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Hesitante mais uma vez, no exato instante de agora, hesito. Mesmo agora, mesmo sendo quem tem propriedade para falar, mesmo sendo quem sente na pele todos os dias, hesito. Oscilo, me equilibro nessa corda bamba, que é ser mulher, enquanto vejo a torcida para a minha queda; me querem de joelhos. Quanto mais de pé fico, mais forte vejo ambas a euforia e a animosidade crescerem em repúdio à minha audácia. Se pedras haverão de me atirar, de pé estarei. É de pé que venho dizer o que me inflama o peito porque, assim, não admito que beltrano algum venha colocar o bedelho: aconteceu comigo e o espaço de fala é meu. 

Minha memória, para azar da maioria, é excelente, então, me lembro bem quando começou. Eu tinha exatos DEZ anos de vida e ganhei de aniversário uma calça legging rosa claro, o tecido era algodão grosso com laycra, não era transparente, mas era uma calça legging. Lembro-me, ainda, que  recebia incentivos dos meus pais para me empenhar mais nas aulas de educação física - nas quais meu desempenho sempre fora lastimável, dada minha falta de habilidades desportivas -  e, para tal, deveria estar devidamente vestida: calça legging. Pois bem, a legging rosa claro era do que eu estava falando, certo? Decidi usá-la a primeira vez no domingo para ir ao verdurão na esquina da minha casa, a pedido do meu pai, comprar umas cebolas. Tão logo entrei, o vendedor me encarava e sorria (o que agora sei ser um sorriso malicioso); ele, que deveria estar na casa dos trinta anos, não perdeu a oportunidade de elogiar minha roupa e dizer que eu já estava uma mocinha. Para encurtar o relato, digo apenas que o tal vendedor não podia me ver que assobiava, me chamava, me seguia até em casa, coloquei a culpa na calça legging e tomei raiva de roupa justas antes de completar onze anos. Inúmeras vezes criei caso em casa para não usar malha e nem laycra, a culpa era da calça. Não preciso nem dizer que meu renome de menininha-que-não-sabe-jogar-bola só cresceu, uma vez que os professores de educação física não me permitiam jogar bola com calça jeans. 

O que se seguiu em minha vida foi de tal forma intenso que, nem mesmo com minha memória excelente, sou capaz de lembrar de tudo. Assédios diários, vestida de burca ou de saia, calça jeans ou legging, no supermercado ou na padaria. Incontáveis. Violentos. Ouvi palavras que eu nem sequer conhecia e que agora, uma mulher adulta, me horrorizo ao descobrir seus significados. Sexualizada onde quer que fosse, menina, mocinha, adolescente, mulher: a que nasceu exclusivamente para o prazer do patriarcado, a que nasceu para procriar, calada. 

Segui o conselho e segui tácita, quieta. Ainda assim, aos doze, o professor de geografia fazia questão de elogiar minhas roupas e meu corpo; logo minhas notas em geografia caíram. Aos treze, o catequista me perseguia e constrangia; comecei a chorar para não ir à catequese. Aos dezesseis, o professor de inglês me propôs conversas em particular, fui estudar a noite. Na adolescência inteira, colegas, sobretudo mais velhos, de igreja se acharam no direito de me perseguir, me constranger, me obrigar a dar atenção a eles - ainda que dentro da igreja, e com a justificativa dela. Na escola, os shorts eram recriminados, mesmo os meninos podendo usar bermudas de quaisquer espécies, mesmo quando a primavera em Brasília chegava a 37 graus e minha pele, atópica, ficava cheia de bolhas. Sempre desviando, segui caminhando, me desculpando, trilhando um caminho a ponto de acreditar que a culpa era minha. De alguma forma, pensava eu, de alguma forma a culpa deveria ser minha e, por isso, deveria me calar.

Calada fui, tímida, retraída, oprimida, sem comentar com ninguém, achava que era só comigo, a sujeira deveria estar comigo, para tanto assédio receber. Sofri até. Até ouvir uma amiga contar sobre o medo que ela sentia, algo se reconstituiu em mim naquele momento: ela também sentia. Comecei a ouvir, a perguntar, a perceber as mulheres ao meu redor: amedrontadas. Medo dos assobios, medo do assédio, medo dos gritos (que, primeiro, são convites e, depois, são xingamentos): medo do estupro. Medo de que, por um descuido; um cabelo solto; um brinco; uma calça justa; simplesmente pelos dois cromossomos x, fosse a próxima a aparecer no noticiário ou, pior, a próxima a nem sequer aparecer no noticiário, morta, esfrangalhada, despedaçada, esquecida. Medo de ser uma das cento e trinta mulheres estupradas por dia. Medo de ser a próxima nos próximos onze minutos; medo de dormir no ônibus; medo de sentar próximo a um homem porque ele, certamente, vai abrir as pernas mais do que deveria; medo do motorista que encara minhas coxas quando entro no ônibus; medo do cobrador que me encara a viagem inteira; medo do cara que me encara no carro ao lado, quando dirijo; medo de sair. Medo de andar; medo ir à uma festa; medo de ficar sozinha com um homem; medo do vizinho; medo do professor da faculdade que olha meus seios, enquanto escrevo; medo do padastro; medo do pai. Medo de existir. Medo que existe porque é a gente que vê acontecer, porque é a gente que sente, é a gente  que ouve, é a gente que se recolhe na vã tentativa de se proteger contra os que são protegidos, os que são aplaudidos, os que são incentivados a serem desinibidos. 

Ser quieta, calada, retraída nunca me protegeu parecia, ao contrário, atiçá-los. Resolvi falar, então. Dizer não ao namorado que queria casar aos dezessete; negar beijo ao cara que chamou para um sorvete; reclamar com quem me apalpa "sem querer" no ônibus; gritar. Enfrentando desgraças e desgostos, me coloquei no local reservado para quem porta o cromossomo y, me infiltrei no lugar que, ainda hoje, é aclamado para eles. Foi lá, quando comecei a pesquisar, questionar, escrever e publicar que comecei, finalmente, a entender, a me perdoar: não tenho culpa, sou mulher, mas não tenho culpa. Foi quando, e só quando, seguraram na minha mão e me ensinaram que quem decide sobre o meu útero sou eu; que devemos, sim, falar sobre a dor que sinto todos os meses antes que eu morra de endrometriose, que eu comecei a dissipar a raiva. Me ensinaram, me condicionaram a sentir raiva de mim, a me odiar. Me ensinaram que a culpa era dos meus traços femininos, do corpo que ganhei ao começar a perder sangue, do jeito como sento, das roupas que uso, do cabelo longo. Me ensinaram que a culpa era minha e que, acontecesse o que fosse, eu deveria arcar com isso. Ainda que me agredissem, ainda que me traumatizassem, ainda que me assediassem, ainda que me estuprassem: eu deveria arcar com os prejuízos. Quanto aos lucros, quanto ao sexo, quanto à vida que posso gerar, quanto ao que devo comprar, quanto a como deve me vestir e me comportar, sobre isso sempre quiseram decidir e opinar. Eu, mulher, que fique com os prejuízos. Não mais.

De pé, sangrando dez dias por mês, é que grito: não mais haverão de me diminuir. Grito por mim e por outras. Grito pelo medo, pela raiva e pela justiça. Sigo gritando porque sei que ainda muitas, como eu, precisam de alguém que diga a elas a verdade: ser mulher é ser forte. Sigo gritando até quando eu tiver voz, até quando eu tiver o que dizer e quem, por ofendido ou culpado que se sinta, não quiser me ouvir, é convidado a sair. Estarei berrando até quando for preciso advogar em defesa da igualdade e do respeito às que sempre foram injustiçadas. Grito porque sei que querem nos calar, nos querem ajoelhadas. Ajoelhadas só estaremos se bem quisermos, onde e quando quisermos. Por enquanto, fiquemos de pé. 

com amor, 
Ane Karoline




Alô, Alô, rearteculadores. Hoje é dia de lançar mais uma promoção no blog, já que estamos no Fim do Ano e queremos deixar um gostinho literário para vocês. Então, o blog Interrupted Dreamer se uniu com mais alguns blogs para fazer um sorteio recheadinho para vocês ou, ainda, para presentear aquela pessoa especial. Que tal?

Regras

  • As inscrições para o sorteio terão início no dia 03/11/2017 e terminarão às 23:59 do dia 15/12/2017.
  • Os participantes devem ter um endereço de entrega válido em território nacional.
  • Os participantes devem preencher todas as regras obrigatórias do formulário Rafflecopter. 
  • Quando todas as regras obrigatórias forem preenchidas, o formulário Rafflecopter irá abrir as regras opcionais, ou seja, você preenche SE quiser e QUANTAS opções quiser. Quanto mais opções preencher, maiores são as chances de ganhar.
  • O sorteio será realizado no dia 17/12/2017 e os vencedores serão anunciados  no máximo até o dia 23/12/2017 por isso fique atento ao Facebook e ao e-mail.
  • Os vencedores terão 48 horas para responder o email ou contato no Facebook. Se não houver resposta, outro sorteio será realizado.
  • Cada blogueiro, e autor, terá até 45 dias úteis para enviar o seu respectivo prêmio aos ganhadores.  Os participantes ficam cientes, no momento da inscrição, que os prêmios serão enviados por pessoas diferentes e em dias diferentes. Sendo assim, o recebimento de todos os prêmios não será no mesmo dia e, sim, ao longo dos 45 dias úteis estipulados acima. 
  • Os blogueiros e autores não se responsabilizam por extravios, danos e perdas por parte dos Correios. 

Kit 01
Participantes: Estante da Josy - Fabiane Zambelli (Autora) - Virando Amor - Dose de Poesia - ReArteculando - Saleta de Leitura



Kit 02
Participantes: Coisas da Juu - AriaBooks - Lendo e Apreciando - Primeiras Impressões - Juntando as Páginas - Bela Quimera



Kit 03
Participantes: Bela Quimera - Conta-se um livro - Leituras da Mary - Le Café Rouge - Pétalas de Liberdade


Então, vamos participar ?
 Boa sorte!


Em comemoração ao aniversário do blog Leituras da Mary, organizamos um sorteio mega especial para os amantes de romances de época e históricos. Confira e participe!
Fique ligado no blog e nas redes sociais, pois teremos muitas novidades, dicas, resenhas, tags e várias outras coisas relacionadas à esse universo de época que tanto amamos.

Confira o Regulamento

- Para participar, basta preencher as entradas obrigatórias do formulário. Para ter mais chances de ganhar, o participante pode cumprir as entradas opcionais, que serão liberadas pelo formulário.
- É necessário Curtir (e não apenas visitar) as páginas dos Blogs.
-Quem não seguir todas as entradas obrigatórias será desclassificado.
- Os participantes devem residir em território nacional.
- Serão sorteados 4 kits de livros e mimos para 4 ganhadores.
- O sorteio será finalizado dia 30/11 e o resultado sairá nesse mesmo post.
- Os ganhadores receberão um e-mail e precisam respondê-lo com seus dados em até 72 horas, ou serão desclassificados.
- Cada Blog, autor e editora são responsáveis pelo envio de seu respectivo prêmio.
- Os blogs não se responsabilizam por possíveis extravios ou danos por parte dos correios.
- O prazo para envio é de até 30 dias.

Sorteio

Kit 1:  Trilogia Príncipes + Marcadores.
a Rafflecopter giveaway
Kit 2: Romances para se apaixonar.
a Rafflecopter giveaway
Kit 3: Só livros nacionais + Marcadores.
a Rafflecopter giveaway
Kit 4: Especial: 3 livros + 50 marcadores + Gargantilha.
a Rafflecopter giveaway

Apoiadores do Sorteio Especial #NovembrodeÉpoca
Autora Mônica Cadorin: Livro "A noiva trocada".
Autora  K. C.Bergamini: Livro "Eu nunca esqueci".
Autora Cintia Nogueira: Livro "O preço de um olhar".
Autora  Michaelly Amorin: Livro "Como seduzir um conde".
Diana Medeiros: Blog Meu vício em livros - Livro "Uma noite Inesquecível".
Maria José: Blog Pétalas de liberdade - Livro "O Duque e eu".
Ane Karoline: Blog Rearteculando - Livro "Razão e sensibilidade".
Juliana Camila: Blog Coisas da Juuh - Livro "Véu do tempo".
Daiane Quinelato: Blog Virando a pagina - Livro "Brumas do tempo".
Maria Luiza: Blog Dicas de Malu - Livro"O príncipe Corvo".
Cailes SalesBlog Histórias literárias- Livro " O príncipe leopardo".
Ariana Silva: Blog Aria books- Livros "O príncipe dos canalhas" e "O último dos canalhas".
Eloise GF: Blog Crônicas de Eloise - Livro "O príncipe serpente".
Ana Carla: Blog Histórias sem fim - Livro " Codinome Lady V.".
Rafaelle: Blog  Fascinada por histórias- Livro " Como se casar com um Marquês" (Sorteio no Instagram).
Mary C.S. PiresLeituras da Mary-Livros " Não me esqueças", " Destinados" e "Como agarrar uma herdeira"(Sorteio no Instagram).
Editora Arqueiro: Livros "Lady Wistledown contra-ataca" e "Romance entre rendas".



BOA SORTE !!

imagem: weheartit.com


Venho toda acanhada, sem jeito, vacilante e turva porque não sei muito bem como dizer o que eu tenho, com tanto empenho, evitado dizer. Venho dizer, mas escolhi dizer baixinho - que é mais para por para fora que para ser ouvida. Escuta aí, você, minha voz sussurrando. Espero que escute. Você se lembra da minha voz? Se não se lembra, tenta lembrar daquele dia que te contei aquela história; a minha. Se não conseguir lembrar mesmo, imagina. Imagina minha voz sussurrando, como quem tem um bebê dormindo em casa e teme acordá-lo. Imagina minha voz, bem baixinha, dizendo isso que eu tenho evitado dizer: eu tenho medo. 

Foi por isso mesmo que eu não disse antes, por medo. Logo eu, logo eu, logo eu. Não disse antes, sabe por quê? Por medo de cair em um buraco sem fundo, medo de não ter quem quer que fosse para me içar de lá. Se sou eu que iço os outros, imagina só, como é que eu poderia me permitir ao luxo de ter medo? Imagina só se eu ia lá cair nesse buraco sem fundo que eu achava que era o medo. Não podia. Por isso mesmo foi que o escondi, dobrei bem dobradinho e coloquei no fundo de uma gaveta trancada. Não queria ver o medo e nem queria que alguém o visse; por isso, não disse. Mas acontece que não dizer, não impediu o medo de fazer a morada que fez; construiu mansão em mim. Medo de cair, medo de tropeçar, medo daquelas pedrinhas que seguram a barragem na beira da pista, medo de apendicite, medo do estalo da madeira a noite, medo de não ter dinheiro do almoço, medo de um avião precisar pousar no meu quintal, medo de não ter mais um quintal, medo do moço que entra no ônibus e me olha, medo da censura. Me censurei, por medo. Achei que, se dissesse, se revelasse minha insônia por medo, cairia em um buraco. Agora, falei tudo e: não caí.

Está certo que falei meio sem querer, falei porque a verdade escorreu de mim. Escorreu de mim como eu mesma me escorro todos os meses. Escorreu como escorreram as lágrimas no rosto do rapazinho, quando achou que a mocinha morreria aos dezessete anos. Escorreu de mim, como sangue e lágrimas, involuntariamente. A verdade revelada é essa: tenho medo. E, agora, depois de revelada a verdade, me pareço mais inteira, mais corajosa, até. Imagina que antes eu pensava: logo comigo, comigo não. Fechava os olhos que era para não ver o medo, fechava a boca para não dizer. Dizia "está tudo bem, tudo bem". Imagina que antes eu pensava que não podia ter medo, que meu medo latente era fraqueza. Logo eu, eu pensava. Eu que, não raramente, ouço aclamarem minha coragem. O medo que eu tinha era de perder a coragem.

Acontece que, até aí, eu não sabia. Veja bem, eu ignorava o fato de que medo e coragem coexistem dentro do coração da gente. Finalmente, por um escorregão, acabei descobrindo que foram os meus medos que acabaram me empurrando para fazer a coisa mais corajosa que já fiz: admitir minhas fraquezas. Agora, se me perguntam, digo mesmo que tenho medo. É isso que me faz corajosa: reconhecer meu medo, mesmo sabendo-o ser um abismo sempre pronto para me puxar.

Ane Karoline 

Ultimamente, os vídeos têm tomado conta de todas as nossas timelines, algumas vezes, é raro encontrar umas palavrinhas escritas para nos distrair. Pois bem, para quem sente falta de conteúdo escrito de qualidade, esse post chegou em hora! Nós, do Rearteculando, separamos cinco blogs muito interessantes para serem visitados. Vamos conferir?



1- Começamos nossa lista com o blog parceiro do nosso blog: Amigos de Cena. É um blog de conteúdo amplo e bem descontraído. A chamá-los para conhecer, deixo as palavras do criador do blog, Kiones: "Todo mundo tem um amigos, todo muito tem cenas engraçadas, divertidas, constrangedoras e perrengues. #AmigosDeCena é um blog feito de relatos pessoais, criticas e tudo o que gira em torno de nós! Então, venha para cá e mergulhe nesse mundo editado e personalizado de historias incríveis."
 LINK












2- Atualizado diariamente, o Pétalas de Liberdade traz postagens sobre livros dos mais diversos gêneros e épocas.

3- Alimentado por Gabriella Aleixo - escritora, blogueira, leitora e artesã -o blog é uma forma de compartilhar uma paixão e  trabalho (livros e entrevistas). Quando se ama o que faz, a gente se diverte trabalhando, trabalha divertindo, e faz tudo com muito gosto! No blog, Gabriella posta resenhas de livros e entrevistas. 


4-  O Universo Gemini é um espaço para tudo, músicas, filmes, séries, curiosidades ou até mesmo poesia. Um lugar em que a imaginação é o maior limite do leitor. 

5-  Universo de Contos é um blog dedicado a vários contos de fantasia e ficção científica. Venha conferir as histórias ilustradas mais malucas e inusitadas da internet. 


E, então, vamos conferir? 



imagem: wehearit.com


Tem gente que leva rasteira da vida quando anda para frente, eu não, eu levo rasteira quando insisto em dar uns passos para trás. A última rasteira que levei foi antes mesmo de voltar, apenas me virei em direção à volta, me virei como quem está pronto para voltar e esquecer quaisquer contratempos e injúrias anteriores. Virada para trás, antes mesmo de dar um passo, percebi que, apesar de me chamar, você não queria que eu voltasse; queria apenas despertar em mim a vontade da volta. Você me quer como número, não como presença, quer que eu componha a pluralidade da sua vida, não a singularidade.  

Você quer números, provavelmente, porque quer aplausos. Não te condeno por isso não, pode se acalmar. Acho até normal, sabia? Acho comum. Gente querendo aplauso é o que mais tem, em tudo que é beira de esquina. O danado é que eu achei que você não fosse comum, achei que você queria mais que isso, achei que você almejasse admiração, não aplausos vazios. Não posso mentir, tenho que admitir, não posso negar que acabo te condenando de uma forma ou de outra. Mesmo sem direito algum para fazê-lo, mesmo agora, quando percebo que te conheço menos do que achei que conhecia, mesmo com todos os meus erros (e talvez por causa deles), acabo te condenando. Não te condeno para ninguém e nem diante de ninguém, não tenho tamanho poder e nem vontade, apenas reconheço a sentença quando olho para você: alguém que quer quantidade de companhia, não qualidade.

Eu poderia ficar aqui, de pé, por horas te aplaudindo - como já fiz, com muito gosto e amor. Mas isso não é o que você quer, né? Isso não te preencheria. Você quer multidões, quer uma massa de gente de que não te dá a mínima para te aplaudir. Você quer quantidade, quer casa cheia, quer gente com pedigree, gente com nome anunciado em rádios, gente com passaporte carimbado e delineador bem passado. Variedade, gente saindo e entrando, gente te dizendo maravilhas para, logo em seguida, te abandonar. Tudo bem. Eu espero que, sim, esses e essas daí te aplaudam mas que, também, estejam com você nas noites difíceis, nas noites apáticas e nas viradas de ano. 

Daqui, do meu lugar de quem existe irrisoriamente, torço para que não te faltem holofotes e palmas; já que as minhas eu resolvi recolher. Espero que esses aplausos vazios, te encham, te preencham. Teria gosto em aplaudir, com amor, tudo que viesse de você e, ainda hoje, não posso negar todas as maravilhas que você tem. Acontece que quando a alma deixa de fazer parte da produção de alguém, eu não sou mais capaz de apreciar; quando sinceridade passa a valer menos que imagem, eu não posso mais ficar. Podem descer as cortinas, rufar os tambores, pelo espetaculo das aparências você já pode receber as palmas, sem mim; eu sei a hora de sair de cena. 

Ane Karoline

imagem: google


Eu não sei se vocês sabem, mas nós aqui de baixo também sentimos. Digo, sei que a ordem aí é fazer rir da cara de quem sua a camisa para manter o país de pé. Sei também que, via de regra, a comédia é para ser feita de nós, sei que somos o elenco engraçado da novela das oito: nosso jeito de falar, nossas roupas de flanela que nunca passaram nem pelas portas da forever 21, nossa coleção de sacolinhas para colocar na lixeira dos nossos banheiros de meio metro quadrado. Somos uma alegoria, vem ver, basta ligar a tevê: morreu, matou, roubou, sucumbiu no corredor do hospital. Os nossos costumes e desgraças fazem a graça da família real. Sei de todas essas coisas, e dumas outras que vocês nem suporiam que alguém que vem de onde eu vim saberia. É por saber, que venho dizer: nosso sentimento também existe, de desespero a gente tem rido, nosso riso é latente: para vocês é um latido. 

Por desesperador que seja, fator de distração, nosso riso - do quão ridícula é essa situação - soa como latidos repetidos: incomoda. Não querem nos ver; querem que sejamos só o backstage, nunca os protagonistas - quem limpa, cuida, aplaude; quem nunca é aplaudido. Isso porque somos o oposto da ideia de perfeição de vocês, assumimos nossa incompletude, não há farsa em nossas mazelas: estão tatuadas em nossa pele - seja nas marcas de Sol, que a falta do protetor solar causa; seja nos calos nas mãos por limparmos as suas casas e as nossas próprias. Somos marcados demais, para que sejamos incluídos no conceito de "perfeição clean" de quem finge que de mãos brancas não escorre sangue negro, indígena, mulato. Somos a marca indelével de que, aqui nesse chão, há o costume de se contruir castelos sobre as cabeças das vidas que parecem valer menos; aqui, tem se feito lucro assim: roubando a parte de quem não é visto. Assim, nossa existência, que é uma resistência, deve ser muito incômoda. Que inoportuno, que grande estorvo deve ser, para quem está aí, admitir que, sim, coexistimos, somos feitos do mesmo barro e pó, nós e vocês teremos todos a mesma fetidez após três dias de morte. É por isso que nos pintam como asquerosos quando, na verdade, somos compositores, têm medo da força que temos quando juntos. 

De compositores que somos, até com nossa desgraça vim compor, escrevo agora como quem grita em silêncio: eis me aqui. Empresto minha voz aos meus, aos que olham o mundo, construído por suas próprias mãos sangrentas, e não se veem refletidos nele, não se veem partes do mundo, não veem espaço no mundo. Escrevo, agora, para dizer que sabemos que não somos invisíveis, nossa invisibilidade foi inventada, é proposital - com o propósito de tomar de nós a nossa parte no mundo, de apagar a nossa subjetividade, como se ela valesse menos. Que pareça um latido, então, isso que digo agora. Que pareça tão cru, tão real, tão cortante, tão pungente e tão banal quanto um latido: nós, os desgraçados, também existimos. E valemos tanto, e valemos quanto, e valemos muito, como vocês - vocês que falam de cima de palanques e de dentro dos estúdios da tevê. A nudez da verdade é essa: fingem que não somos relevantes, repetem isso para que acreditemos, nos tratam como cachorros abandonados, porque sabem; sabem que sem nós, não viveriam um dia. 

Injustiçados, seguimos. Levantamos todos os dias para manter o mundo girando. Desrespeitados, seguimos observando venderem, esbanjarem, destruírem tudo que é nosso, sem nos consultar. A esperança é que ainda temos vida, onde há vida, há verbo: a palavra não podem nos saquear. E, se for verdade isso de que todo escritor tem uma pergunta, venho questionar aqui, senhores-doutores-merítissimos-de-coisa-nenhuma: porque é que pelo que é nosso temos que implorar? 

Ane Karoline

"A gente tenta preencher os corpos dessa fome de mundo, mas não existem fatos suficientes para cobrir a quantidade de espaços que se criam ao retirar de seu posto fixo uma profunda sensação. O espaço arde inicialmente, não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios. O vento quente da cidade bate por dentro e espalha os últimos pedaços de carne que restavam. E assim, o vento frio e desaforado a céu aberto pode, enfim, entrar e derrubar, sem nenhum princípio, toda e qualquer antiga certeza. Faz-se silêncio. Acompanhado do firme barulho alvoroçado por toda a gente ao redor. Retoma-se o espaço, não como ponto preenchido, mas como firme vazio impenetrável por toda verdade controversa. Formam-se as primeiras palavras, trazidas pelo frescor das novas texturas e sensações. A palavra nova, assim como as primeiras sensações, tem um sabor tão forte que coloca as mais secas línguas a salivarem em cada pequeno pedaço de degustação. Entendido o vazio do espaço, formam-se raízes, mais firmes que qualquer velha e rasa sensação. O vento passa novamente, soprando por dentro, e enfim, há lugar para o suspiro assobiado. O tempo faz música a quem lhe reconhece."
                                                                                                                                                         Veracidade





       "Não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios",
diz Isabella de Andrade em seu livro "Veracidade". Eu concordo e assino embaixo: vivemos querendo preenchê-los. O fazemos porque dói. Qualquer sinal de vazio, dói que é uma coisa. Mas existe, sim, coisa mais dolorida que os vazios que fazem morada nos buracos dentro de nós: a tentativa desesperada de preencher esses vazios; vãs tentativas, tentativas naufragadas de preenchimento. Impulso humano é esse de caminhar em busca da plenitude, mesmo que não se saiba que plenitude é essa, afinal. Caminha-se em busca do que nem se sabe, de um caminho certo, caminho verdadeiro, veracidade, voracidade. 

Eu, que sou voraz, quando leio um livro, engulo os livros, devoro as páginas. Com Veracidade, foi diferente: a escrita de Isabella me engoliu - cheia de doçura, mas o fez. Cada palavra colocada despretensiosamente com um cuidado todo pessoal, bordadas. Uma escrita contemporânea e atemporal, simples e complexa, que em frase curta resume um dramalhão da humanidade inteira. Jogos de repetições bem colocados, como quem sabe que na vida a gente repete passos todos os dias, mas nunca de forma igual. Escrita sensível que incentiva, empurra o ser à criação.  Isabella discute as belezas e mazelas do processo de criação do artista; o que ronda o criador e a criação.

É um livro muito simbólico. A palavra silêncio, a exemplo,  tanto aparece no texto, quanto se faz presente quando lida, silêncio que grita: silêncio é necessário para respirar. A autora consegue criar uma atmosfera de convite à reflexão, sem jamais deixar de ser leve, doce, suave. É um livro que vem de encontro, não em contraste.

Tenho lido bastante nos últimos anos, lido de tudo, lidado com tudo, e poucas coisas me tocaram como Veracidade. Eu, como ser sensível, como ser criador, como ser humano, me senti atravessada pela afabilidade das palavras que li; me lembrei de Clarice Lispector, me lembrei de mim, lembrei do meu primeiro amor e dos amores que ainda sinto, me lembrei da humanidade inteira - algumas vezes a gente sente tanto e vive tão pouco. Por fim, concluí com Isabella que inquietude é coisa de gente e que "nem todos os pontos, nem todas as vontades e nem todos os amores, precisam virar conexão".

INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO:

Onde comprar o livro: Mandar mensagem no email: isabelladeandrade@gmail.com 
ou na loja da Editora: http://editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=343




Sobre a autora:
Autora do livro Veracidade (Patuá, 2015), Isabella de Andrade é jornalista graduada pela Universidade de Brasília (UnB) e graduanda em Artes Cênicas no mesmo local. Trabalha atualmente como repórter de cultura do jornal Correio Braziliense e já trabalhou como arte-educadora no CCBB. Acredita firmemente no poder transformador e enriquecedor da arte na vida e no desenvolvimento de cada indivíduo. Estuda as possibilidades do jornalismo literário, da literatura, da poesia, da dramaturgia e uma possível convivência harmônica entre eles. É autora e produtora do projeto de arte e cultura www.ociclorama.com. Brasiliense apaixonada pelo céu da capital e pelo modo como as palavras nos possibilitam viver várias vidas. 

Instagram: @isabella_deandrade e @ociclorama



Ane Karoline

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imagem: weheartit.com

Acordo de ressaca. Um raio de sol tímido entra pelo vidro meio aberto da janela e me convida a levantar. Meus olhos ardem. Um silêncio ensurdecedor. Vovó costumava dizer que, acontecendo o pior dos vendavais durante a noite, alguém sempre precisa colocar as coisas em ordem ao amanhecer. Levanto da cama em um pulo e arrumo o quarto. Passo o café e tomo banho sem pensar demais em coisa nenhuma. A cabeça dói e confiro a caixa postal duas vezes antes de ir ao trabalho. Nada além de uma voz feminina dizendo que não, não há nenhuma nova mensagem. Começo a pensar que o problema é com o telefone. Atravesso a avenida sempre tão movimentada e vejo alguns rostos desconhecidos conversando baixinho, em uma espécie de luto coletivo. Chego ao escritório e invento tarefas para que Katia, a tagarela, permaneça em minha sala. Isso, querida, continue falando. Processos, novelas e aquecimento global. Evito o silêncio, só por hoje.


— [...] sobre essa espécie de ave. Mas eu não entendi muito bem, não terminei de assistir a reportagem porque o Paulo ligou. Processos, processos, processos. Dane-se, eu quis dizer. Tanta espécie em extinção e as pessoas só pensam em papeladas. 

Meu corpo foi inteiro incendiado por uma espécie de esperança. 

— O Paulo ligou? Você disse para ele retornar quando eu chegasse?

— E precisa falar? Ele liga o dia inteiro. Você já arrumou a sala, Katia? Ele pergunta. Eu respondo que sim, senhor. E ele me arruma outra tarefa. 

A faísca foi apagada. Paulo, o meu chefe, havia ligado. Não você. Lembro, então, que você sequer tinha o número do escritório: nunca fez questão de certas intimidades. Anota, eu insistia, caso aconteça alguma emergência. Você me olhava apático e respondia que nunca haveria uma emergência. Olho para Katia sem ouvi-la, tento lembrar o momento exato em que conheci você. Não lembro. Lembro que, antes de você, cada Paulo era um Paulo. Eu ouvia o nome e perguntava de quem se tratava: Paulo, o meu chefe, Paulo, o florista ou Paulo, o homem grisalho do outro quarteirão. Percebo a imensidão egoísta por trás do ato de tomar posse de um nome   ainda que inconscientemente. Volto para casa sem prestar atenção nos rostos da avenida, agora, agitada. Confiro a caixa postal. A gravação repete a ausência de mensagens, quase com pena de mim. Me olho no espelho e me vejo. Olheiras, marcas de sol e a cicatriz do braço direito – caminhos que trilhei sozinha. É só mais um fim. Em paz, durmo.

Ane Kelly


foto por: Ane Karoline em Museu nacional de Brasília
Hoje estou seca, não derramo mais lágrimas por você. Não que eu não chore, muito pelo contrário, cada vez que você me diz "tá bem" sem que estejamos bem; cada vez que você age como se eu fosse louca por questionar; cada vez que você anda de mãos dadas com as mãos que me atiraram lanças em chamas, eu choro.  Acontece que é um choro seco, tão cheio de dor, que é seco. É um choro tão dolorido, parece que as lágrimas querem sair das minhas entranhas, mas não saem; elas se esgotaram, para sair uma é um custo. Meu choro é aquele choro que soluça, que engasga, que falta o ar. Parece que levo socos repetidos no estômago, não consigo respirar, não consigo me levantar. De joelhos, me pergunto como foi que cheguei aqui, como foi que fiquei sem forças para argumentar, como foi que esgotei todas as minhas lágrimas. 

Aí, você vem, me faz umas perguntas e usa a mesma retórica de quem me feriu da última vez: "o que você quer que eu faça?". Eu não quero nada, digo. E, como sempre, sou sincera. Eu sempre fui sincera, talvez, demasiada e imediatamente sincera. Digo que não quero nada e repito aqui: eu não quero nada. Não quero que você faça nada. Se você não vê o que fazer, se você não me vê aqui, de joelhos, aos pedaços, não quero nada. Não há como resolver um problema que a gente não vê. Você me pergunta, ainda, o que foi que houve: você me ouve, mas não me escuta. Haver, no sentido de existir, muitas coisas existiram entre nós, mas você diz que não. Não, não, não. Escrevi páginas e páginas para tentar organizar meus pensamentos e conseguir te mostrar que dois e dois são quatro, que desleixo e alheação, juntos, são sinônimos de colapso, quebra. Não sei se nos quebramos ou eu me quebrei. 

A cabeça ainda está zonza, cheia dos zumbidos das nossas risadas, conversas, dos meus soluços e do jeito como agora você pronuncia o meu nome - quase soletrado para demonstrar afastamento. Mas apesar da zonzeira, da falta de ar, eu sei que a culpa não foi sua. Não é culpa sua que minha forma de amar seja expansiva, seja radical, sem hesitações, sem omissão, sem medo de gritar para o mundo, sem vergonha de que todo mundo saiba. Mas nada disso é amor se não for genuíno: não tenho direito de esperar que você seja como eu, posso apenas respeitar e me recolher. Portanto, culpa você não tem, mas a escolha foi sua -  você escolheu não escolher, você escolheu me dizer que eu estava exagerando, você escolheu usar exatamente a palavra que você sabia que me magoaria e que já haviam usado para me ferir antes: exagerada. Portanto, saiba que quando você me diz "a escolha é sua", você já escolheu por mim, escolheu por nós: escolheu continuar não me escolhendo. 

Com amor, 
Ane Karoline

Eu e meu pai somos duas árvores. Ficamos relativamente próximos num jardim bem cheio. Ele é baixinho, cheio de folhas verdes e oferece sombra para quem quiser ou precisar. Eu sou alto, tenho poucas folhas e sirvo mais para divertir esse pessoal que gosta de ficar mais perto das nuvens. Por sermos tão diferentes, muitos chegam, abismados e perguntam:
Vocês são mesmo pai e filho?
E nós, em uníssono, respondemos:
Sim, e não saberíamos o que fazer se assim não fosse!
O problema é que as outras criaturas da Criação não conseguem ver por baixo da terra, mas se tivessem esse dom, entenderiam. Veriam duas raízes, aparentemente distintas, mas bem próximas e entrelaçadas, como duas mãos que depois de coladas, não se soltaram mais. Se eles vissem e compreendessem isto, nunca mais fariam perguntas tolas. Somos superficialmente diferentes, mas as nossas raízes são as mesmas e, dentro de nós, estamos unidos por um abraço eterno, cujo é o sustentáculo da minha vida todos os dias. 

Jessé Lima 

imagem: weheartit.com

Todas as vezes me são diferentes, mas iguais: dói. Não vou dizer que é a dor do parto, mas é a dor de um nascimento - nascer, trocar de forma, trocar de pele, trocar ideais, é dolorido. Assim é porque para todo nascimento, existe uma morte, essa morte dói que é uma coisa, morrer em vida machuca porque alguma coisa morre, mas a gente continua vivendo para sentir a agonia. A mãe, quando o bebêzinho nasce, chora. O bebê também chora. Ambos sofrem por estarem rompendo aquela estrutura de relação - o bebê dentro da mãe - mas sabem que é insustentável: para que o bebêzinho nasça, o umbigo bilical tem que ser rompido. 

Minha morte em vida é a separação. Aliás, separação não, que separação é leve - parece que é só um afastamento. Falo é de ruptura, de quebra, de estraçalhar. Para mim, todas as vezes me são diferentes, mas acabam sendo iguais: algo dentro de mim morre. Fato é, e não posso negar, que em todas as vezes eu cometo a agradável tolice de achar que a ruptura não virá, ou de achar que não vai ser tão brusca. No ato de conhecer alguém, a gente nunca sabe que vai ficar aos pedaços depois, só os cacos. Imagine eu, que não sou vidente nem nada, não tem como saber, acredito de olhos fechados em quem for. O desmantelamento pode estar virando a esquina, outros podem vir contando isso e aquilo, que eu não vejo, faço a cega e dou uma chance - a mim e a quem vier. 

A coisa da chance, de acreditar que as pessoas valem a pena, já é bonita por si só. As próprias relações, todas elas, por um tempo também são bonitas, isso é outra coisa que não posso inventar e nem omitir: dos amores e amizades que tive, todos me acrescetaram de alguma forma. Uns apareceram só para me mostrar como é que não se deve tratar alguém, e até isso eu agradeço: te agradeço, fulano de tal, por me mostrar como é que eu jamais deveria tratar um amigo meu quando o tal amigo precisar de apoio. Tudo bonito, válido e tal, mas admito e repito: se eu soubesse que algumas rupturas me doeriam tanto, não teria aberto a porta da minha vida tantas vezes. 

Agora mesmo, sinto aquele tal incômodo de quem rompeu um cordão umbilical. A dor já quase não sinto, mas o peito segue apertado e a garganta seca; como quem ainda tem muito o que dizer mas sabe que nenhuma palavra resolverá o irresolvível. O tal laço da relação quem vem sendo rompido, agora já aparece, praticamente, morto; quase me dando espaço para nascer de novo. Digo que vem sendo rompido porque nenhuma relação se acaba da noite para o dia, de supetão, tudo que se acaba é aos pouquinhos, é no desgaste, e no que não foi dito e feito, é na brisa levinha que todo dia bate; bate tanto que uma hora leva a gente para longe. Estando longe, rompendo tudo, ambos sofrem, mas sabem que é insustentável: para que a paz nasça, é preciso que algumas relações sejam rompidas. 
Ane Karoline

Fonte: tumblr(tag:sleeping couple)
Enquanto ela dorme eu escrevo,
Agora que bate o desespero,
Aperto no peito, nó na garganta coração acelerado,
Um misto de adrenalina e ódio, felicidade com gotas de decepção,
 Minha raiva cresce mais só de olhar ela aqui do lado eu me perco ,
 Me acalmo, me estresso ,
 Já penetrou na mente só sabe disso quem sente essa imensidão de amor,
 Acompanhado de uma horrível traição, que dilacera o peito, me faz querer fugir , 
Sua voz me pedindo e oferecendo seu perdão ecoa e novamente me abstenho do ódio . o que fazer? Seguir só  ou persistir no amor? 
Amar com dor ou sofrer saudade?
É um turbilhão pra uma mente só. 
Enquanto isso ela dorme , um sono puro , doce , que quem vê se encanta
-Mathews Ferreira


A contribuição de hoje são as palavras fortes do nosso leitor Mathews Ferreira. O Mathews já contribuiu com o blog outras vezes, e hoje retorna com suas palavras cheias de sentimento, expressando de forma singular as tormentas da mente apaixonada. Obrigado, Mathews, esperamos novas contribuições em breve!
-Equipe Rearteculando


Filhos de uma terra nova, recém descoberta, fértil, viva. Uma terra grande, com uma cor em cada canto - cheia de cantos e encantos. Terra essa que, de tão viva, é cobiçada. Tão viva que é maltratada. Somos nós, filhos dessa terra, Brasil. No entanto, filhos que pouco sabem sobre a história dessa terra: gente que carrega nas veias o sangue de quem nem imagina; gente que pisa no chão banhando de sangue de quem construiu o país. Sou eu também gente dessa gente: sem memória. Não foi minha carne que sentiu, não vi, não sei. Mas não fujo desse papel, pego minha carapuça e ela me serve direitinho: a história do meu país eu tenho que saber; nossa história não começa quando a gente nasce, começa muito antes.

Assim, caminhando com força atrás de pertencimento e entendimento a respeito do passado e do atual cenário político/econômico do Brasil - e do mundo- foi que tive a sorte de encontrar autores que me ajudaram, seguem ajudando. Com muito carinho, separei 5 dos melhores romances sobre ditadura e política que li até o momento. São livros que mostram um dos papeis essenciais da literatura: gritar os fatos, denunciar. São livros carregados de sensibilidade e verdade. 

    1. As meninas - Lygia Fagundes Telles
Um dos livros mais bem escritos que já tive a sorte de conhecer, Telles é uma autora muito sensível e cuidadosa com as palavras. É um romance sobre três jovens amigas que vivem em um pensionato mas que, ao mesmo tempo, vai muito além disso: engloba política, moral, questões filósoficas humanas e muita sensibilidade. Além disso, é um livro que se passa em cenário brasileiro. 
 
    2. K. Relato de uma busca - Bernardo Kucinski 
Literalmente: o relato de uma busca. Um irmão que conta a história de um pai a procura da filha - desaparecida política no período da ditadura no Brasil. Ana Rosa Kucinski era professora do departamento de química da USP, reconhecida como vítima da ditadura pela recente comissão nacional da verdade. É uma história dentro da história do Brasil contada de forma muito bonita. 

    3. Sombras de reis barburdos - José J. Veiga
Dentre as diversas formas existentes de contar uma história, Veiga escolheu uma distopia: usa todas as metáforas possíveis para contar o que aconteceu e acontece diante dos nossos olhos diariamente. O livro é narrado em primeira pessoa e é um livro de memórias do personagem Lucas - escrito a pedido de sua mãe. 

   4. Brasil nunca mais - Paulo Evaristo Arns
Um relatório completo, resultado do esforço de mais de 30 brasileiros que se dedicaram durante quase seis anos a rever a história do período ditatorial no país, reescrevendo-a a partir das denúncias feitas em juízo por opositores do regime de 64, bem como o livro publicado pela Editora Vozes, tiveram papel fundamental na identificação e denúncia dos torturadores do regime militar e desvelaram as perseguições, os assassinatos, os desaparecimentos e as torturas; atos praticados nas delegacias, unidades militares e locais clandestinos mantidos pelo aparelho repressivo no Brasil.

    5. Ainda estou aqui - Marcelo Rubens Paiva
Mais um lar em que falta alguém, dessa vez é pai: Rubens Paiva, deputado perseguido e assassinado pela ditadura militar brasileira. Quem conta a história é o filho, Marcelo Rubens Paiva, que faz questão de relatar as lutas passadas pela família e, sobretudo, o papel primordial da mãe - agora com alzhaimer. Apesar de ser primordialmente uma biografia, o relato de algo que realmente aconteceu, o romance não é de forma alguma enfadonho; é sensível e muito esclarecedor. 

E então, vamos ler? 

Com amor, 
Ane Karoline





Fonte: Tumblr (tag:hug)
Na verdade eu não sei quando aconteceu
Mas em minha mente algo aconteceu
Percebi no silêncio de uma noite de tranquilidade
Que eu nunca tinha agradecido pela felicidade

Não agradeço, mas sou grato demais
Por tudo aquilo que feliz me faz
Pelo teto que me cobre das chuvas torrenciais
Pelas paredes que me envolvem nos frios invernais

Pelo aconchego do colo da mãe amada
Pelo cheiro de comida recém preparada
Pela segurança trazida pelo cãozinho brincalhão
E o cheiro de fruta nova no balcão

Felicidade é o riso do meu neném querido
Que revira de cócegas quando está comigo
Ela é o sol que espanta as sombras escuras
E vive comigo mil aventuras

Sou grato à dor que a vida me infligiu
Pelas noites que ela me feriu
Pois foi graças a ela que cresci tão forte
De muro de barro a barreira de porte

Foram eles que me lapidaram em pedra fina
Com brilho próprio que a todos fascina
Agradeço à mão amiga que me ampara
E que meus sentimentos repara

Ao irmão dedicado que é meu porto seguro
Minha luz e meu guia no mundo obscuro
Grato a tudo o que ele já me deu
Pois sem ele, eu não seria eu

Por conhecer as palavras tenho gratidão
Pois elas expressam meu coração
E com uma simples ideia percebo a vida ao meu redor
Me sinto ainda menor

Mas ainda entendo que meu caminho acabou de começar
E ainda há muito o que trilhar...

-Adolfo Rodrigues






É um ritmo frenético que acelera ao ponto de nos estagnar. Estagnados e com a cabeça latejando; lá dentro um medo que grita: medo de errar, medo de dar tudo errado, medo do teto que parece muito frágil sobre a cabeça. Uma coisinha, pequena, real, cresce tanto que se torna irreal; cresce tanto que parece não caber dentro da mente e extrapola para a vida: se torna um muro que nos impede de continuar. 

Poderia eu, a partir das minhas experiências pessoais, escrever livros e livros sobre o que é ser uma pessoa ansiosa e como foi ver isso evoluir para o transtorno de ansiedade generalizada. Mas nada será suficiente para descrever as minhas experiências e, muito menos, para ousar descrever experiências de terceiros. Não tenho essa intenção e não confio em alguém que a tenha. Entretanto, sempre vale a pena falar sobre o que incomoda. Sendo assim, por todos os que de tanta agonia, já questionaram sua sanidade, tenho a alegria de expor uma conversa bem esclarecedora que tive com o psicólogo Fausto Pereira a respeito de ansiedade e de transtornos de ansiedade. 
          
     Como diferenciar uma pessoa ansiosa de uma pessoa com transtorno de ansiedade?
 Primeiramente, é importante diferenciar a ansiedade como sintoma, de ansiedade como transtorno. A ansiedade é uma reação normal e de proteção que o ser humano tem para lidar com situações que provocam medo, dúvida e expectativa. É um estado emocional de apreensão, uma sensação de que algo ruim aconteça. Por isso, sua função é preparar o indivíduo antecipadamente para determinada situação. Sem ela, ele ficaria vulnerável aos perigos e ao desconhecido. Mas, quando esse estado de ansiedade persiste por semanas, com alta frequência e intensidade e, ainda, passa a interferir nas atividades básicas do dia a dia, a ansiedade deixa de ser natural e torna-se motivo de alerta, de preocupação. E é aqui que podem surgir os transtornos de ansiedade.
No transtorno de ansiedade, a mente cria muitos pensamentos negativos e catastróficos e fantasia cenas onde tudo dará errado. Destarte, os sintomas psicológicos de ansiedade podem ser irritabilidade, dificuldades de concentração, preocupação excessiva, assim como medo constante, sensação de que algo ruim pode acontecer e descontrole sobre os próprios pensamentos. Juntamente com a ansiedade, vários sintomas físicos desconfortáveis, também, estão presentes: aperto no peito, palpitações no coração, falta de ar, respiração ofegante, tensão muscular, dores nas costas, tremores, sudorese, insônia, tontura, dentre outros.
Logo, enquanto nos transtornos de ansiedade as preocupações são excessivas, intensas e angustiantes e interferem significativamente na vida diária do indivíduo, na ansiedade normal essas preocupações não trazem prejuízos, nem deixam com a sensação de estar com os “nervos à flor da pele”. Os sintomas de ansiedade normal são proporcionais ao risco envolvido, enquanto os de transtorno de ansiedade são desproporcionais e incapacitantes.

Uma pessoa ansiosa necessariamente sofre do transtorno? Se não, é mais propensa?
 Como já respondido na questão anterior, a ansiedade normal é diferente de um transtorno de ansiedade. Se o termo “pessoa ansiosa” estiver se referindo a uma pessoa com um quadro constante de ansiedade, pode-se dizer que, essa pessoa, possivelmente, estará sofrendo de algum transtorno de ansiedade. Contudo, se uma pessoa não ansiosa começar a experimentar sintomas de ansiedade constante, de alta intensidade e duração, é preciso estar alerta para uma possível instalação de um transtorno. Também existem pessoas que são mais propensas do que outras pra desenvolver um transtorno de ansiedade devido a questões genéticas, sociais e psicológicas.
Aqui, é importante salientar que, o diagnóstico só pode ser realizado por um profissional especializado para tal.

3.       Do que se trata o transtorno de ansiedade generalizada?
 Entre os vários transtornos de ansiedade, está o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), caracterizado, segundo a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) pela “ansiedade e preocupação persistentes e excessivas”. Na TAG a ansiedade e a preocupação são desproporcionais às situações que se teme. Assim, o indivíduo tem dificuldade de controlar a preocupação e de evitar que pensamentos negativos interfiram nas tarefas do dia a dia.  Há uma constante preocupação e prejuízo relacionado ao funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida.

    Por que, para você, as pessoas na sociedade atual sofrem tanto com esse transtorno? Por que se tornou tão comum?
 Atualmente, o mundo moderno com seu ritmo acelerado e insano tem provocado ou oferecido contextos que geram altos níveis de ansiedade. A forma desenfreada e estressante de se viver tem contribuído para a intensificação dos sintomas, tornando a ansiedade em excesso um dos grandes problemas da vida moderna, afetando cada vez mais pessoas e se tornado banal, corriqueira, como se fosse algo normal.
A valorização do ter e do fazer, a valorização do sucesso, do poder, da competição e do consumismo favorece a cultura da pressa, do imediatismo, do trabalho em excesso e da culpa e medo do fracasso. As pessoas se sentem impotentes diante de tantas imposições e exigências. Além disso, a cobrança por decisões rápidas as tem deixado cada vez mais apreensivas e preocupadas. Pressão no trabalho, conflitos familiares, instabilidade econômica, violência, cobranças sociais, também, têm sido fatores de grande influência no surgimento da excessiva ansiedade na sociedade moderna.

      Quando a pessoa deve procurar um profissional? O que fazer em casos de difícil acesso a um profissional?
 A pessoa deve procurar um profissional, psicólogo ou médico, quando os sintomas ansiosos estiverem num nível que atrapalhe a realização de tarefas do dia a dia, como trabalhar, amar, se relacionar e lidar com os problemas simples do dia a dia. Esse profissional pode ser encontrado em clínicas particulares, unidades de saúde do SUS e nas clínicas-escola das faculdades que oferecem o curso de Psicologia. Estes dois últimos são oferecidos gratuitamente para toda a população. Muitas clínicas particulares oferecem preços populares para as pessoas de baixa renda.


    Em sua opinião, as mídias sociais têm alguma influência no aumento desse problema como um problema de saúde pública?

Com o advento da informática, onde as informações ganharam uma velocidade significativa, nossa vida também passou a ser mais apressada e com exigência de que os problemas precisam ser resolvidos rapidamente. Tudo precisa acontecer agora, tudo precisa ser vivido com muita intensidade e isso tem gerado desgaste, estresse e, com certeza, intensa ansiedade. A sensação de quem ninguém tem mais tempo pra nada com essa pressa insana por atingir os objetivos de produção e competição, parece um fator certeiro para a instalação da ansiedade moderna.
Outro aspecto que tem causado tal problema é a influência da mídia no modo de ser e pensar das pessoas. Ela dita regras, formas de viver e de ter felicidade, oferecendo produtos que prometem uma vida feliz e sem problemas. Assim, as pessoas focam e fazem disso um propósito de vida: “preciso disso, caso contrário, não terei felicidade”. E Isso tem sido um fator desencadeador de ansiedade, uma vez que nem todos conseguem adquirir tais produtos e os que adquirem vêm que isso não funciona e busca, cada vez mais, estímulos eliciadores do bem-estar e da felicidade, mas nunca os encontra, de fato. É uma busca constante e ansiosa para atingir os objetivos impostos e prometidos pela mídia.

      Quem sofre com o transtorno pode recorrer a outros tipos de tratamentos que não medicamentos?

Não só pode, mas deve. Além do tratamento medicamentoso, que visa o alívio psíquico e físico em momentos de crise e que pode ser imprescindível pra casos de transtornos de ansiedade, é importante que a psicoterapia esteja presente no tratamento. Com a ajuda do psicólogo, o indivíduo que sofre é acolhido e ajudado a tomar consciência do que acontece em sua vida e a compreender seu modo de agir e ser em suas relações consigo, com os outros e com o mundo, buscando formas mais satisfatórias de lidar com sua ansiedade. O tratamento envolve, também, mudanças no estilo de vida. Assim, o psicólogo se torna um profissional de grande relevância social numa sociedade, onde os casos de ansiedade patológica tornam-se cada vez mais presente.


8    Que tipo de recomendações você faria a alguém que se considera ansioso e sofre com o problema? Como evitar a evolução dessa ansiedade constante para um transtorno psíquico?
O fundamental para quem enfrenta a ansiedade em seu dia a dia é aprender a relaxar e respirar. Muitos vão dizer que não é fácil e não conseguem, mas como toda habilidade que se quer adquirir, é necessário treinamento diário, assim como é ao aprender a andar de bicicleta. Um dos grandes problemas que envolvem a ansiedade também é a falta da compreensão, por parte da pessoa que sofre, do que causa a sua ansiedade, das situações envolvidas, das consequências geradas nos vários âmbitos da sua vida, assim como dos recursos que dispõe para enfrentar o que lhe aflige. Aqui, é muito importante o autoconhecimento, um conhecimento acerca de si mesmo, das limitações e potencialidades, podendo, assim, o indivíduo buscar estratégias para lidar com sua problemática.
Técnicas de relaxamento e de respiração, exercícios físicos, alimentação balanceada, sono tranquilo, organização, terapia para fortalecimento cognitivo, emocional e comportamental são recomendações para evitar a evolução da ansiedade que, se muito intensa, duradoura e frequente, poderá vir a ser um transtorno de ansiedade, que será um pouco mais difícil de lidar.


Considerações finais.
A ansiedade vem se tornando um mal-estar da nossa época. Com tantas exigências, competições, pressas, violências e insegurança quanto ao futuro, a instalação da ansiedade numa sociedade que não está preparada para lidar com ela é inevitável.
As pessoas têm adoecido e não têm encontrado formas de como se livrar ou lidar com esse mal. Muitos recorrem e se entopem de medicamentos para o alívio temporário daquilo que incomoda, mas se esquecem de tratar da causa, de compreender o que o leva a ser ansioso e como lidar com isso. Vivem apressados e sem tempo, vivem no futuro, esquecem-se do presente, esquecem-se delas mesmas. É preciso informação e conscientização de que a ansiedade vem tomando espaço muito grande na vida das pessoas e que elas precisam estar em alerta para isso. A ansiedade em grande intensidade é patológica, faz mal, limita e impede a vida. E ao invés de nos proteger e nos preparar para viver coisas novas, ela nos enfraquece e não nos permite que desenvolvamos e cresçamos. Se você se considera ansioso, procure ajuda! Um psicólogo está preparado para isso. Grande abraço!

Fausto Pereira da Silva
Psicólogo - CRP 09/11282
Clínica Gênese 
Rua Jorge Zaiden, 342, Vila Santa Maria, Jataí-GO
Telefones: (64) 3631-2403 / (64) 99965-6646