- Um bando de filhos da p***! Isso é o que eles são. – Erik esbravejava, enquanto sua voz ecoava pelas escadas que davam acesso à plataforma do metrô.
        Queríamos encontrar outra festa para ir, até que nos expulsassem novamente por causa de alguma confusão causada por Erik. Então partiríamos para outro lugar e repetiríamos o ciclo até o dia amanhecer.
-Acho melhor irmos para casa – disse Linda, prudentemente. 
- Não vamos para casa – Sarah falou. – Só precisamos controlar o esquentadinho aí.
        Já passava da meia-noite. Nós pegaríamos o último trem do metrô da linha 13 e cruzaríamos alguns quarteirões. Mesmo àquela hora, pegar um trem ainda era a maneira mais rápida de se chegar a algum lugar.
        Aquela estação era suja. Pichações cobriam as paredes e o cheiro de urina era forte. Metade das lâmpadas não funcionava e havia ladrilhos da parede despedaçados e espalhados pelo chão.
- Meu Deus! – exclamou Linda, a voz trêmula e assustada.
        Ela apontava para a parede paralela aos trilhos, na plataforma onde estávamos. A imagem de um pentagrama invertido em vermelho vivo bordava os ladrilhos encardidos, a tinta ainda escorria pela parede – parecia recente.
- Precisa mesmo fazer tanto escândalo? – perguntou Erik, que não largava sua garrafa de cerveja.
     Cheguei perto da pintura grotesca para avaliar melhor. Um cheiro de ferro misturado com um aroma adocicado emanava da parede. Toquei na tinta, que era pegajosa e tinha textura espessa.
- É quente! – eu disse, com espanto.
- Meu Deus! É sangue! – Linda se desesperou ainda mais, sempre fora muito assustada com tudo.
- Isso é coisa de algum bosta querendo aparecer – disse Erik. – Sai da frente que foi acabar com esse c******!
       Ele lançou a garrafa que tinha em mãos. O vidro explodiu bem no centro do pentagrama invertido e a cerveja se misturou à tinta (ou ao sangue) do desenho, que começou a se dissolver. 
         Um barulho agudo e um vento quente invadiram a plataforma, mas não havia trem. O lenço que Sarah levava no pescoço foi jogado nos trilhos pelo vento.
- Droga! – Ela saiu correndo para pegar sua peça.
- Não vá para os trilhos, Sarah – disse Linda. – Deixa pra lá.
- Eu paguei uma nota naquilo, não vou deixar aqui.
        Não havia trem vindo. Então Sarah pulou nos trilhos até alcançar seu lenço, que ficara preso a uma das ferragens.
- Esquece isso, Sarah. Eu te compro um novo – eu disse.
        As luzes começaram a piscar e o ar ficou mais frio.
         Sarah enfiou a mão sob o trilho para tentar desprender o tecido, mas seu braço acabou tocando em uma parte eletrificada. A energia do choque jogou seu corpo a cinco metros de distância. Não sei dizer, mas acho que morreu na mesma hora.
         Linda começou a chorar em desespero. Erik ficou estático sem falar uma palavra. Eu corri para a beirada da plataforma para tentar puxar o corpo de Sarah, mas estava muito longe.
         Um barulho alto anunciou o trem chegando.
       Sangue respingou na beirada da plataforma quando o transporte de metal passou violentamente sobre o corpo de Sarah, rasgando pele e triturando ossos.
      Na parede atrás de nós – onde antes ficava o pentagrama – os ladrilhos pareceram estar sangrando. Linhas vermelhas começaram a brotar dos rejuntes e, assustadoramente, formaram com letras distorcidas a frase:
OS SETE PRÍNCIPES CAMINHAM
        As luzes iniciaram sua dança novamente. Uma névoa veio acompanhada de um ar gélido.
        Agarramos Linda pelos braços e a carregamos para dentro do vagão.
      As portas foram impedidas de serem fechadas por completo – o novo sistema de segurança do metrô impedia os trens de se locomover com as portas abertas.
      A névoa estava quase invadindo o vagão. Então Erik viu que um pedaço de ferro dos trilhos estava travando o mecanismo da porta. Ele agachou-se no chão e começou a puxar o pedaço de ferro. Me juntei a ele para ajudar.
       Quando finalmente conseguimos, as portas se fecharam bruscamente. Perdi o equilíbrio e caí para o lado, mas as portas prenderam a cabeça de Erik para fora do vagão. O trem começou a se mover enquanto Erik sufocava. Linda e eu tentamos desesperadamente abrir um espaço nas portas para livrarmos nosso amigo, mas pareciam estar travadas. 
         O túnel se aproximava com velocidade.
         De repente, as portas se fecharam por completo.
       Olhei para a camisa de Linda. O que era branco, agora estava manchado por sangue. Minhas roupas também estavam cobertas por sangue e pedaços de pele e cartilagem. 
        No chão, o corpo de Erik sem cabeça era envolto por uma poça do próprio sangue.
     Agarrei linda e a levei para um canto mais afastado. Os vagões não eram interligados, então estávamos confinados àquela imagem de horror até a próxima estação.
Ficamos abraçados, sentados no chão, esperando a próxima estação chegar.
       O frio ficou tão grande que começou a embaçar as janelas. Algo chamou a atenção na janela de frente para nós. O vidro começou a trincar de maneira não natural até formar o desenho do mesmo pentagrama invertido que havíamos encontrado na parede da plataforma. O mesmo fenômeno também se repetiu nos vidros de todas as outras janelas.
Ficamos de pé, apavorados. Já havíamos chegado à estação.  
       O silêncio era apavorante. Olhamos pela janela e vimos a névoa nascer do chão. 
- Ainda não acabou – disse Linda, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
Os vidros das janelas explodiram em todo o vagão, as luzes pareciam mais enlouquecidas que antes, lâmpadas também estouraram no caos.
       Corremos pelo vagão e pulamos o corpo de Erik. O cheiro de ferro com tom adocicado era insuportável do lado de fora. Linda tropeçou e acabou caindo na plataforma.
Quase perto das escadas, olhei para trás. Estava tudo calmo novamente.
Linda se levantava vagarosamente. Seus dedos da mão estavam retorcidos de forma asquerosa, seu corpo todo tremia. De repente, ela emitiu um grunhido assombroso incomum a qualquer espécie animal.
       Aproximei-me para olhar em seus olhos. Foi como olhar nos olhos de um demônio.
- Saia daqui, filho da luz! – disse a voz distorcida que saiu da boca de Linda. – As asas que o protegem não nos deixam tocá-lo. Mas a cada alma que nossos cavaleiros levam nos tornamos mais fortes. Vá, filho da luz! Deixe o medo crescer dentro de si, até chegar a hora que beberei seu sangue. 
       O corpo de Linda se contorceu violentamente e caiu sem vida no chão.
       Não sentia meus pés, mas corri. Subi as escadas. Saí correndo no mundo lá em cima. Continuei correndo. Correndo. Correndo. Não olhava para trás.
Ainda não tenho coragem de olhar para trás.
***
- Há algo a mais que queira me contar, Arthur? – perguntou o médico psiquiatra e terapeuta Augusto Flynn.
        Arthur balançou a cabeça negativamente. Era sua primeira sessão com Augusto, mas já estava convencido de que seria o mesmo que foi com todos os outros.
- Você sofreu um grande trauma, Arthur. As investigações constataram que você e seus amigos foram atacados por um serial killer com indícios psicóticos. A sua mente transformou tudo o que você sofreu em uma alucinação, que substituiu a memória traumática sofrida por você naquela noite. Casos assim são mais comuns do que imagina. Eu posso lhe afirmar que não há nada de sobrenatural quanto ao que aconteceu na linha 13. Podemos começar a trabalhar na próxima sessão para livrarmos você desse trauma.
        Arthur se despediu educadamente de Augusto, mas não voltaria a se consultar novamente com nenhum médico. Sabia que não era louco, não queria admitir o contrário.
        Na mesma noite, voltou à estação onde tudo começou. O horário era aproximadamente o mesmo de quando pisou seus pés ali pela última vez.
- Vem me pegar! – começou a gritar. – Você me quer? Vem me pegar! Acabe com isso logo! Vem me pegar! Vem me pegar!
Seus gritos viajaram pelas paredes do túnel. Gritou com todas as forças. Gritou. Gritou. Gritou...

-Fernando F. Morais


Lembro-me daquela noite como se fosse ontem. A chuva era torrencial do lado de fora. O vento uivava pelas frestas da janela, trazendo uma sensação de mau agouro.  Eu estava sozinha em casa, assistindo à um filme qualquer na televisão. O filme apenas passava, sem que eu realmente prestasse muita atenção a alguma coisa. Minha mente cheia repassava coisas inúteis.  Já passava das onze da noite quando meu celular tocou. Eu estava tão perdida em pensamentos que dei um pulo no sofá. Com o coração palpitante, chequei o nome na tela. Era minha amiga Laura. Respirei fundo antes de atender, na tentativa de não parecer uma maluca. Laura sempre falava demais. Essa noite ela estava propondo que fossemos com o namorado dela visitar um hospital desativado.


Era um fato: em menos de 24 horas completaria 18 anos. Ela ansiava por isso, mais do que houvera ansiado pelos outros 17 aniversários anteriores. Significava o início de um novo ciclo, uma nova era, uma nova vida: ao completar 18 anos teria a idade que sua mãe jamais tivera. A mãe, aquela que falecera por complicações no parto, aos 17 anos de idade e não teve a oportunidade de ser conhecida pela própria filha, filha essa que, quando a meia noite chegasse, seria, então, mais velha que sua mãe jamais fora e isso tinha um significado muito especial, estava celebrando a vida que ganhou através do sacrifício e amor de alguém. 

Apesar da dor que, inevitavelmente, sentia sempre que chegava o dia de seu aniversário (e, consequentemente, o aniversário de morte de sua mãe), ela estava feliz. Quando o relógio marcou meia noite, respirou fundo e agradeceu silenciosamente por mais um ano de vida, mais uma oportunidade. Alguma coisa dentro dela sempre temeu por essa data, temia não chegar a tal idade. Mas chegou. E, nessa noite, foi dormir tão cheia de vida a ponto de quase não conseguir aquietar o coração. 

A manhã não tardou em raiar e, apesar da noite mal dormida, sentia-se exalar vida. Olhou-se no espelho: o mesmo rosto manchado de Sol, o mesmo dente um pouquinho torto na frente, a mesma mecha de cabelo rebelde de todas as manhãs. Mas essa manhã era diferente, sentia que algo a esperava, sentia que a vida a esperava, que a vida, finalmente, havia chegado. Nunca se sabe como que é a vida nos bate à porta. Cumpriu sua rotina matinal diária quase aos pulos, enebriada pela energia que os aniversários geralmente causam em seus respectivos aniversariantes. Ao sair para cumprir seus compromissos, recolheu as correspondências- como de costume- e deparou-se com uma caixinha de madeira de aparência velha no meio dos envelopes de contas e cartas. Curiosa, apressou-se em abrir a caixa "Será um presente? Se sim, de quem?" - pensou enquanto procurava uma forma de abrir a caixa sem quebrar o lacre. "Que complicado, será que há um segredo para abri-la?". Por fim, percebeu uma espécie de chave sob a caixa e a girou, a caixa foi aberta.

Assim como a caixa, o presente refletia delicadeza. Um colar, revestido de ouro e com com um pingente, também de ouro: a metade de um coração. Um presente que parecia ter sido escolhido com muito cuidado e apreço. De tão encantada com o presente, demorou-se em enamorar o colar e só depois pensou em procurar o remetente. Olhou superficialmente pela caixa e não encontrou nenhum bilhete, carta ou dedicatória. "Quem é que manda um presente desses sem se identificar?".

Ao perceber-se atrasada, guardou a caixa e partiu para seus compromissos, já exibindo o colar em seu pescoço. O pingente criava uma leve sonoridade ao movimentar-se pelo colar, com o vento, o que a fazia se sentir acompanhada. Mas logo se sentiu sufocada. Depois de algumas horas, o colar parecia apertado demais, cada vez mais apertado. Mal conseguiu se concentrar em suas tarefas: sentia como se seu pescoço estivesse inchando a cada hora que se passava, a ponto de não conseguir retirar o colar sem quebrá-lo. Pediu ajuda a alguns amigos: nada. Tentava manter a calma, "É só um colar, um colar pequeno demais para mim. Quando chegar em casa, conseguirei retirá-lo."

À noite, ao seguir para casa, já planejava procurar o telefone do fabricante na caixa para ligar pedir auxílio. O desconforto já era tal, que o colar não se movia mais em seu pescoço, a pele ao redor começava a inchar levemente pela compressão. Caminhava em passos largos e a esquina nunca pareceu tão longe de casa. Ao chegar, encontrou a caixa onde havia deixado ao sair: no chão da sala. Ninguém em casa, todos já a esperavam no local de sua comemoração de aniversário. Bastaria uma ligação e ela estaria livre do colar.

Ao revirar a caixa, percebeu algo que deixara escapar pela manhã: uma figura colada no interior da tampa da caixa. Era uma foto. No segundo seguinte a caixa estava no chão e ela subia as escadas aos pulos: aquela foto deveria estar dentro de sua última gaveta, escondida em seu diário:a foto de sua mãe, ainda aos 17 anos, exibindo uma enorme barriga do sétimo mês de gestação. Empurrou a porta do quarto e atirou-se no chão, abrindo a última gaveta à procura do diário. Jogando as roupas no chão, em desespero, percebeu que o diário não estava ali. "Mas eu o deixei aqui! Eu tenho certeza!" - pensava atordoada enquanto sentia o colar apertá-la ainda mais, mas de uma forma diferente: como se alguém o estivesse puxando. Virou-se e só deu tempo de tempo de ver o pescoço que carregava a outra metade do pingente de coração antes de ouvir:

 - Achou que a mamãe iria te abandonar nessa vida sozinha?

Ane Karoline


A rotina do dia pesava sobre as costas muito bem vestidas. Aquele terno era parte de uma realidade na qual há muito não se encontrava. Reminiscências de outra época: Aquela que fora realmente feliz. Sua vida perfeita havia sido destruída por uma única jogada errada. Tudo se perdeu. Se foi seu prestígio no escritório, seu renome, seu dinheiro, sua mulher e filhos... Tudo que um dia foi bom acabou sendo levado pra longe. Seu destino era como a criança sádica do parquinho, dando-lhe tudo que sempre quis somente pra poder tirar-lhe no final.  Essa última, sua esposa, doeu mais. Doeu muito. A ponto de fazer com que pensasse em se matar tantas e tantas vezes e, ainda assim, ser covarde o suficiente pra continuar vivendo. Como poderia culpá-la? Aquele homem que já teve tudo era o mesmo que agora tinha de pegar o metrô para ir trabalhar, sob o risco de não ter o que jantar no fim da noite. Sequer se considerava um homem, era só fração daquilo.
Naquele dia em especial, teve a infeliz ideia de andar para espairecer. Afinal, em uma vida desgraçada, tudo parece sufocar. Precisava de ar. Ar que fizesse circular o sangue, ar que o fizesse pensar melhor, ar que fizesse a ansiedade da vida em declínio ir embora. Ironicamente, naquele dia choveu. Em meio a um mês de fins de tardes quentes e céu limpo, naquele dia o céu decidiu desabar sobre sua cabeça, como todo o resto do mundo. Inutilmente, tentou utilizar o jornal velho que carregava consigo para cobrir-se dos respingos. Que ingenuidade a sua! Aquela chuva estava longe de ser só garoa e na medida que engrossava, fazia seu andar se apressar, findando em uma corrida desesperada por abrigo.
“Onze horas da noite.” Pensou consigo mesmo. “Onde vou achar um lugar aberto?!” E porque talvez o destino estivesse cansado de brincar com sua cabeça, um barzinho velho despontou no final da rua escura. Era sujo, estranho, mas o único lugar que tinha suas luzes acesas, ainda que as portas estivessem fechadas. Não pensou duas vezes ao correr até lá, empurrando a porta que parecia emperrada. “Não tem ninguém!” Chutou uma poça com raiva, desistindo de tentar se cobrir com o jornal ensopado.

Como um anjo, uma jovem saiu detrás do balcão, abrindo-lhe um sorriso apressado e se adiantando para abrir a porta. Não pensou em nada, só entrou. Ao menos ali estava seguro da tempestade que estaria por vir, ainda que não fizesse ideia do porque seus pelos da nuca se arrepiaram.
— Graças a Deus! Achei que não tinha ninguém aqui...
A garota sorriu com simplicidade, mas de uma forma que julgou no mínimo encantadora.  
— Tudo bem. Já estávamos fechados, mas não iria te deixar na chuva.
Algo no tom da voz dela o fez acalmar. Talvez fosse o fato de que pela primeira vez em semanas, alguém havia lhe tratado com gentileza. Bateu as mãos nas roupas, tentando se livrar do excesso de água. Ela havia sido gentil, ele também seria com ela.
— Acho que eu poderia beber algo, pra compensar o incômodo de ter de me abrigar aqui.
— Não é incomodo algum..
Ela sorriu, caminhando na direção do balcão e se posicionando atrás dele, voltando a secar uns copos que estavam ao alcance da mão. Aquilo mais parecia uma desculpa, pois nenhum deles parecia sequer molhado. Será que estava com medo dele? Talvez tivesse se arrependido de tê-lo deixado entrar. Sentou-se em um dos bancos, escorando-se na bancada. Ficaria bem ali, onde pudesse vê-lo. Sem saber o porquê, achou que deveria ser também gentil.
— Pode me servir um copo de uísque?
De pronto se apressou em entregar-lhe um copo bem servido de White Horse, que ele agradeceu com um sorriso ameno. Bebericou de qualquer jeito, relaxando o corpo cansado e frio sobre o balcão.
—Dia difícil?
— Nem me fale... O pior de todos. – suspirou. — Acho que preferia estar morto.
— Preferia?
Ela riu de uma forma engraçada, a reação completamente oposta a que ele achou que seu comentário iria causar.
— Não sei.. Talvez eu já esteja. – deu de ombros – O que poderia ser pior que isso?
— Huummm – ela pensou, estreitando o olhar. — Talvez o inferno.
O inferno. Sempre foi um cara que acreditou que o inferno era a própria Terra. Os acontecimentos dos últimos meses só confirmaram suas crenças. A lançou um olhar desdenhoso.
— Acho que o inferno é superestimado no final das contas.
A risada que recebeu em troca do gracejo foi gostosa, boa de se escutar. Aquela garota não era bonita e vestia roupas que haviam saído de moda há pelo menos dez anos atrás, mas algo nela era atraente. Talvez fosse porque ela era de fato um sopro de vida em meio a tantos dias mortos. Por isso conversaram. Conversaram por uma hora que passou em menos de dez minutos. Estava tão descontraído que nem se deu conta que lá fora, a chuva já havia passado. Sentiu um pesar comprimir o peito. Aquela era a única pessoa com quem tinha realmente tinha tido uma conversa decente, fora do automático e acabou percebendo que aquilo fazia falta. Queria conhecer mais sobre aquela garota, muito mais.
— A chuva parou.. – disse ele.
— É, parou.. – respondeu.
Um segundo quase constrangedor de silêncio se instalou entre eles, até que ele finalmente deixou vir à tona seus pensamentos.  Culpe o quarto copo de uísque, mas sentia que havia uma conexão palpável entre eles.
— Escuta, não quero parecer pretensioso..  Mas possivelmente eu não vou voltar aqui depois que sair por aquela porta... - pigarreou um tanto desconcertado - Então, pensei que talvez pudesse pegar o seu número.
As bochechas da jovem coraram. Pegou um pedaço de papel e uma caneta, se colocando a escrever, enquanto ele avaliava os traços daquele rosto um pouco pálido pela falta de sol. Tomou o último gole da sua bebida e se colocou de pé, pronto para sair. A moça empurrou pequeno pedaço de papel em sua direção, recolhendo as mãos acanhadamente. Talvez não fosse tão comum assim que acasos a levassem a um potencial encontro, então tentou dar a ela o crédito da surpresa. Sorriu, encorajando-a enquanto guardava o papel no bolso. Queria dizer alguma coisa, mas um barulho ecoou pelo bar vazio, chamando sua atenção para os fundos.

O semblante da garota mudou no mesmo instante, ficando nervosa e agitada. Fechou os olhos, como se algo de muito perturbador estivesse prestes a acontecer. Estava ávida e sobressaltada, genuinamente com medo. Mas porque?
— Se não se importar, eu tenho que ir agora. – Apressou-se, saindo de trás do balcão. — Acho que meu pai voltou.
O homem se frustrou com a ideia da outra o deixar sozinho e até tentou impedir, mas ela já havia desaparecido em direção aos fundos do bar. “Eu te ligo.” Pensou intrigado com a súbita mudança no comportamento da jovem. Será que seria muito estranho, caso decidisse segui-la? Guiado pelo instinto, caminhou na direção onde a outra havia sumido segundos atrás e para sua surpresa, o que saiu de lá foi um homem grande, careca e com uma espingarda muito bem carregada nas mãos.
— O que diabos pensa que está fazendo, invadindo o meu bar?!
Ergueu as mãos por instinto de preservação, arregalando os olhos para o careca grandalhão à sua frente.
— Invadindo? Não! Estava chovendo lá fora então a menina me deixou entrar! – foi tudo o que conseguiu dizer em sua defesa, logo recuando dois passos largos.
— Que menina?! Você está louco? Eu estou sozinho! – o homem retrucou com azedume. — Estava nos fundos arrumando as coisas e ouvi ruídos aqui. Como ousa invadir o meu bar?! – apontou a espingarda para o rosto do homem, já branco de medo. — Vou te matar por isso.
— Por favor! Ela estava bem ali, atrás do balcão. Foi ela quem me deixou entrar! – a exasperação não o deixava formular sentenças coerentes, tudo o que realmente queria era salvar sua pele. — Nós ficamos conversando enquanto eu bebia uísque! Eu não estou mentindo! Ela.. ela.. – o suor descia gelado pela testa. — Ela era morena, mais ou menos um metro e sessenta. Sardas no rosto e olhos cor de mel! Eu não estou inventando. Ela deve estar por ai em algum lugar!
A expressão do homem mudou por completo, mas ele não soube identificar se era tristeza ou ofensa. Abaixou a arma só o suficiente para se encararem.

— Você está dizendo havia uma garota aqui? – passou a mão por detrás do balcão, puxando um porta retratos. — Essa garota?!
O homem estreitou os olhos, vendo a imagem perfeita da garota que o acolhera, abraçada ao brutamontes arrogante. Era ela! A mesmíssima pessoa com quem passou uma hora extremamente prazerosa, minutos antes. Conservava o mesmo sorriso tímido, o mesmo olhar meio insano.. Parecia até que estava olhando pra ele. O outro homem, por sua vez, parecia muito mais novo e não ostentava nem de longe aquela carranca amarrada ou mesmo a barriga protuberante.
— Sim! Foi ela mesma! É sua filha?
Um tiro. No chão, mas passou perto demais.. O grandalhão fincou o porta-retratos no balcão com força.
— Como se atreve a falar que minha filhinha esteve aqui?! – engatilhou a arma novamente caminhando com raiva em sua direção.  — Minha filha morreu há dez anos atrás!
E mais um tiro, só que esse realmente pegou. Dor. O tiro pegou de raspão, mas doía como se etivesse cravada em seu braço. A morte estava tão próxima que podia sentir seu cheiro. Saiu em disparada, correndo o mais rápido que pode, sem saber que seu braço sangrava. Pulou cadeiras, jogou mesas para trás, tudo no intuito de desviar a atenção do homem e tentar salvar sua vida.

O coração batia tão forte que por um segundo achou que fosse sair pela boca. Puxou a porta e saiu, batendo-a logo em seguida. E correu. O máximo que pode. Sem olhar pra trás. Até suas pernas vacilarem. Quando não conseguiu mais, sentou-se no chão, resfolegando. Não havia sinal do grandalhão e tampouco sabia exatamente estava ou quanto tempo havia corrido. O que diabos estava acontecendo? Aquele homem falava coisas, mas não fazia sentido algum. O pânico se apoderou dele. Será que a garota estava bem? A expressão de pavor no rosto dela não lhe saía da cabeça e agora conseguia entender o motivo: Seu pai era louco!

Precisava falar com ela, saber se estava bem ou se, no ápice da loucura, seu pai não havia lhe feito mal. Apertou a palma das mãos contra os olhos e as luz do poste piscou três vezes, fazendo um calafrio percorrer o corpo. A sensação era de que estava em um pesadelo e não conseguia de fato sair dele. O que fazer? Deveria ligar para a polícia?

Ligar.
“O telefone!”
Enfiou a mão nos bolsos, sacando o celular e o pedaço de papel que havia ganhado da garota. Se ela atendesse, saberia que aquilo era loucura! Desejou que ela estivesse bem, com toda a sua alma. Suas mãos tremiam, geladas pelo susto e pelo clima, mas ainda assim conseguiu - na terceira tentativa - desbloquear o telefone. Desdobrou o papel com cuidado.“Por favor, que não tenha me dado seu número errado..” Esticou-o sobre a perna dobrada, se esforçando para ler em meio a pouca claridade. Para a sua surpresa, não havia números ali. Era uma mensagem simples e de fácil compreensão.
“Você implorou para estar morto. Eu vou voltar pra te buscar.”

Raíssa Barreto


                   Eu detestei a ideia da viagem assim que meu pai a anunciou. Nunca gostei de viajar de carro. Era desconfortável, e, acima de tudo, entediante. Infelizmente, meu pai era do tipo de gente teimosa, que não muda de ideia fácil. Contra a minha vontade, organizei minhas coisas em uma mochila velha. Minha mãe continuava a reclamar que eu estava levando poucas coisas, e que a mochila não aguentaria tudo o que eu colocava nela.



                Eu havia tentado de todas as formas sair do trabalho no horário. Até havia colocado um alarme no celular para ser lembrada. No entanto, mais uma vez eu tinha me perdido em pesquisas e estudos. Para piorar a situação, havia começado a chover, e eu tinha esquecido o guarda-chuva no carro. Organizei os papéis em minha mesa, guardei os tubos e as substâncias com as quais eu trabalhara e tranquei tudo no armário.


Parece que se passaram anos desde aquele dia. A saudade que sinto hoje não se compara com a dor que ele sentiu naquela época.
Era uma tarde de verão e, sabe quando se é criança e se tem “o” melhor amigo? Então, ele era meu melhor amigo. Suas canelas magricelas, compridas e seus cabelos ruivos desgrenhados montavam a imagem perfeita de uma criança esquisita. Mas tinha que ser estranho mesmo, pois se não o fosse, não teríamos nos conhecido.


No domingo veio a Cláudia, uma velha amiga da minha mãe, nos convidar para o seu casamento. Fazia tempo que não a víamos. Uns dez anos. Eu era criança, ela universitária. A lembrança que eu tinha de Cláudia era de uma moça meio triste, meio cansada. A cabeça sempre baixa. Mas no domingo, quando ela chegou, quase não a reconheci. Ela chegou falando alto, sorrindo, cabeça levantada, postura ereta. Os olhos brilhavam. Ela falou, falou e falou do casamento. Vez ou outra mudávamos o rumo da conversa: “tem visto a Joana? Ouvi dizer que ela se mudou. Foi tentar a vida na Itália, a família dela é de lá”. Cláudia, por sua vez, conseguia colocar o Grande Dia em qualquer assunto: “Sim, ela me disse. Eu disse para o Gustavo, meu noivo, que em Maio – o mês do nosso casamento, é primavera na Itália. Eu queria passar a Lua de Mel em Verona, a cidade de Romeu e Julieta. Mas, para isso, precisaríamos poupar dinheiro. Está tudo tão caro, não está? Mas o primo do Gustavo trabalha em uma dessas empresas de aviação, ele pode conseguir passagens mais baratas...”. E assim foi o domingo inteiro: a noiva fazendo planos e as outras mulheres e mocinhas presentes suspirando a beleza da paixão. Cláudia voltou para sua casa e eu, me aproveitando dos rastros de paixão deixados, me pus à olhar, inebriada, pela janela que tinha vista para a rua. De repente, a prática do casamento me parecia muito bonita. De repente, relacionar-se me parecia simples e doce. De repente, gritos: um rapaz gritando com uma mocinha na rua. A moça, assustada e envergonhada, calava-se na tentativa de não piorar a situação. O rapaz repetiu alguns insultos, virou as costas e andou, deixando sozinha a possível namorada. Minha garganta deu um nó. Alguma coisa aqui dentro morreu. Deus é rápido. Domingo, primavera, umas seis da tarde. Hora que o céu fica meio rosa, meio azul. Dia da visita apaixonada da Cláudia. E Deus joga, bem na frente da minha casa, duas pessoas que se ferem em nome do amor, na tentativa de me lembrar que até o otimismo exagerado pode fazer mal. Seriam eles exceção? Quase me recompus. Instantaneamente, lembrei de tantas outras histórias de namoros, noivados e casamentos que perderam o brilho, com o tempo. Suspirei. Eles não são exceção. Cláudia e Gustavo é que são. 
                                                                                                                              


"Os vazios empilhados começavam a ocupar espaço demais..."

Em dias frios eu me lembro de você 
Me lembro de como me abraçava 
De que nunca se cansava de dizer que me amava
De como ria de tudo oque eu falava 
E de como seu sorriso me conquistava

Sempre a levo na memória 
E junto a você toda nossa história

Eu sempre me lembro de você 
Passamos por tanta coisa, que não da pra esquecer
Mas quem disse que quero esquecer?

Se você quer isto, já não é problema meu
Se quiser, tudo bem, mas ninguém vai te amar como eu
A vontade me consome
Nada é capaz de fazer eu esquecer teu nome
A saudade toma conta, e nada pode curar
Somente, é claro, se você vier me abraçar

Pra viver só preciso de você 

Mas talvez seja hora de seguir e te esquecer
Não me faça promessas que não vai cumprir
Eu sei que você mente para mim
Você ainda diz a seus amigos que eu acabei com tudo
Eu tinha planos que envolviam eu e você
Planos pra nós dois no futuro
Eu me esforcei pra chegar ate aqui
Mas talvez eu seja reamente imaturo
Sempre que te esqueço você volta pra me fazer lembrar 
Pra me fazer chorar

Até parece que quer me matar...

-Anônimo



"Se estava escrito, eu não sei, mas apago até as estrelas para ficar com você..."

Corri, até que meus pés doessem
Gritei até que os pulmões esvaziassem
Chorei até que as lágrimas secassem
Quebrei até que os pedaços sumissem

Mas, passou

Respirar ainda dói, como se o ar fosse fogo
Falar ainda é difícil, como se as palavras me fugissem
Andar ainda incomoda, como se não houvesse caminho à frente
Me manter inteiro ainda é uma tarefa difícil

Recomecei

Permitindo que os pulmões aproveitem os cheiros
Rindo, até que a voz se curasse
Caminhando, mesmo que sem rumo
Colando os pedaços, lentamente

Consegui

Sentir o ar entrar e sair é um prazer distinto
Fazer os outros sorrirem é meu novo instinto
É mais fácil seguir em frente, com os amigos ao lado
Pedaços diferentes formam um ser renovado

Te vi

E minha estrutura tremeu
Minhas bases balançaram com o terremoto no seu sorriso
Meu coração invadido pelo tsunami de sentimentos
Minha cabeça doeu com o grito das cicatrizes

Te superei

E se não houver superado, fingirei
Farei de conta até ter me convencido
Sorrirei até que seja fácil
Erguerei a cabeça até que ela não se abaixe mais

Te deixarei para trás

Porque você é passado
E eu caminho para a frente, e apenas
Não volto para você, mesmo querendo
Pois antes de mais nada, pertenço a mim

E ninguém me roubará de mim mesmo

-Adolfo Rodrigues




"Você amava a ideia, não a garota..."
Escolha
Quem és tu Julieta?
Quem és tu Julieta? 
Para que vives se não para amar?
Para que amas se não para perder?
Por quê se esconde entre tua razão e não aparenta emoção?
Vai e conquistas teu Romeu.
Quem és Romeu?
Herói falido,sem grande alarido.
Que de amor se inebriou.
De quantas doses precisou?
Bebeu o pior dos venenos,a ilusão,e foi perdendo a visão.
A última batida de um pobre coração.


Fantoches 
Cidades de vidro,
Prédios de ossos secos,
Monotomia,letargia,
Cidade que não aguenta uma pedra,
Gente sem coração.
O amor é um sentimento que escorre pelos olhos.
O passado é como uma roupa velha que não serve mais.
As pessoas são como algo que ninguém aguenta mais.

Destino
Fui acometida mais por desgraça que pela graça,
Plantei amor onde só havia dor,
Recebi sofrimento como forma de pagamento,
E nem um abraço como sustento.
Fui de cabeça em almas vazias,
Num mar de falsas alegrias.

Encantos 
Se mergulhasse nos teus olhos me afogaria,
E talvez por um beijo morreria,
Sem você não viveria,
De saudades definharia,
Mas você não perderia.
-Anonymous