A primeira vez em que eu vi Deus, eu tinha três anos de idade. Talvez, possa até ter visto antes mas foi só ao três anos de idade que percebi. Minha mãe, grávida de uns seis meses, portava uma barriga que parecia evoluir para a explosão: crescia a cada segundo que se passava. Eu, agoniada, a questionei sobre como aquilo poderia ser possível e ela, calmamente, me respondeu com: são coisas de Deus, minha filha. Foi assim, olhando para a barriga estufada dela, que vi Deus pela primeira vez. Era de uma presença tão verdadeira que eu queria ficar perto da barriga dela para estar mais perto de Deus. Só quando a bebê nasceu e minha mãe apareceu viva, sem nenhuma explosão, quase tão magra quanto antes, foi que percebi: Deus não estava só na barriga dela, mas também estava lá.

Aos quatro anos de idade, já via Deus com muita frequência: na risada da bebê, no jogo de pega varetas que meu irmão me dera, nas músicas que minha mãe cantava para mim, no cachorrinho da vizinha e no dia de folga do meu pai. Era tudo bem simples, Deus era o que me fizesse bem. Ninguém havia me dito isso; ninguém havia me ensinado nada, nem me doutrinado. Era um sentimento simples e fluido que nascera dentro de mim, sem juízo de valor. 

Depois, a vida foi acontecendo e conheci o que, para mim, não era Deus: a dor, a fome, a miséria, o choro, a violência e o medo. Foi mais ou menos aí que me disseram: tudo isso acontece porque Deus está lá longe, no Céu, e para falar com ele, temos que rezar. Rezei. Pedi, perguntei, roguei, questionei, implorei. Me disseram: prece válida é feita na igreja. Fui e não posso negar: encontrei com Deus também lá na igreja. Também na igreja, mas não só. Mas, na hora, não percebi e, de tão grata pelas maravilhas que tenho, caí na vaidade de querer agradar Deus - acreditei quando me desenharam o Deus-Homem, substantivo masculino, que quer ser agradado, que pune e se decepciona. Temi: Deus é que me livre decepcioná-lo, pensei. Já nem era por amor, eu não queria ser punida, afinal, quem é que quer? Perdi minha afinidade com Deus quando comecei a Temer.

Nos dias que passei prostrada, ajoelhada, tentando ouvir Deus, nada ouvia. Me martirizava: não estou me empenhando o suficiente, Deus não quer falar comigo. Eu ouvia muitas coisas, mas nada de Divino. Ouvia vozes de pessoas: algumas pedindo ajuda, algumas querendo conversar, algumas afirmavam ter algo a me dizer, algumas queriam me ver. Não queria ouvi-las, queria ouvir o que fosse Divino. Tolice. Eu quis que Deus gritasse comigo, aparecesse como uma entidade vestida de branco, ao invés disso, me sussurrava através das pessoas que eu não queria ouvir, dos lugares aos quais eu não dava atenção, da Chuva e do Sol. De egoísta que sou, não percebi. Vez ou outra a gente se perde dentro de si mesmo.

Mas eu nunca fui punida. Nem pelas vezes que não rezei, nem pelas vezes que rezei pouco, nem pelas vezes que maldisse alguma coisa e nem pelas vezes que feri alguém "em nome do amor". Quando cometi atos de desamor (comigo e com o próximo), não fui punida, somente recebi desamor de volta: colhi o que eu mesma plantei. Deus não me puniu, continuou lá, sendo atemporal, me guiando, me sendo chuva, me sendo Sol, me sendo amor. Continuou me sendo a chama de Vida que pulsa em minhas veias, nas noites mais tortuosas. Continuou me sendo Sol nas várias manhãs que tive após cada pior noite da minha vida. Sempre. Sem me cobrar nada, sem me julgar, sem me invadir, sem olhar o que visto ou o como está meu cabelo, sem me oprimir, sem me ferir. Continuou sendo Deus.

Hoje, vejo e sinto Deus em várias coisas, cheiros, pessoas, lugares e formatos. Vejo, por exemplo, quando me levanto todos os dias, com olheiras profundas, mas com a esperança de que o dia seja melhor que o anterior - para mim e para o mundo. Sinto Deus, na minha própria esperança que, mesmo tendo todos os motivos para ser estilhaçada todos os dias, continua viva. Sinto Deus no amor que sinto pelas pessoas que nem conheço e pelo amor que ainda sinto pela pessoas que me atacam, sem esperar nada em troca. Digo tudo isso mas preciso dizer que: eu não faço ideia do formato certo de Deus, do rosto de Deus - eu nem acho que exista um. Mas eu sei exatamente onde encontrar Deus: em qualquer lugar e onde houver amor.

Com amor, Ane Karoline.

                       Resultado de imagem para indo embora

Ele passou por mim. Eu andava tranquilamente sem nada esperar - ultimamente eu apenas caminho sem fazer muitos planos. Assim, o vi: o cabelo estava diferente, o olhar despreocupado e a barba por fazer. Ele usava uma camisa que eu dei em algum dos nossos muitos aniversários juntos. Sentei, resolvi observar e imaginar o que poderia ter sido, já que tenho mania de mergulhar na dor e sentir por dentro com toda a força que ela puder me arrebatar. Nunca fui de evitar, nem disfarçar. 

Observei e vi que, na verdade, príncipes não existem:somos todos pessoas normais, que às vezes, quando somos compreendidos, somos reflexo reluzente do amor de quem nos compreende, acolhe e escolhe nos amar. Antes, eu o via como o sol, meu Sol e estrelas. A admiração do amor anuviava tão forte em mim, que eu não conseguia pensar bem sobre aquela relação, estava absorta demais para isso. Então, sentada, enquanto eu o observava, me permiti a, finalmente, pensar claramente. Afastar-se aumenta a perspectiva e foi afastando-me que, provavelmente, pela primeira vez eu o vi. Um cara normal, que tinha quase todos os detalhes que eu não gosto em alguém, e eu o amei. Ainda não consigo entender como o coração faz esse tipo de coisa com a gente, eu que costumava ser tão coerente e clara em tudo o que desejava mas, com ele, abri mão de todos os meus planos singulares, me deixei ser parte de um plural: me anulei. Eu, tão feminista  e adepta da liberdade dos direitos iguais, me deixei amarrar numa relação que me destruiu ao ponto de que, ainda hoje, eu não veja como me refazer. 

Olhei pra ele, olhei pra mim e tentei contar em quantos pedaços me quebrei;  em quantos pedaços toda essa história me quebrou, perdi as contas. Minha expressão era calma, minha cabeça era um nó, tentando juntar meus pedaços. A vontade era de desabar ali, deixar que meus pedaços caíssem no meio de todo mundo, naquela festa que, de tão afetada, eu nem sabia mais onde era, ou porque eu tinha ido. A vontade era a de gritar pra ele e perguntar todos os porquês, perguntar se ele não consegue ver o que está fazendo, o que ainda está causando em mim. A vontade era de entender, eu não entendo.

Observei mais algum tempo, agradeci profundamente. Eu fui devastada, fui e ainda estou - esfacelada demais, sem condições de construir relações por um tempo. Mas sou grata. Grata porque me livrei de um futuro que não era meu, escapei de uma vida que eu nunca desejei. Quase caí na armadilha de viver no morno, na quietude, mas não me adiantaria sossegar por fora: eu sempre carreguei aqui dentro um coração inquieto e uma coragem que, apesar de tudo, ainda me engole inteira.  Ali, o observei e agradeci a dor que eu ainda sinto - um ano depois. Dor que sinto e parece que ela ainda vai me acompanhar por muito tempo, mas eu já estou aprendendo a lidar e seguir.

Talvez a tal compreensão do amor que cabe em mim, e que me cabe, não me visite;  mas eu vou seguir;  porque o meu amor sou eu, eu me escolho. Me escolhi um ano atrás e me escolho novamente hoje enquanto te vejo passar, como um desconhecido por mim, logo você que foi meu primeiro em tudo... Tantos quilômetros, planos, cartas, fotos, que até hoje não consegui descartar todas essas lembranças de você, além de todas as que eu ainda carrego aqui dentro. Dói. É o tipo de dor que eu não imaginei passar, eu nunca imaginei sentir isso que ainda sinto. Mas agradeço, pois agora, com calma, eu vejo que você definitivamente nunca foi o meu futuro.Com essa compreensão, segui olhando para quem, por muito tempo, achei que seria meu futuro e, de repente, ele me viu. Nos olhamos. Foram cinco segundos de desconhecimento total entre duas pessoas que se conheciam há tanto tempo. É, acabou.  


(Cantora, compositora, professora de história, poetisa e defensora do amor, nossa colaboradora fiel, mais uma vez nos dá o ar de sua graça)

"Não se engane pela tranquilidade, a tempestade desperta com brutalidade"

  Ter nascido sob a proteção do olho de Aldebaran
Não aceitar, mas a tudo questionar
É não dar o braço a torcer
É amar sem limites
É evitar a batalha, mas batalhar com fervor quando necessário

É ter prazer em irritar quem ama
Mas não deixar que mais ninguém maltrate
É ter uma fome ilimitada
E um sono desmaiante
É precisar de cuidado constante

É esbarrar em tudo o que estiver ao redor
Passar vergonha em todas as chances
É dormir com o celular na mão
É cochilar durante a conversa
É esquecer que já almoçou hoje

É prometer, e lembrar na última hora
É confiar, e acabar tendo que improvisar
É procrastinar
É ter o mundo ao redor pegando fogo, e decidir dormir

É dizer que está cheio, mas ter espaço para a sobremesa
É lembrar dos lugares por causa de algo que comeu lá
É lembrar do que as pessoas te fizeram, e perdoar
Mas, é também lembrar que alguns erros não têm perdão
Afinal, ser meu amigo requer conquista

É saber amar ilimitadamente
É carregar consigo o coração de muita gente
É chegar em um ambiente escuro, e o iluminar
É ter o sorriso favorito de muita gente
É ter o riso gostoso, que desperta carinho

É ser cobiçado, observado e desejado
É querer segurança
É odiar passar tempo demais em casa
Mas inventar desculpas para não ter que sair de lá
É detestar ficar sem dinheiro
Mas gastar demais quando se tem

É saber em quem se pode confiar
E em quem não se deve sequer tentar
É conhecer muita gente
Mas se abrir para apenas duas
É saber que a palavra "amigo" não é para qualquer um

É amar minha mãe como não amo mais ninguém
É esperar que as pessoas façam coisas por mim, por costume de tê-las feitas
É deitar, às vezes, e notar o quão amado sou
E lembrar também que às vezes me esqueço de retribuir
É ouvir reclamações porque visualizei e esqueci de responder

É sumir sem querer e magoar as pessoas
É pedir desculpas, mesmo que eu deteste pedi-las
É ser estável
É saber que se não aconteceu nada, estamos bem
Que não mudei com você

É apenas impressão
Porque está tudo normal
 Afinal, meu amor é cravado em pedra
É voltar com o rabo entre as pernas, às vezes
É ter alguém pra chamar de porto seguro

É brincar na hora errada
Sorrir em demasia, irritar quem não irradia alegria
É contar piadas horríveis
É lutar para animar quem sofre
É querer ser o melhor

É querer estar belo
É me achar pouco, ou achar que não sou o bastante
Mas então me sentir forte e brilhante
É misturar questões profundas com questões banais
É não ter paciência para ler tudo isso

É começar a fazer algo, me dispersar
Então lembrar do que estava fazendo e ter preguiça de voltar
É me esforçar até não ter mais uma gota de energia
É querer provar a todo custo que consigo
É mostrar que sou capaz

É ser teimoso e sofrer com essa atitude
É ter um jeito que nem todo mundo aceita
Mas pouco me importar com isso
Porque quem me merece me ama do jeito que sou
E esses são os únicos a quem dedico meu tempo

É querer essa sensação de estabilidade
Porque a mudança me assusta
Me prendo a lembranças, quero viver as memórias felizes uma vez mais
Um tempo que não volta
Mas que eu jamais esquecerei

É me fazer de forte, quando acho que não sou
Me surpreender com o que sou capaz
Mas fingir que tudo tinha sido planejado
É ser meu pior inimigo
Lutar com as coisas que vivem em minha mente

E contra a minha vontade, ferir quem eu amo mais uma vez
É ter essa habilidade de renascer das cinzas
Quanto mais baixo eu caio
Mais alto eu subo quando me reergo
Afinal eu não temo a dor

É ser possessivo demais
E depois perceber que agi errado
É agir por impulso, quebrar a cara
Mas continuar com a cabeça erguida
É ter que recomeçar do zero mais vezes do que me lembro

É temer o futuro de um jeito que me adoece
É criar expectativa e vê-la ruir na minha frente
É dormir em pé no ônibus
É pedir ajuda de última hora
É levar comida na mochila

É ter meus próprios gostos
Ficar sem graça quando ganha presentes
Se assustar em como algumas pessoas me conhecem
É saber que não estou sozinho
E me esforçar para não deixar ninguém para trás

É ser leal a quem merece
É não ter paciência para esperar as coisas darem certo
É saber que preciso amadurecer
É argumentar o tempo todo
E ser considerado chato por alguns

É gostar do prazer, do belo
Gostar do prático e correr de complicações
É cortar laços facilmente
Pois permanecer ao meu redor é uma honra
E como uma honra, é para poucos

Pois, sou de Touro
E não existe barreira forte o bastante para me conter

-Adolfo Rodrigues


As mãos timidamente entrelaçadas, os rostos quase se tocavam, enquanto uma conversa qualquer fluía entre sussurros. Segunda-feira. Não se viam há quatro dias. Todo final de semana era a mesma angústia: ter que esperar quatro dias para matar um pouquinho da saudade, só para vê-la aumentar à medida que o afeto crescia. O tempo que tinham fisicamente juntos era oitenta e quatro vezes menor que o tempo que passavam afastados. Duas horas e meia por semana: metade na segunda, metade na quarta. E, no meio dos minutos contados, estava o inglês. Uma professora sempre pedindo atenção enquanto os dois pensavam em formas de, durante as atividades, estarem sempre próximos. Era bonito de ver, mas todo mundo fingia que não via que era para dar aquele ar de mistério que os amores incertos têm. 

Para mim, a situação era cativante de um jeito doloroso. Amores juvenis são encantadores e esse, o qual passei quarenta minutos dessa minha segunda-feira observando, me é especialmente fascinante: tem raiz no mesmo lugar onde o nosso amor teve. Não tinha como deixar passar, tive que observá-los - tão parecidos com o que acho que fomos. Deve ser por isso que os observei por quarenta minutos seguidos, na esperança de que não tivessem um fim como o nosso. Pronto, estava, mais uma vez, dada a sentença: lembrei de nós.

Lembrei que quase não conversávamos em inglês, apesar de sermos tão propícios a isso. Engraçado, né? Será que nossas conversas era tão cheias de conjugações a ponto de só serem possíveis em português? Não sei, não me lembro bem. Mas me lembro que adorava te contar minhas histórias e observar o jeito como você achava graça dos meus exageros e ficava procurando detalhes no que eu dizia para me mostrar que me dava a devida atenção. Foi assim que você me viciou em te contar histórias. De repente, queria te contar tudo. E queria ouvir tudo que você tivesse para me contar. Mesmo que fossem suas contas, que você sempre fazia. Você foi me seduzindo com essa neutralidade de quem cuida sem sufocar, com esse seu jeito de quem tem estabilidade suficiente para lidar com a minha loucura. Fiz de você lar. Sem que percebêssemos, você se tornou minha morada. Percebemos isso quando te vi chorar, lembra? Lembro que me assustei por perceber que, em uma de nossas conversas noturnas, você chorou por medo de me perder. Habitávamos um no outro.

Enquanto observava o casal de adolescentes apaixonados na aula de inglês dessa segunda-feira, tive a certeza que fui loucamente apaixonada por você - e por aquela música que até hoje ainda me dói escutar. Mas além disso, além da paixão, te amei. Te amei como achei que não fosse capaz de amar: sem esperar nada em troca. Não esperava mais que você me acompanhasse, me joguei de cabeça. Mesmo quando você engatou marcha ré e desmarcou vários de nossos compromissos - depois de ter me aprisionado a você - eu ainda aceitei ir ao cinema com você, assistir a um filme que eu não queria assistir. Mesmo depois de você ter desaparecido quando eu precisei de você, logo depois de eu ter te dado tudo que eu tinha em apoio, eu esperei - de braços abertos - que você aparecesse. Não esperei que você aparecesse para ficar, mas para - pelo menos -  me dizer as palavras que eu merecia escutar. Você optou pelo silêncio, não apareceu. Eu perdoei você. E me custou perdoar. Me doeu como se cacos de vidro rasgassem meu peito para sair. Vários caquinhos de pontas afiadas, todos os dias, me tirando o ar. Vários caquinhos me deixando em pedaços, sangrando, cada vez que te via seguir a vida como se não tivesse devastado a minha. Doeu um bocado. E em dias como hoje, quando lembro dos seus olhos semicerrados ao me olhar, ainda dói. Mas eu perdoei você.  Perdoei porque amei você. Amei você ao ponto de escrever tudo isso sabendo que você não vai me ler. E foi esse amor, que me viciou, depois quase me matou, que agora sossega para me deixar continuar. Amor que quase mata, empurra a gente para, além da sobrevivência: para a vida. 
com amor, 
Ane Karoline



Sempre tive afinidade com números. Aliás, com matemática: somo tudo. Somatizo tudo, também. Mas, numa dessas de somar, fiz as contas e percebi que não tenho tempo. Eu, definitivamente, não tenho tempo. Se tem uma coisa que eu não tenho, essa coisa é tempo. Não, não estou exagerando. Quer dizer, eu até tenho algum tempo mas é restrito, é contado - não dá para gastar, entende? Não tenho tempo para ficar desperdiçando. E, pelas minhas contas, você também não tem.

É bem simples, são grandezas inversamente proporcionais: quanto mais tempo você gasta, menos tempo você tem. E eu, que já gastei um tempão, não tenho mais nenhum para desperdiçar. Daqui por diante, só tenho tempo para investir. Quando se investe, espera-se que algo volte, certo? É isso mesmo. A partir de agora, só tenho tempo para o que me traz algo. Um algo que é bem específico, mas pode ser qualquer coisa. Digo, é específico porque precisa ser algo bom. Mas pode ser qualquer coisa. Qualquer coisa boa. Resumindo, tenho tempo apenas para investir no que me fizer bem.

Quanto a você, digo o mesmo: você não tem esse tempo todo que pensa ter. E se você, como eu, já gastou vários preciosos minutos com miudezas que fazem mal, tem menos tempo ainda. Essas pequenices são tão profissionais em roubo de tempo que a gente pode nem perceber: ficar com quem não quer ficar com a gente, se lamentar, observar demais a vida do outro, ficar onde não quer realmente estar, não amar, não sorrir, se irritar, não arriscar, guardar mágoa e, sobretudo, fazer mal à alguém. O que quer que seja, que não seja voltado para o bem, gasta o nosso tempo, o joga no lixo. E fazer mal à alguém é a maior perca de tempo que se pode cometer. Afinal, no fim das contas, o veneno sempre volta para você e o tempo maior é descontado do seu relógio da vida. 

Sendo assim, me desculpe, mas quando se tratar de qualquer perversidade, desrespeito, injustiça, ato de mediocridade e/ou desamor; não tenho tempo. Não tenho tempo para esse tipo de comportamento. E se, por acaso, você tiver esse tempo a perder, se tiver esse tempo para deixar de investir em si mesmo para cometer atos de injúria e/ou disseminar discursos de ódio, eu vou ter que te dizer: não tenho tempo para você. Não vou te ler, te responder, te escutar e nem querer te ver. Mas, se o seu tempo te for tão caro quanto o meu me é, te faço o convite de investirmos nosso tempo junt@s. Que tal?  Se o bem não pode ser feito pensando no outro, que seja feito, ao menos, em prol de nós mesmos: invista seu tempo em construir coisas, não o perca em tentar destruí-las. 

investindo meu tempo em você, 
Ane Karoline.

Nós somos os protagonistas de longas-metragens que estão constantemente em cartaz e, simultaneamente, em edição. Cada coisa que nos acontece, cada pessoa que cruza o nosso caminho, são pequenas (ou grandes) edições no roteiro do filme da vida de cada um de nós. Estamos todos, no fim das contas, entrelaçados. Talvez descubramos isso quando o filme acabar, né? Ou não. Seja como for, além de cenário, iluminação e coadjuvantes, os nossos filmes são repletos de trilhas sonoras, não é mesmo? Trilhas sonoras que mudam, se afetam, são complementadas e atravessadas pelas composições sonoras dos outros. 
Sendo assim, resolvi atravessar a trilha sonora da sua vida. Separei sete filmes com as minhas trilhas sonoras favoritas  para, quem sabe, levar melodia para essa cena atual do seu filme. Que tal?



1- Begin Again
Além da trilha sonora que, sim, é maravilhosa, esse é um dos meus filmes queridinhos. Um dos filmes que mudou o roteiro do filme da minha vida. Eu, que sou sempre tão cheia de sonhos e de amores, tão apaixonada pela poesia e pelas artes e estou sempre perdida, me vi retratada no minimalismo de um filme tão simples e, para mim, tão significativo. Em minha listinha, essa é a melhor trilha sonora que eu conheço até o dado momento.  A trilha sonora está organizadinha em uma playlist AQUI  no youtube. 


2- A culpa é das estrelas


Alguns esclarecimentos são necessários aqui: eu sou clichè, mas nem tanto. Não estou aqui para resenhar o filme mas devo dizer que esperava mais. Eu sei, eu sei. Eu li o livro e sei que é um romance adolescente. Ainda assim, esperei mais. Tenho uma capacidade muito peculiar de construir expectativas e construí várias para esse filme. No fim das contas, fui decepcionada mas nem tanto: a trilha sonora me atravessou. O tipo de música folk que eu gosto muito - além de várias músicas da Birdy que é uma das minhas cantoras/compositoras internacionais favoritinhas. A playlist está AQUI no youtube. 

3- Lisbela e o Prisioneiro


Essa aqui é uma indicação seríssima: o filme é um dos meu favoritos também. Se você ainda não o assistiu, pare agora mesmo o que quer que esteja fazendo e vá assisti-lo. Uma sensibilidade tão sutilmente colocada em um lugar que tinha tudo para ser banal, mas não o foi. Enfim, a trilha sonora também me tira do eixo - sempre. Escute-a AQUI.

4- LoLa


Outro filme adolescente - literalmente. Não me agrada o enredo e nem tanto a forma como foi colocada. Um filme da época em que Miley Cyrus tinha acabado de deixar de ser o rostinho sorridente da Disney. O filme é sobre... Bem, assistam e entenderão. O que me cativou foi a trilha sonora - na qual conheci a fofíssima Ingrid Michaelson. A trilha sonora está AQUI.

5- O Fabuloso destino de Amélie Poulain


Para quem possa me acusar de assistir muitos romances norte-americanos e super-heróis hollywoodianos, venho dizer: tenho uma quedinha (um tombo) por filmes franceses. (Se quiserem, posso falar sobre isso em uma outra conversa/post - sugiram-me). Por isso, escolhi o meu preferido, entre os franceses, para indicar a minha trilha sonora, também preferida. Mesmo com meu francês ordinário, as músicas francesas sempre me atravessam (posso fazer post sobre isso também). Nesse caso, as músicas são, majoritariamente, instrumentais, e são sensacionais. A playlist está AQUI

6- Ligados pelo Amor

Um filme que escolhi assistir por ter sido indicado pela trilha sonora - confesso. E, além de gostar do filme, me encantei com a trilha sonora. Não saberia dizer se toda a trilha sonora do filme é boa, todos os dias tenho uma opinião diferente sobre isso. Mas sei dizer que a música Between the bars é a minha preferida e você, que agora me lê, cometeria uma tolice se não a escutasse.  A playlist completa está AQUI. 

7- Eu não faço a menor ideia do que tô fazendo com a minha vida


Mais um nacional que tenho que dizer: me delicio. Gosto bastante do trabalho da Clarice Falcão como atriz e como cantora/compositora e nesse filme ela retrata descaradamente, e de uma forma muito leve, como estamos todos perdidos. (Começo a achar que se perder é se encontrar). A trilha sonora é inteirinha composta de músicas que gosto muito e que me fazem ser mais quem sou. Está completa AQUI.


Dito tudo isso, espero que essas músicas sejam parte da trilha sonora da vida de vocês - como é da minha. De qualquer forma, quis compartilhar. Afinal, se não for para compartilhar as belezas da vida, eu de nada serviria. Aguardo as opiniões de vocês. 
com o amor de sempre, 
Ane Karoline


Fui sobressaltada por me perceber livre. Veio tão de repente que posso jurar que levei um susto e tanto. Foi quase como se uma lâmpada tivesse se acendido em minha cabeça e, finalmente, me mostrasse onde eu estava. O lugar, em si, não era grande coisa: uma mesa redonda em um barzinho qualquer, decidido de última hora. O cenário era animadoramente comum: gente conversando, contando causos e piadas, rindo e compartilhando a alegria gratuita de estar acompanhando de quem quer estar nos acompanhando, alegria essa que aquecia meu coração quando fui atacada por esse susto e no meio de uma gargalhada percebi: não tinha nada a ver com você. Minha felicidade não tem nada a ver com você. Nem com ninguém. Nossa felicidade não deve depender de ninguém.

Para quem for mais sábio que eu, isso deve ser algo óbvio. Mas para mim, até então, não era. Por vezes, me adoeci pela constante titubeação em que deixei que você me colocasse: ora sim, ora não, ora quem sabe. Envelopei minha felicidade e te entreguei: toma. Foi a maior tolice que fiz. Não pela entrega, claro. Quando se trata de entrega, de energia, de se jogar, eu sempre apoio - nada de metades. Mas foi uma tolice. Foi tolice porque a felicidade é coisa singular, ímpar: minha felicidade é minha. É coisa que resolvo comigo, sinto comigo. É claro que, sim, podemos compartilhar momentos felizes com outras pessoas e, sim, as pessoas podem nos alegrar e nos ajudar a encontrar o caminho para a felicidade. Mas, ainda assim, a felicidade é ímpar: um só. Cada um com a sua. O tempo que demorei a perceber isso foi um deserto. E quão infeliz fui.

Quanta infelicidade carreguei dentro do meu peito que, de tão cheio, mal me cabia. Carreguei o peso que tentei colocar em você. Imagina só! Ser responsável pela felicidade de alguém! Um peso e tanto. Agora vejo que você bem que estava em plena lucidez quando recusou, jogou fora o envelope que te dei e foi embora. Realmente, não havia nenhuma possibilidade de você me fazer verdadeiramente feliz. Não existe a possibilidade de alguém me fazer mais feliz do que eu mesma.

Não me entenda mal. Mas o  que me arrebatou foi justamente isso: não foi você quem me fez feliz. Tive momentos felizes com você, claro. Mas tive momentos felizes com quase todo mundo que conheci. Isso não torna ninguém menos especial ou menos necessário em minha vida, mas me fez perceber que o denominador comum entre os raros momentos felizes que tive com você e todos os outros momentos felizes que tive na vida é algo bem simples: eu mesma. O fundamento da minha própria felicidade, bem aqui, no reflexo que vejo no espelho e nas vozes que ouço em minha cabeça. Eu. Ou seja, o susto que levei foi o de entender que - finalmente, livre- minha felicidade não tem nada a ver com você.

com o amor de sempre,
Ane Karoline



Na roda de amigos de sempre, enquanto ríamos das minhas desventuras amorosas (como sempre) uma amiga disse:
- Você faz origami com seu papel de trouxa. Chega a ser engraçado.

Confesso que, colocado assim, era engraçado mesmo. Até ri quando ouvi isso. Concordei. Depois me coloquei a pensar. Eu, que colecionava histórias de amor nas quais atuei sozinha e que me marcaram a ferro. Eu que insistia em aceitar o sofrimento de relações medíocres na esperança de que se transformassem em contos de fada. Era, então, exatamente isso que eu vinha fazendo: origami com o meu papel de trouxa. O origami vitaliza um papel sem vida. E essa frase, de uma amiga que pretendia fazer uma graça, me trouxe graça, me iluminou as ideias: eu vinha, durante uma vida inteira, floreando, enfeitando, o meu papel de trouxa, o meu trouxismo. Eu vinha, então, tirando água de pedra. Estava inventando o que não existia. Afinal, ninguém nos faz de trouxa. Nós mesmos é que o fazemos.

Explicação: é exatamente isso. Quer dizer, não me refiro aqui a ser enganado, afinal, todos somos passíveis de ser enganados. O magnífico título de trouxa só nos é justo quando sabemos da enganação e, ainda assim, insistimos. Trouxa é quem sabe, mas finge que não viu. Trouxa é quem sabe que o interesse do outro lado não é tão grande quanto o seu e, ainda assim, finge que não viu e se entrega. Trouxa é quem se faz de desentendido na intenção de que as coisas se ajeitem sozinhas. Trouxa é quem aposta todas as fichas em quem não liga de volta. Trouxa é quem deposita expectativas em relacionamentos que nunca deram sinais de que dariam certo e, no fim, reclama por dar errado. O trouxismo é o modo de vida de quem sabe que vai dar errado, viu todos os sinais disso, e continua ali, esperando o circo pegar fogo. Esperando para, no ombro mais próximo, choramingar e dizer: fui feito de trouxa. Só para, em seguida, fazer origami com o papel que assumiu na vida.

E fazer origami disso é que é o problema. Fazer origami com seu papel de trouxa não é assumi-lo. Na verdade, assumi-lo é exatamente o contrário. Assumi-lo é dizer  que, sim, somos ludibriados; vez ou outra;  levamos rasteiras e podemos ficar meses imersos na lama. Mas a gente levanta. Rasga aquela folha. Nesse caso, nada de reutilizar. Quando somos iludidos, traídos, enganados em alguma página de nossas vidas, essa página não deve ser reutilizada: a gente pega ali uma coisa ou outra que aprendeu e segue. Vai escrever em outra página. Vira. Muda. Segue em frente. Nada de reciclar páginas surradas em que fomos injustiçados, ninguém disse que temos uma quantidade limitada de páginas para escrever a nossa própria história, não temos. Não há razão para temer seguir em frente. Se o trouxismo lhe bater à porta, lembre-se: nada de fazer origami com papel de trouxa. Pare de romantizar histórias, relações e acontecimentos que deveriam ser descartados.


Texto sugerido pela Sara Dias, 
Ane Karoline


"O som mais dolorido é o que o vento faz quando passa pelo buraco em meu peito..."

Nas rimas de um poeta eu tentei me expressar
Tentei mostrar quanto tempo leva pro tempo passar
Tentei te mostrar como era pra mim te amar
E porque valia muito a pena com você ficar

Acontece que nada é como queremos
E nem sempre as coisas são como pensamos
E nem sequer como planejamos

O brilho dos teus olhos agora quase não vejo mais
Mas eu lembro de como era há muito tempo atrás 
De quando nos beijávamos e brincávamos 
Agora tudo isso se foi, e é cada um por si
Cada um pra um lado sem saber oque fazer por aqui

E tem um vazio que insiste em me prender
Eu estou mal e não tenho com quem falar
Eu fiz todos que se importavam se afastar.

-Gabriel Oliveira


     

Mais uma colaboração de nosso leitor, Gabriel Oliveira. Dessa vez ele deixa transbordar as turbulências que assolam sua mente e coração, deixando em seu texto as marcas das ações mais recentes. Como sempre, estamos muito gratos pela contribuição!

"Há muitas formas de dizer eu te amo, meus olhos a melhor delas..."

Confio no instinto que me move e me guia.
Sou água que corre e do obstáculo desvia
Dono de todo o amor do mundo
Minha mente é oceano profundo
O que eu sinto com ardor
Reflete-se como dor

Pois o mundo é escuridão
E assombra a luz da minha paixão
Pois o mundo é rude e me aflige
A sua palavra muito me atinge
Sei perdoar e deixar ir
Mas esquecer é muito a me pedir

Não peço nada em troca de quem eu sou
Nem espero algo em troca pelo que lhe dou
Mas me machuco se me desprezam
Pois boas ações com o bem se pagam
Vez após vez aguento a sua ira
Perdoo a mais tola mentira

Suporto suas manias e mudanças de humor
Pois se te amo, vou onde você for
Engulo o choro e as lágrimas constantes
Aproveito nossos melhores instantes
Encontro forças pra continuar
Meu sofrimento tento atenuar

As vozes da dor me assombram
O medo e a ansiedade me rondam
Mas sorrio e me finjo forte
Tenho mais um dia para tentar a sorte
Da vida espero pouco
Pois se me iludo, fico louco

Você chama de perseguição
Diz que sou o rei da manipulação
Mas não entende que te dando atenção
Te provo a minha devoção
No entanto, você não tem instrução
E desperdiça o meu coração

Não demore a me compreender
Pois sei a hora de à dor ceder
Se não puder me valorizar
Ao seu lado não vou me demorar
Pois fui criado para amar
E você não vai me bloquear

Se você não sabe como me conquistar
Deixe outro alguém se aproximar
Não sou sua propriedade, para você brincar
Você acha que sabe me enganar
Mas debaixo do sorriso sou fogo a queimar
E quando eu finalmente te deixar
Ninguém jamais suprirá o local que eu estava a ocupar

E você não vai se recuperar do trauma de perder o meu amar...


-Adolfo Rodrigues