quarta-feira, 30 de novembro de 2016

É hora de seguir em frente


"E som estranho que eu ouvia, era o vento zunindo no buraco do meu peito..."

Não sei como isso pôde acontecer comigo. Logo eu, que dificilmente me
apego ou me apaixono de verdade por alguém. Mas aconteceu. 3 anos e 2
meses, e eu ainda não te superei por completo. O que você fez comigo?
Com que direitos achou que poderia me submeter a tal circunstância
dolorosa? É, foi um lance passageiro, mas você continua na minha vida
e sempre continuará, feliz ou infelizmente. São 3 anos e 2 meses de
tentativas frustradas de te esquecer, óbvio. Sim, eu me envolvi com
outras pessoas, mas você ainda permanece no meu coração. Que droga!
Nunca me senti tão vulnerável como agora, e parece que essa
vulnerabilidade não vai passar, me parece que sempre carregarei você
aqui, do lado esquerdo do meu peito, como uma ferpa que incomoda a
carne, daquelas que você não sabe se dói mais sem mexer ou quando você
tenta tirar. Às vezes eu consigo ficar meses sem pensar em você, às
vezes acordo aflita querendo te ver, querendo falar com você, tentando
entender onde foi que você me marcou tanto assim e quando será que eu
irei te esquecer. Eu estou em abstinência de você há alguns meses e
tento não quebrar esse voto de silêncio. A minha vontade era sumir da
sua vida, contudo nós sabemos que seria impossível. Somos ligados, de
alguma forma sintonizados, desde que me entendo por gente. Parece
coisa do destino, aquelas peças que ele te prega e que você não
consegue se livrar. O que eu fiz pra não merecer você? Será que tudo
isso tem um propósito? Eu não sei que objetivo o destino teria em me
mostrar toda vez que você é feliz com ela. Poderia ser eu, mas é ela.
Eu não sinto inveja, talvez seja ciúmes, talvez seja amor, nem eu sei
dizer o que é. Só não volte mais uma vez, enquanto eu estiver no
processo de superação, me fazendo relembrar tudo o que vivemos e ainda
alimentar esperanças falsas de uma possível vontade de viver tudo
novamente. Isso não é justo comigo. Não volte se não for pra cumprir,
não volte se não for pra me amar, não volte, fique onde está. Eu estou
bem, eu vou ficar bem, eu conheci um alguém. Agora é a minha vez de
ser feliz, de tentar arrancar esse incômodo do meu peito, porque eu já
estou cansada de sorrir mesmo sentindo dor. Eu mereço mais do que suas
migalhas, do que sua falsa consideração, do que essa saudade fingida.
Eu mereço paz, mereço alguém que realmente me ame reciprocamente. E,
se você não é capaz de corresponder à altura, não volte mais. Uma
parte de mim sempre te amará, mas não se atreva a voltar.


— Helena.

A contribuição de hoje é da  Lila Conde. Com suas idéias próprias e uma personalidade forte, ela constrói seu caminho com esforço e determinação. Aquariana de nascença, suas palavras refletem a mente rápida e cheia de pensamentos. Para conhecer mais dessa jovem escritora é só ir ao Alma Efêmera. Esperamos que essa seja a primeira de muitas contribuições!

domingo, 27 de novembro de 2016

Caminho


Aqui estou eu, olhando pro teto e tentando encontrar as palavras certas para dizer.
Logo eu, que não as conheço tão bem, eu que as evito sempre que possível. 
Usar de textos para mim é algo inimaginável, algo que prefiro trocar pelo silêncio, pois o silêncio me representa tão bem que já o sinto como uma extensão do meu ser.
Mas hoje não, hoje me senti na obrigação de falar até que me faltem palavras. 
É como se fosse um chamado, ao qual eu jamais poderia recusar.


        Vivemos uma vida de ilusões!
Passamos dias e noites pensando em como tudo é perfeito, em como temos sorte por acordar e encontrar quem amamos ao nosso lado.
        Tudo vai bem, finalmente encontramos o nosso amor verdadeiro, finalmente conseguimos o tão esperado emprego dos sonhos e até mesmo a nossa grama, no fim das contas, parece mais verde que a do vizinho.
        Então você chega, e me leva tudo o que eu mais amava, me tira de todo o meu conforto e da minha paz. 
       Mas tinha que ser logo eu, a enfrentar esse frio, essa escuridão?
       Assim tão de repente? Eu ainda tinha tanto a dizer, tanto a realizar, eu ainda tinha muita vida para gozar.
        E todos aqueles que ficaram, eles não merecem sentir minha falta, eles não merecem sofrer.
       Afinal de contas, porque isso teve que acontecer? Quem lhe deu permissão de encostar esse seu dedo frio, asqueroso e desesperançoso em mim?
       Agora me encontro aqui, nessa montanha de perguntas, nesse mundo de desejos não realizados.         Já não tenho mais esperança, pois, sei que não posso mais voltar atrás. Sei que essa é uma triste realidade que terei que enfrentar sozinho. 
     Queria tanto poder dizer a todos que deixei que vai ficar tudo bem, para que todos vivam suas vidas como se não houvesse amanhã...
      Queria pela última vez dizer a todos que amo o quantos eles são importantes pra mim, o quanto eu vou sentir falta de cada singularidade que os tornou tão especiais para mim. Queria dizer que não chorem.
       Mas acho que já não tenho mais tal poder... 
      Aqui estou eu, começando sozinho uma nova jornada.
      Só me resta torcer pra que tudo corra bem e para que minhas palavras cheguem de alguma forma a quem elas têm que chegar.
    Sintam mesmo minha falta, exatamente como eu sinto a de vocês nesse momento. Mas sigam adiante, é tudo que lhes peço. Amem sem medo, briguem, errem, façam amor, sorriam, chorem, façam o que convém. Mas jamais esqueçam do quanto essa vida é curta, e que hoje estamos aqui para fazer tudo isso, mas e se...?
      E se amanhã você não puder mais falar ou demonstrar como se sente? 
      Bote pra fora agora, liguem, enviem mensagens, esclareçam o que quer que seja. 
     Vivam! Vivam enquanto têm esse dom, e não aguardem essa visita inesperada, afinal, ela virá de qualquer forma. Então aproveitem tudo o que puderem, e se puderem, fiquem bem.
   Sentirei eternas saudades de todos,e aguardo ansiosamente pelo dia em que poderemos nos encontrar novamente. 
     É isso, até a próxima...
Adeus

-Jandilson Dantas


A contribuição de hoje é do meu querido amigo, Jandilson, que sempre esteve envolvido com a escrita indiretamente, e finalmente deu um passo à frente e resolveu arriscar. Dono de uma mente que não para, uma personalidade única, e muitas vezes difícil de compreender, ele é imprevisível. Agradecemos a contribuição e esperamos que seja apenas a primeira, de muitas!
-Rearteculando

sábado, 19 de novembro de 2016

Insônia



"Se eu soubesse da verdade antes...não mudaria nada!"
Às vezes me pego pensando em você...
Às vezes a saudade me consome...
Às vezes a vontade de estar com você é maior que a de viver esse dia..
E as horas passam, e a distancia parece crescer
E a cada momento, a vontade aumenta
E tem dia que ela passa e eu nem sinto mais sua falta
Mas, no dia seguinte, a vontade e o desejo vem em dobro
E nessa vida, vou sofrendo sempre que me vejo longe de você
E hoje, só por hoje, me tardarei a estar contigo e em ti
Perdoe-me minha fiel companheira
Mas hoje me atrasarei um pouco, para que me consuma em seus braços
E me faça sonhar em nunca mais acordar e estar sempre perdido nos seus encantos
E depois disso tudo, só queria dizer que te amo, e amo cada momento com você.
Você é unica para mim,
Cama, desculpe minhas traições com os sofás e ônibus da vida, mas no fim, sempre volto para seus braços.

-Ítalo Goulart


 Cinéfilo, Cruzeirense e dono de uma mente cheia de ideias. O Ítalo é criador de si e do próprio caos. Se você gostou do texto acima, pode encontrar mais do autor acessando o Papo Torto. Agradecemos pela contribuição e esperamos que seja a primeira de muitas!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Não era você, era eu.



Você quis dançar comigo. E não foi pura e simplesmente por aceitação, você me propôs a dança. Veja bem,você teve a audácia de propor uma dança a mim, logo a mim que sempre estive dançando sozinha, procurando um par para me acompanhar. Dancei com você, dançamos. Você me embalou com tal simplicidade que me enebriou, fiquei tonta de amor. Desequilibrada, desnorteada, recebi seu convite: vem comigo? Fui. Eu bem sei que você pensa que eu não fui, que te recusei, que nunca tentei, mas eu fui. Fui devagar, dando um passo de cada vez e talvez por isso você não tenha visto o quanto eu sempre quis dançar com você.

O problema é que eu sempre fui de me atirar de cabeça, sem medo, sem cautela; disposta a nadar mares e marés; com fôlego para dançar da primeira à última música, mas foi justamente essa coragem toda acabou me desencorajando, antes de você chegar. De tanto me entregar, me perdi; de tanto não hesitar, levei golpes que me vieram a paralisar. Por isso, depois de ter me visto aceitar seu convite para dançar, para você, ter me visto recuar, foi algo difícil de compreender, eu bem sei. Afinal, não foi você quem me roubou a paz e atirou em mim enquanto eu estava desarmada. Não foi você quem me feriu e, por mais que pensássemos o contrário, não coube a você me curar. Eu mesma tinha que  me emendar, para te ser tão inteira quanto você me era. Tão inteiro que se dispôs a tentar me ajudar a reparar o pandemônio que existia dentro de mim, mas, meu bem, não era você.

Não era, e nem nunca foi, você a causa das minhas noites maldormidas e das minhas, constantes olheiras. Na verdade, todas as vezes em que não dormi pensando em você não me fizeram mal algum. Não foi você, com seu sorriso tão largo que fecha os olhos, que me tirou a paz. O seu sorriso, se te apetece saber, sempre me deu paz; ficar sem ele é que me abate. Não foi você, com sua mania de tentar fazer piada das coisas para me fazer rir, que me apagou o sorriso. Inclusive, sempre que me lembro de nossas conversas me vejo rindo sozinha. Os retalhos de nós dois sempre me fizeram bem, mesmo em fragmentos, sempre fomos o bem: eu o seu, você o meu. 

E se não era você, era o quê? Eu. De tanto me doer, hesitei. Você, que também é de amar, sabe como é: a gente, quando se liga a alguém, há de sofrer; sentimento é laço que dói. Nossa história, se bem me lembro, me doeu logo de início, conturbei nosso romance pelo medo de dar errado. Percebe a insensatez? A vida consegue, vez ou outra, acovardar até os mais bravos- como eu. A coragem vacila, vez ou outra na vida da gente. A gente tem hiatos de coragem: são momentos de deserto, nos quais seguimos a vida, um dia após o outro, sem coragem alguma; só de passagem, sem vontade, desejo ou zelo. Só. E foi aí, em um desses desertos, em um hiato de coragem que nos esbarramos, e esse lapso durou tempo suficiente para que você não conseguisse mais ficar. Eu fiquei. Fiquei sentada, vendo você partir, sem agir. Essa é a razão pela qual você nunca me conheceu: esteve comigo enquanto eu não era eu, em uma lacuna do tempo.

Digo lacuna porque a coragem sempre volta. A minha, já começo a ver apontar no espelho, cada dia um pouquinho mais, o tempo tem me levado de encontro a mim, com o tempo, tenho me recomposto, e estado inteira o suficiente para, agora, ver você, e deixar que você me veja. Como você mesmo sabe, o tempo faz bem. Hoje mesmo, depois de tanto tempo, tive um insight, percebi que estou pronta para dançar novamente, dançar de peito aberto e alma entregue e, para completar, queria que meu par fosse você. Será que a nossa música ainda toca no rádio ou viramos um clichê?

com amor, 
Ane Karoline


terça-feira, 1 de novembro de 2016

Cinco e quarenta e cinco



Aconteceu na última segunda-feira – dia internacional do recomeço, por capricho do protagonista. Era tardezinha na capital do país quando eu entrei no ônibus que me levaria para casa. Mais precisamente, cinco e quarenta e cinco da tarde. Cinco e quarenta e cinco da tarde muita coisa acontece. Na escola próxima ao terminal de ônibus, mocinhas e rapazes encerram suas aulas. No prédio também próximo dali, homens e mulheres andam apressados após um longo dia de trabalho. Do lado de fora do ônibus, um vendedor de chocolate também anuncia que o dia de trabalho está chegando ao fim: “só sobraram cinco barras de chocolate meio amargo. A promoção de fim do dia é duas por um real. Alguém?” Ninguém.
E o ônibus parado no terminal. E a fila não acabava. Meu Deus, as duas horas do trajeto prometiam passar mais rápido do que aqueles dez minutos em que o motorista esperava todas as pessoas da fila entrarem. Enquanto eu balançava a minha perna direita sem perceber, uma mocinha sentou ao meu lado. Aparentava ter uns vinte e três anos. Ela sorriu para mim como as pessoas costumam sorrir para a gente antes de sentar ao nosso lado no ônibus e eu sorri de volta. Por fim, entrou o último rapaz da fila e o ônibus seguiu. Respirei aliviada.
Enquanto eu fazia um cálculo mental de quantas horas eu teria de sono àquela noite, duas vozes atrás de mim me trouxeram de volta ao momento presente.
- Pois é, cara. O trampo foi puxado mês passado, chegou no meio do mês e eu estava em um nível de estresse que a minha fuga foi pegar o carro, colocar o dinheiro, que eu estava guardando, de gasolina e meter o pé na estrada. E assim o fiz.
- Pô Paulo, sozinho?
- Sozinho e meio sem rumo, cara. Eu só precisava me lembrar de quem eu sou, respirar ar puro, longe daquela empresa.
- Teu emprego é mó bad vibes, não é? Passei lá esses dias - semana passada, eu acho, para te dar um “Oi” e não me deixaram entrar, cara.
- Ih, irmão, deve ter sido por conta do teu jeito largado: bermudão, tatuagem, alargador... As pessoas de lá batem o olho em você e, dependendo da roupa que usa, não te deixam entrar mesmo. Isso pode afetar o status da empresa, segundo eles. O meu chefe é aquele que eu te disse pô, tem parceria com uma igreja. O que mais me instiga é isso: de cinquenta funcionários, só eu e mais dois não temos religião. Todos os outros são da mesma igreja e quase matam uns aos outros, todos os dias. A galera não se suporta mais, João. Mó climão. Eu só ainda estou lá porque preciso da grana...
- Verdade, as tatuagens!  Eu nem tinha pensado nisso... A galera julga sem dó, mesmo. Religião sem espiritualidade faz um estrago, parceiro. Cê entende quando eu falo, né?!
Olhei para trás rapidamente e quis dizer: eu entendo. Eu entendo! Mas percebi que o momento
 era tão inteiramente de Paulo e João, que não quis atrapalhar. O meu papel ali, um banco à frente deles era só escutar.
-  João, quando eu fiz essa viagem sozinho eu refleti muito sobre isso, cara. De verdade. A cabeça estava pesada, o pensamento longe. Quando percebi, tinham dois caminhões na minha frente. Sabe aquelas plaquinhas meio surradas que geralmente colocam na traseira dos caminhões? Na traseira de um estava escrito “Deus é amor” e na traseira do outro “Deus é fiel”. Isso fez sentido para mim àquele dia como nunca antes...
- Cara! É isso! Eu tive uma sensação bem louca agora. Desde moleque eu lia essas frases pelas esquinas e pensava que havia um significado bem complexo por trás delas, mas já pensou no sentido mais literal? Deus é o puro sentimento de amor.  Existem mais de dez mil religiões no mundo inteiro, a forma que damos para o divino arquiteto muda, mas a essência é a mesma: amor. E a certeza que eu tenho, irmão, é que ele é fiel. Eu já me livrei de muito perrengue nessa vida.
Eu preciso escrever um texto sobre isso, pensei. Eu preciso transformar isso em uma crônica. Olhei pela janela, deixando o diálogo de João e Paulo em segundo plano. Já estávamos na metade do trajeto. A mocinha sentada ao meu lado se remexeu.
- Moça, desculpa perguntar, mas qual é o seu nome?
Ela disse, dirigindo-se à uma mulher em pé à nossa direita. Na voz, um sotaque forte de Minas Gerais. Era gostoso de ouvir. Me vi prestando atenção em mais uma conversa.
- Maria. Por quê?
- Quando eu tinha oito anos, você foi minha catequista. Sabe, eu não sou muito boa com nomes, mas com rostos sim. Eu nunca esqueço os rostos. Nunca esqueci o seu.
E assim aproveitaram os trinta minutos finais do trajeto conversando sobre os últimos anos, sobre as coisas que mudaram e sobre o que não mudou: depois de alguns anos morando em outro estado, a mocinha voltou a frequentar a mesma capelinha onde Maria foi sua catequista. Elas enchiam os olhos para falar da grandeza de Deus. Assim como os rapazes atrás da gente. Elas eram católicas. Eles sequer seguiam alguma religião. Mas enchiam os olhos ao falar de Deus, também.
Parada solicitada.
- Bom te ver, Maria. Fica com Deus!
- Vou nessa, Paulo. Fica com Deus!
A moça e o rapaz desceram do ônibus, Maria e Paulo ficaram. Com Deus. Eles, que provavelmente nunca tinham se visto, ficaram com a companhia do mesmo Deus.


Sem dizer adeus


Um penal entreaberto, folhas vítimas de seus traços, ora inspirados, ora apenas por descaso. Era o que ele via. Uma garrafa que ainda restava água de dias atrás, e uma montanha de livros que serviram de banquete durante madrugadas como aquela. Ele devorara todas as palavras de forma a saciar sua ansiedade.
Uma melodia que ecoava rouca, intensa, como se um chamado. Eram os cães da madrugada que ele ouvira.