas para o espalhafatoso tentando alertá-lo do excesso de proximidade. Nada. Se afastava, pigarreava. Nada. Respirou fundo: ônibus cheio, a gente entende. O cara é grande, precisa de espaço, não está fazendo por mal, ele vai perceber, ele vai se afastar. Bendita seja a inocência. O ônibus começava a esvaziar e o incômodo lá: pareceria onipresente. Ia para a direita, o cara ia. Ia para a esquerda, lá estava ele. A situação já estava notória. E teria aguentada-a se não fosse um cachorro. Um cachorro atravessando a BR como quem tem a vida ganha. Ganhou a vida aquele dia: o motorista freou bruscamente.
- TÁ MALUCO, CARA? CHEGA PARA LÁ!
O dito cujo, onipresente, se fez de inocente. E o circo foi armado: o sr concordância, finalmente, discordou e a platéia do ônibus adorou a problematização: não tem que aceitar nada calado não. Pelo visto, o outro também não era muito de problematização e evitou a confusão. Deu umas desculpinhas envergonhadas e se afastou. Deu espaço para a voz de quem sempre se calou. Uma aproximação na hora era errada, trouxe paz depois da agonia: aquela sarrada foi, para a timidez, terapia. 

De quem foge das sarradas desde sempre: Ane Karoline. (Texto escrito pela sugestão de Jéssica Oliveira)

imagem: weheartit.com


Eu o encontrei. O amor da minha vida, quero dizer. E foi tão sutil a chegada dele que, no início, não percebi. Chegou com carinho, muitas vezes disfarçado de um bilhetinho de bom dia, de uma ligação, de paciência,  de gestos de sinceridade e cuidado. Outras tantas, veio disfarçado de bom humor. De humilde que é, se fez pequeno o suficiente para que eu, com minha mania de grandeza, o visse. E quando, finalmente, o vi entendi: o amor, quando é, é. Não carece de justificativas. E, pela simplicidade de ser, algumas vezes passa despercebido. E eu, que tantas vezes o deixei passar, consegui encontrá-lo.  Pode chamar do que preferir: sorte, destino, predestinação, boa vontade ou coragem. É que, além de sorte, eu tive muita coragem. É preciso muita coragem para amar.
Foi mais ou menos assim que o encontrei: quando me vi abandonada e devastada pelo que julguei ser o amor da minha vida, quando me julguei incapaz de amar, o amor - de verdade - apareceu. Um amor que, ao me desejar bom dia, sempre vem carregado do desejo de que meu dia seja realmente bom e que, além disso, ainda me pede os relatos no fim do dia, me dando suporte quando o mesmo não foi tão bom: me acolhe, me recolhe, me ajuda a juntar meus destroços despedaçados. Um amor que se alegra com minha alegria, em comunhão comigo. Um amor que quer me ver - esteja eu sorrindo ou chorando  - mas, sobretudo, me ver sorrindo. Ou, pelo menos, saber que estou sorrindo - onde quer que eu esteja. Um amor que me oferece o ombro e me oferece espaço. Um amor que me ensina canções e melodias. Um amor que se dispõe a ouvir meus dramas repetidos às 2 da manhã, em uma noite cansativa de sexta. Um amor que me lê. Um amor que diminui o açúcar do café só para proteger meu estômago. Um amor que move o mundo em uma segunda-feira a noite em um 4 de julho qualquer. Um amor que não se contenta em mandar um recado, aparece e vem ficar ao meu lado. Um amor doce. Um amor que escreve e compõe para mim e por mim. Um amor que aceita as minhas limitações e segura minha mão ao invés de soltá-la quando tudo fica difícil. Um amor que decora meu cheiro e meu jeito de falar. Um amor que me escuta falar sobre Clarice por horas - mesmo sem gostar de literatura brasileira. Um amor que me indica filmes e músicas. Um amor que me traz água de coco e aceita ficar horas sem fazer nada, quando não estou fisicamente bem. Um amor que me protege. Um amor que canta para mim. Um amor que, calado, me beija a testa. Um amor que me abraça e diz o quanto é bom me ver. Um amor que reconhece minhas falhas e sabe como me dizer onde falhei, sem me julgar ou diminuir. Um amor que quer me ver crescer. Um amor que luta comigo. Um amor que fica.
E foi assim que o reconheci: em diferentes rostos. Vários. Esse amor que, agora vejo, é o mesmo e, ao mesmo tempo, consegue ser tão singular em cada um. Esse amor que, de tão infinito, consegue se fazer presente em várias pessoas sem perder sua genuinidade. Genuíno. É isso que esse amor que tenho é. E, por isso, é tão especial e único: o vejo em várias pessoas em vários momentos, ações e lugares. E essas pecinhas, quando juntas, é que fazem com que meu coração siga batendo, siga esbofeteando a vontade de desistir, siga. São esses gestos suaves que me fazem respirar e ver que o amor da minha vida é, sempre, todo o amor que recebo - de onde quer que venha. E quando, finalmente, tive a sorte de encontrar esse amor da minha vida percebi: sem amor eu nada seria.