sábado, 24 de dezembro de 2016

Hoje não, é Natal.



Em meio à tanta correria, desespero, pressa, desastre, medo, anseios, e frustrações, a gente vai perdendo algumas coisas; de tanto correr, a gente não chega a lugar algum. Eu mesma, percebi hoje, na véspera, que era Natal por ter ouvido a moça, no ônibus, conversar ao telefone: Meu bem, vamos deixar para conversar sobre isso quando estivermos mais calmos? Hoje não, é natal. Senti um choque, uma pontada do lado esquerdo do peito e um nó na garganta: me lembrei da luz diferente que sempre me contagiou em dezembro e que me fazia pensar: desespero, hoje não. 

Sempre foi assim, pelo menos para mim. Sempre, desde 1995, Dezembro tem uma coisa especial, uma coisa além de especial. Além das luzes, além das músicas, além dos gorros vermelhos, além das rabanadas, além das árvores, além das piadas, além dos risos e das lágrimas, além dos especiais do Mickey, além dos presentes e além dos ausentes. Uma coisa que, apesar dos abraços, parece quase intocável, quase impalpável, quase inventada, quase santa: uma sensação. 

Não vou negar a possibilidade de ser uma emoção causada pela comoção que ocorre quando se vive em um seio Cristão, como eu sempre vivi. Mas é uma emoção boa, é um impulso. Um impulso de fazer o que é bom, de agir com gentileza e de abraçar aquele amigo que sumiu. É uma disposição, não imposição, para agir com um pouco mais de suavidade e doçura; uma energia que paira e desacelera o coração. E, apesar do pesares, não tem como um temperamento assim ser ruim. 

Com pesar dos pesares, me refiro ao fato dessa gentileza durar apenas um dia, quando dura; me refiro ao fato de uns esbanjarem ceia farta, enquanto outros não podem comer; me refiro ao fato de que ter tem mais peso que ser; e me refiro, principalmente, à aversão por essa gentileza. Eu sei, é só por um dia. Mas dentre tantas tristezas, tanta violência e tanta hostilidade, eu opto por comemorar a inspiração de um dia de amor - ou da tentativa de agir com amor. Esse um dia, pra mim, parece uma esperança que de, em algum momento, possamos começar a agir assim por dois dias, uma semana, um mês, ou um ano. 

Pra mim, essa é a Santidade maior da Data: tentar, mais uma vez, amar e esperar o bem. Mesmo que no sofá da sala, ou na vala, esperar o melhor. Em nosso calendário Gregoriano, estamos, também, encerrando mais um ciclo, e o coração avisa: sobrevivemos até aqui. Para todos nós, fica o convite: vamos juntos? Eu aceito, convite de amor eu sempre aceito. Desesperança hoje não, é Natal. 

com amor, Ane Karoline

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Desinteresse não me interessa.

imagem: we heart it
                                      

Talvez você não goste do que vai descobrir mas eu, daqui, fico olhando você e te percebo engasgado: sempre querendo dizer alguma coisa, sentindo mais do que mostra (ou mostrando o que não sente, para esconder o que sente), sem o atrevimento para revelar o que acha, só vivendo no morno, pisando em ovos, sem a coragem para dar um baita grito, ou para se desculpar.  Por sensatez, e amor aos próximos, respeito essa escolha de vocês que não dizem o que querem dizer. Respeito, mas não faço uso da mesma filosofia. Sei que o silêncio pode até ser ouro, mas só quando não há mais nada a ser dito.

Disso eu tenho certeza: entalada em não morro. Se, por acaso, eu achar que alguma coisa deve ser dita, vou dizer - seja por grito, fala, palestra, mensagem, fumaça, canção, sussurro, abraço, choro ou carta. Não vou dissimular, esperar que você ligue, fingir que não me importo, desdenhar e nem jogar. Se você soubesse da amargura que sinto só de pensar em todas as coisas que eu perderia se decidisse bancar a desinteressada proposital, nem tentaria fazer esse joguinho comigo - e nem com ninguém. Até porque eu também sei jogar, todo mundo sabe. Eu jogaria se quisesse, mas não quero. Essa competição de quem demonstra menos é tão tola que quando a percebo me retiro - o desinteresse não me interessa.

Esse medo de perder alguém por dizer o que sinto, eu não tenho. Não que não me importe com as pessoas, pelo contrário, as quero bem perto. E é por isso que quem quer que me conheça, vai me conhecer assim, de cara limpa, à flor da pele e emoções que gritam, abraçam e beijam. Quem quer que eu ame, vai receber amor assim: exposto, gritado, escancarado. Quem quer que me interesse ou, minimamente, me cative vai saber, vai ter notícias minhas. Porque é assim que eu vejo a vida: intensa e breve. Intensa demais para fingir que não se afeta pelas pessoas, e breve demais para não dizer isso a elas. Sendo assim, nesse breve espaço - intenso- de tempo, que é a vida, não dá para perder tempo com gente desinteressada. 

domingo, 11 de dezembro de 2016

Amor, que dói, é transformação.



Eu o vi hoje pela manhã, enquanto olhava distraída meu reflexo no espelho: um grande hematoma, em formato circular, me pegou de surpresa. Parei de olhar para o reflexo e olhei para mim, era real: um belo hematoma arroxeado, ainda dolorido, em meu braço direito. Enquanto o observava, me lembrei do acidente bobo que o causara e percebi que era uma marca de guerra, marca da guerra diária que é a vida. Pensando assim, por alguns instantes acreditei que aquele era o maior hematoma que eu já tivera, mas, então, me lembrei: existimos nós, eu e você. Nós fomos o maior hematoma que eu já tive. 

Como ter acreditado que conseguiria me espremer em um metrô lotado sem me machucar, me trouxe um hematoma no braço, acreditar em nós me trouxe um hematoma na alma, me tornou uma ferida ambulante. Eu acreditei em nós. Acreditei com essa minha mania de acreditar em contos de fadas e em histórias de amor de gente que se conhece no cursinho de inglês, no trânsito, ou no metrô. Realmente achei que fosse dar certo, tinha certeza de que éramos as pessoas certas ou, pelo menos, as pessoas erradas que se acertariam. Mesmo quando dava errado - e deu errado muitas vezes-  eu achava que, depois, daria certo.  Estava certa de que tudo encontraria seu devido lugar e que encaixaríamos perfeitamente as nossas imperfeições. Mesmo nos dias em que minha cabeça doía, pela noite mal dormida, eu achava que você apareceria e me acalmaria. Esperei que você viesse curar as feridas que me fez. Apostei todas minhas fichas em você e tirei meu time de campo, não via mais ninguém, só você. Deixei até de me ver por um tempo. Exagerei. Até porque você nunca me pediu nada, né? Nem para ficar. 

De tantas pancadas, de tantas palavras mal ditas, de tantas frases soltas, de tantas mentiras, de tanta frieza, muitos hematomas também ficaram e se tornaram um: um grande roxo, vazio e opaco dentro de mim. Esse foi o hematoma que você me deixou, o maior que já tive.  Hoje ele ainda está roxo, dolorido e tenho evitado tocá-lo. Mas sei que logo vai começar a perder a cor e a força,esse processo é conhecido: dói, marca, mancha, parece que não vai passar, mas passa.

Eu sei que todo mundo já teve um hematoma, o que eu não sei é se todo mundo ama.  A mim, posso garantir,  foi dado esse dom de amar que, sim, tem lá suas mazelas - como o arrebatamento-  mas que no fim das contas, todos esses hematomas, que vão ficando, fazem com que eu seja mais eu, fazem com que eu, agora, saiba que me firo, mas é, sempre, por ter dado espaço ao amor que me fere, mas me fere doce. E de amar eu nunca vou me arrepender, por mais que isso possa me ferir, essa coragem que eu tenho não é em qualquer esquina que se pode encontrar.

Com amor, 
Ane Karoline

domingo, 4 de dezembro de 2016

A simplicidade, Bento!


Adriana faleceu aos vinte e oito anos. Em outubro completaríamos o nosso terceiro ano casados. Três dias antes de sofrer uma parada cardíaca, estávamos deitados no sofá da sala e, entre uma gargalhada e outra durante um programa de piadas repetidas que passava na televisão, ela disse:
– Bento?
– Eu sei, essa daí passou semana passada. Mas nunca perde a graça, né?!
–  Quero que me prometa uma coisa.
Abaixei o volume da televisão e esperei.
– Quero que seja sempre assim. Se coincidir do meu aniversário de oitenta anos ser em um dia de domingo, eu quero comemorar desse jeitinho aqui, fazendo o que fazemos em domingos que não são o meu aniversário. Às três da tarde em ponto, corremos para a sala, assistimos o mesmo programa, com as mesmas piadas e...
– Não dava para escolher um programa melhor para assistirmos até o fim de nossas vidas? – Sorri, provocando-a. Ela inclinou a cabeça para a direita como uma criança insistente que tem seus doces negados – Tudo bem, tudo bem. É isso que você quer que eu prometa?
– Eu quero que você me prometa a simplicidade, Bento. Quero continuar encontrando a felicidade nas coisas mais simples e, como você é o meu par, quero que o faça também.
Três dias depois, estando ambos em seus horários de trabalho, nos dois extremos da cidade, Adriana me liga e não diz oi. Chora. Tentei acalma-la, até que ela disse ofegante:
–  O meu coração está pegando fogo, aqui, dentro de mim. O lado esquerdo do peito. Dói muito.
Antes que eu entendesse, ouvi vozes apreensivas do outro lado da linha, até que um bombeiro da empresa em que ela trabalhava pegou o telefone e disse:
– É Bento, o seu nome? Mantenha a calma. Estamos levando-a para o hospital. Ela pediu para você tentar encontra-la, pediu também que tentasse não se preocupar.
Corri. Peguei o carro. E o trânsito parado. Parado. Eu olhava o relógio sessenta e uma vezes por minuto. Chorei. Choro doído. O que ela faria se estivesse aqui? Iniciei um monólogo em voz alta. Está tudo bem, Bento. Está tudo bem. Vamos achar graça disso depois. Você precisa estar calmo para tranquiliza-la. Respirei. Recitei o nosso poema preferido: “O amor bate na porta/ o amor bate na aorta/ fui abrir e me constipei/ cardíaco e melancólico (...)”. Cardíaco. Ela não vai morrer. Ela não vai morrer. O sinal abriu.
Dois bombeiros, quatro enfermeiras e uma médica de cabelos grisalhos olhavam com pena para mim: um homem com um metro e oitenta de altura, de terno, gravata e rosto vermelho de chorar.
– Onde está a Adriana? Qual é o número do corredor? Ela é a minha esposa. Eu preciso vê-la, sei que ela se acalmará ao me ver. Eu preciso me acalmar também. Fiquei preocupado quando ela me ligou chorando. Nunca a vi chorar assim. Mesmo. Em todos esses anos. Ela sentiu muita dor? Acredita que ela nunca me diz quando está doente? Tem mania de dizer que é inabalável. Ela brinca, sabe?! Mas ela vai ver só: a partir de hoje vamos prestar mais atenção na saúde. Eu vou traze-la ao hospital sempre que precisar, mesmo que eu precise carrega-la no colo. A mãe dela fazia assim quando ela era criança. Nunca gostou de hospital. Mas quem é que gosta?
Silêncio e olhos assustados.
– Ela está bem, não está?! Será que alguém pode me informar o número do corredor?
– Então você é o Bento? Bonito nome. É o nome do meu filho... – A médica introduziu, tentando amenizar o que falaria em seguida. – Bento, a sua esposa sofreu uma parada cardíaca e não resistiu.
Lembro-me de sentir uma dor no peito tão forte que acreditei ser o próximo a sofrer uma parada cardíaca. Olhei calado para a médica esperando que alguém entre aquelas sete pessoas - ou entre as mais de sete bilhões que existem no mundo, fizesse algo. Eu tive certeza que alguém a traria de volta.
Os sete dias que se passaram foram, provavelmente, os mais intensos da minha existência. Teve grito e silêncio. Dentro e fora de mim. Eu queria respostas. Elas não vieram.
Existe uma teoria que diz que as vozes das pessoas que amamos ficam gravadas em alguma parte do nosso cérebro, independente de passarmos dez anos sem ouvi-las, com um pequeno esforço lembraremos o timbre exato da voz de cada uma delas. Isso nunca foi tão torturante. Durante os dias de luto, o riso e a voz de Adriana ecoavam na minha cabeça.
“Bento? (...) Quero que me prometa uma coisa.” “A simplicidade, Bento!”
Shakespeare afirmou que há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar a nossa vã filosofia. Provavelmente, uma dessas coisas é que – apesar da dor pulsante que as pessoas deixam quando partem, ninguém quer ser lembrado com tristeza. Falecendo aos vinte e oito, Adriana nunca saberá se o seu aniversário de oitenta anos será em um domingo e eu nunca poderei comemorar com ela em frente à televisão, três da tarde em ponto; mas eu decidi, no sétimo dia sem ela, que eu cumpriria a promessa por ela proposta enquanto eu tivesse vida. Encontrar a felicidade nas coisas simples. Era a maneira mais eficaz de senti-la viva e perto de mim.
Se hoje consigo escrever com clareza sobre como perdi a mulher mais bonita que eu conheci, é porque se passaram trinta anos desde o falecimento de Adriana. A promessa virou parte da rotina: danço sozinho, como um bom velho que já sou. Acordo cedo para ver o nascer do Sol e gosto de imaginar que ela está vendo, de algum lugar. Ser feliz com o mínimo. Esses dias comprei um livro de piadas por três reais na banca de revistas. Eu vou à praça em que nos conhecemos sempre que me sinto sufocado por tudo que aconteceu. Sempre ajuda. Esses dias a ajuda veio através de uma pequena menina de cabelos loiros:
– Mãe, por que é que o céu é azul?
– Porque sim.
–  Azul é a cor preferida de Deus?
–  Clara, a gente não pode pensar muito nisso. Se não, enlouquece.

Então o segredo é não pensar muito nos porquês. Caminhei de volta para casa. Era domingo, duas e quarenta. Ás três em ponto eu tinha um compromisso.