Para fugir do óbvio, resolvi falar de nós.

De todos os barulhos que existem dentro de mim, o seu é o único capaz de ensurdecer-me, de me fazer ouvir, de organizar toda a confusão, de me bagunçar, de me trazer paz, acalentar minha alma, me confundir, tumultuar minha mente, colocar feição em meu rosto, e me fazer saber como e quando continuar ou parar. Trazendo o pior (e melhor) misto de sentimentos que posso e que já pude sentir.

Involuntária, própria e única. Ótimas definições para nossa relação. Sem medir as conseqüências, e nem os esforços, te uso e te usei todos os dias, desde que descobri e que experimentei a sua existência. Por todos os lugares que passo você está, vocês estão. Na rua, na esquina, na padaria, na televisão, no último livro que comprei e no primeiro também, mas, principalmente, nos meus pensamentos. Parecem não lutar pelo lugar aonde chegam. Simplesmente estão e, quando percebo, já as usei de todas as maneiras possíveis e involuntariamente abusivas.     

Teu alimento diário? Minha mente. Quase a destrói. Procuro a paz e que de uma forma louca e contraditória, só encontro em vocês, palavras. Não vejo problema em dividi-las com ninguém, até porque amo suas formas e quero que possam descobrir assim, como usá-las também. Dominar-te, impossível. Mas tu, ao contrário, usas-me, controlas-me, dominas-me e eu não posso me livrar disso. Não pediram permissão, mas, em meus pensamentos, habitaram.


Uma das minhas primeiras formas de expressão. Desde o ventre de minha mãe, não sabia o que eram, mas sentia que existiam. Logo, os primeiros fonemas começaram a brotar, e quanto mais eu cresço mais as palavras florescem. Ainda não conheci todas elas, mas pelas poucas que sei, reconheço que me sustentam, me movem, me modificam, me enlouquecem, me completam, me desfazem, me refazem e, quando menos esperamos, também se vão.

Julyana Alves

Desinteresse, distância, incerteza;
Por quê os sinto vindos de ti pra mim? 
É sempre assim! Mas não seriam dessa forma as relações humanas?
Pautadas tanto em sentimentos mórbidos e limitados quanto em puros e imensuráveis? 
Não me entenda mal, eu bem sabia que nem tudo seria flores;
Há também desafetos e desamores.

Dou me da melhor maneira que posso
Mas a que custo? 
Custa todo esforço de minha pele e ossos. 
Ao passo de perceber que me limito pra te satisfazer 
Tudo para o seu 'bem me querer' não perder. 
Não quero simplesmente rimar, ou deixar poesia no ar. 
E não há nada de belo em padronizar a forma como se entrega afeto. 
Me deixo, para te deixar feliz. 
E, ainda isso, não é suficiente. Nunca é.

Talvez esteja delirando 
Talvez seja apenas o silêncio
Talvez você só queria ter coberto tudo com um lenço
Mas eu te digo: toda essa incerteza talvez acabe com o resto de ti que restou em mim.

Mas tudo é suportável, 
Até chegar o momento da indiferença.
Sou coercitivamente conduzido para fora de minha existência. 
Existo em ti, no amor que criamos 
E deixá-lo nunca é uma opção
Acaba sendo, literalmente, uma forma de expulsão. 
Agora sei como se sentem as pessoas despejadas:
Acaba o brilhos nos olhos, 
Acaba os abraços ao sorrir, 
Fica apenas uma lembrança do futuro que deixamos de construir.

João Pedro

Prédios. Carros. Transeuntes. Faróis. Olha, o carro da pamonha. Buzinaram. A criança soltou o braço da mãe e atravessou a rua correndo. A velhinha deu milho para os pombos. Caos urbano.

Em meio a essa bagunça, um rapaz atravessava as ruas da cidade. Cabeça baixa, olhos esmaecidos e passos lentos. Ele transitava como quem vai de lugar nenhum para nenhum lugar. Não era como se estivesse cego ou surdo, sem perceber o que o cercava, ele apenas estava alheio, e essa ignorância a respeito do mundo exterior era consciente e provocada, ou melhor, era desejada.

Algumas pessoas recebem a sorte de encontrar algo sublime ao ponto de transcenderem o rotineiro, e, depois disso, fica difícil se envolver com a normalidade da vida. Foi exatamente isso que acontecera com o rapaz. As cores das flores já não chamavam a atenção, as magníficas construções arquitetônicas não passavam de cimento e vidro. Tudo era menor se comparado ao que ele conhecera.

E tudo foi culpa dela, a dona do sorriso que o despedaçou e depois o reconstruiu. Levou-o ao céu em segundos e agora ele estava maravilhado. O brilho daqueles olhos abriu caminho para uma experiência diferente, que outrora a monotonia da existência não o permitira imaginar. Era um novo prisma, por isso as estrelas já não pareciam tão belas e nem a mais excelsa obra de arte conseguia emocioná-lo.


O nosso personagem tinha a imagem dela gravada nas córneas, e os ouvidos dele só escutavam a voz cristalina que invadira os seus sentidos como uma cantiga. Essa música era embalada pelo bate-bate do coração e gerava a melodia mais doce que os seres humanos podem encontrar. 

Jessé Lima

Na vida, passamos por momentos de alegria e de tristeza, os quais nos causam variadas reações, mas o momento que nos cala é o do sofrimento. A dor causa reflexão e é quando percebemos – e valorizamos – as pequenas coisas.

Coisas pequenas, são crianças. Eu, quando criança, gostava de pensar no futuro, na vida adulta e na liberdade que a mesma me proporcionaria: caminhar com os próprios pés. Ainda que com sede de liberdade, nunca pensei sobre partidas. Acreditava que eu teria cada familiar, amigo e entre outros conhecidos sempre comigo. Até que um dia, pouco tempo depois do meu aniversário de dez anos, a realidade bateu em minha porta levando da minha vida uma pessoa. E depois outra. E depois outra. Como em um efeito dominó. A culpa preencheu o espaço vazio. “Se eu tivesse feito tudo direitinho, talvez tivesse acontecido diferente”.  Tolice. Queria ir contra a lei da vida: tudo é finito. Tudo é finito? Não, espera. Tem que ter alguma coisa... Depois de muito desviar de fins, percebi: tenho medo de perdas. Desenvolvi uma estratégia. Comecei a ser boa e generosa. Exageradamente. Dava o meu melhor em tudo, achando que assim as pessoas permaneceriam. Só depois de muito tempo percebi que não tinha controle e que não podia perder ninguém já que a escolha não era, e nem é, minha. 

Mesmo não podendo escolher, sigo sentindo e ouvindo especulações. Dizem, por exemplo, que a perda é dolorosa e que pior que alguém que já partiu é aquele que ainda tem vida, mas não na nossa vida. Será? Se perdemos alguém que morreu não podemos mais nos conectar com essa pessoa, pelo menos não fisicamente. Então, como é que pode isso? Como alguém que ainda respira, mas respira longe de nós, poderia estar mais ausente? Também não sei, talvez nunca saberei, mas sei que por mais abalados que fiquemos com a saída de alguém de nossa vida, se a pessoa ainda pisa no planeta Terra e inspira gás oxigênio, é nosso dever deixar as boas memórias preencherem nosso coração e desejar sempre o bem, para viver em paz.

Eu mesma, que ouso em vir aqui dizer isso, demorei um tanto para entender que não perdemos as pessoas; podemos perder sonhos, objetos, valores – e, ainda assim, tudo isso, de alguma forma, segue conosco porque faz parte de quem somos. Só que as pessoas não, elas são seres individuais que podem, sim, tornar a nossa vida mais feliz, mas não são a causa da nossa felicidade – o motivo da nossa felicidade deve ser nós mesmos.

De tudo que não entendo, acho que entendi que só podemos perder uma pessoa: nós mesmos. Passamos tanto tempo tentando fazer com que as pessoas não saiam de nossa vida, que esquecemos de cuidar de nós. Percorremos um caminho, construímos uma história, criamos e cultivamos laços que vão nos ajudar ao longo dessa estrada, mas não podemos esquecer de semear em nós coisas boas, fazendo de quem somos um jardim bem cultivado. Se isso não acontecer, podemos perder a única real causa da nossa felicidade: o nosso ser individual e singular.



Giselle Santos

Seu sorriso é aquele meio de canto de boca, desconfiado e meio tímido.
O meu é escancarado, sem controle e bobo.


Você diz que não sabe sorrir.
E ao mesmo tempo tem um dos sorrisos mais bonitos e cativantes que já vi.


Quando sorri, sinto vontade de apertar seus lábios contra os meus.
E quando te digo isso, você me oferta o seu melhor sorriso, na intenção de que nossos lábios se encontrem.


Outro dia me disse que quando eu sorrio meus olhos sorriem e brilham.
Mal sabe que o motivo deles brilharem tanto é você.

Finge não saber que esse riso é causado pelo seu olhar penetrante, a analisar cada traço meu.  
E pelo toque da sua mão em cada parte do meu corpo.


O seu olhar é sério, me causa devaneios.
E ali poderia ficar horas te olhando, te admirando.


Já o meu olhar é meio perdido, procura abrigo.
E em meio aos seus abraços encontro esse aconchego.
E ali juntinhos sonhamos e rimos.
Ali unidos como um - proferimos as nossas maiores confissões um ao outro.


É bem ali olhando as luzes que se acendem pouco a pouco ao chegar da noite,
Que concebemos os nossos sonhos. Porque de nada vale sonhar sozinho.


É por essa mesma janela, janela dos sonhos, que enxergamos o nosso futuro.
É nela que nos debruçamos para sentir o ar frio tocar o nosso rosto. É por ela que sentimos o quanto podemos ser infinitos.


É por ela que apreciamos e ansiamos pela liberdade de sermos nos, eu e você, em um mundo que é formado por bilhões de nós.


E assim nos encostamos um no outro porque somos o alicerce.
E de pernas e braços entrelaçados sussurramos as nossas melhores histórias.


Que nos fazem rir.
E ali em meio ao riso, sinto que achei o que procurava.


E que em meio a copos vazios, corações partidos e pessoas indo e vindo, nos encontramos.
Encontramos-nos no melhor riso. Na melhor mesa, com a melhor batata e na melhor noite de céu estrelado.


E ali, naquele instante, em meio a gargalhadas, encontrei alguém que me faria sorrir em meio ao caos que se instalava dentro de mim mesma.


Pena que foi sorriso passageiro.


Evelin Mendes

Você disse que eu não devia chorar

Me falou para a cabeça levantar,
Afinal tinha que me esforçar
Chorar ajuda, mas não é a solução
Eu precisava mesmo era de uma lição

Suas palavras foram duras quando falou
Hoje vejo que isso não importou
Afinal você falava com carinho
De quem se importa em não me ver sozinho

Falou mesmo temendo me magoar
Porque sabia que eu tinha que escutar
Aquelas palavras de repreensão e firmeza
Me atingiram o coração com dureza

No momento eu achei que ia quebrar
Mas entendi onde você queria chegar
O ferro é moldado pela força do martelo do ferreiro
Dor, impacto e sofrimento o tempo inteiro

Mas no fim é obra prima de se ver
Lâmina que tilinta ao bater
Sólida e bela, brilhante e imponente
O ferro foi moldado com a lâmina rente

Outrora um pedaço desconfigurado
Agora é espada de mineral trabalhado
Pronta para cortar o que vier pela frente
Pois a dor é o professor da gente

Nunca vou esquecer das palavras que dividiu comigo
Afinal o único que seria capaz de me marcar, seria você, meu amigo...

Adolfo Rodrigues

Eu tenho medo.

De escuro.
De cobra.
De escorregar no banho e bater a cabeça.
De presenciar um acidente de obra.

Eu tenho medo.

De engasgar e estar sozinho.
Das ressacas não passarem.
De ser confundido com alguém da máfia.
De ter dois filhos e meus pais mimarem.

Eu tenho medo.

De acordar cego.
De tobogãs gigantes.
De nunca mais ter inverno.
De viver o futuro e não lembrar do antes.

Eu tenho medo.

De gente esnobe.
De salada sem sal.
De comer polvo.
De não poder trocar de canal.

Eu tenho medo.

De injustiça.
De paredes mal pintadas.
De conhecer sogro.
De conversas mal acabadas.

Eu tenho medo.

De me perder na floresta.
De não comprar uma bateria.
De ter que pular de um carro em movimento.
De gente que adquire muita idolatria.

Eu tenho medo,
E medos que desse poema vão além. 
Porém, o meu maior medo
É acordar e ver no espelho os medos de outro alguém.

Eduardo Rodrigues


Desde cedo, aprendemos que para tudo na vida existe uma resposta pronta; somos guiados à apologia da aceitação, seguir sem questionar.  Mas a vida humana é repleta de acontecimentos bons e ruins, altos e baixos, situações que nem sempre podem ser caladas com as respostas prontas que nos são dadas. Assim, como que por teimosia, duas palavrinhas fazem morada na mente: e se?

Não é preciso ter uma crise existencial para que elas apareçam, também não aparecem somente em momentos ruins, são duas palavrinhas que formam uma simples pergunta. Pergunta essa que não requer uma resposta, ao contrário, pretende levar o indivíduo a questionamentos.

Individualmente, esses questionamentos podem trazer o impacto para decidir o futuro de uma pessoa, podem representar luta, felicidade e desespero. Às vezes podem ser cruéis em decisões, entre amigos, entre amores, criando ilusões – a desarmonia em meio ao que era harmônico: e se não for para ser?

Coletivamente, podem gerar o caos equilibrado de várias mentes questionando-se mutuamente. Afinal, se não houvesse o desequilíbrio a vida faria sentido? Provavelmente não existe uma resposta objetiva para isso, o que existe é a sementinha plantada em nossa mente que diz: sem questionamentos, a vida não será nada além de mais um substantivo entre tantas palavras no mundo.

Por isso, por escolher acolher a possibilidade e arriscar, venho deixar um recado: lute, cresça, ame, não se prenda, permita-se. As respostas prontas da vida, nem sempre serão suficientes para as suas perguntas, e esse é um sinal de que ainda há muito o que buscar, de que vale a pena seguir sonhando e buscando o que temos de melhor: a possibilidade de ser um humano feliz.

Diego Alves

Tuas iniciais têm o nome da coisa que eu acho mais linda na vida:
O mar!
O mar que mistura as minhas cores favoritas
E, em ondas, me embala.

Foi assim que você veio,
Me atingindo como as ondas em dia de calmaria:
Maré que sobe e desce, num vaivém infinito.

Tu és mar,
Mar que encontra o céu no horizonte,
Mistura as cores, fazendo arte diante da gente.

Eu não sei nadar –
E já até me afoguei um dia –
Essa é a fonte do meu receio.

Mesmo receosa, não resisti à beleza do teu mar,
Devagar me permiti molhar os pés,
Fui me aproximando das tuas ondas
Deixando que a brisa leve o medo embora.

Tu, que nem conheces o mar,
mas tens jeito de mar:
Força, beleza e melodia.

Tu, que és calmaria misturada à confusão que só o desconhecido tem,
Tens uma paciência desejosa que a gente dificilmente vê.
Me atrai sem dizer nada, e me leva todas as palavras,
Me envolve e me traz paz.

É como um ritual: escuto teu cantar, te vejo,
Admiro e questiono os mistérios que tu escondes,
Me dispo de mim e caminho:
Vou mergulhar!




Débora Kelly

Entre trancos e barrancos, quedas e desencontros, é sempre necessário e revigorante quando encontramo o ponto de paz; o ponto chave pelo qual as coisas valem a pena. Por sorte, temos a literatura que, por vezes, é esse ponto onde se repira: ambos autor e leitor. Como exemplo disso, temos a emergência de vários novos autores e Rob Camilotti é um deles. Rob acaba de publicar seu livro "Quilômetro cinza - e outros contos de cabeça" e cedeu um dos contos, presente no livro,  para ser publicado aqui. Vamos fazer uma pausa para respirar enquanto lemos? 

CONTO: Quilômetro Cinza (Um caso vampiro em São Paulo).
Escrito por Rob Camilotti.

Hiroilto foi sem destino então. Fincou a chave no carro, desobedecendo a advertência veiculada continuamente no rádio para que ficasse em casa dada à excepcionalidade do que ocorria com o tempo em São Paulo. - “Talvez, o clima esteja igual no mundo.” - pensou enquanto dirigia.
“Que está acontecendo?” - a neve caía torrencial ao longo da Bandeirantes, em flocos grossos, instalando o frio que não era menos aterrador. Foi percebendo que, enquanto dirigia, era literalmente o único em toda a cidade que havia tido a ideia de se atirar ao desconhecido, mas dirigiu o carro com cuidado em todo momento. Certa hora, Hiroilto parou ao avistar, no acostamento da marginal, um menino sozinho que não aparentava ter mais de dez anos. Deu duas pancadinhas no vidro do carro como quem o anunciava que podia se aproximar, só que o menino porém limitou-se a olhar em sua direção, dando a entender que não entendia o que Hiroilto queria. - “Ele vai morrer congelado se eu não tirá-lo de lá”. - abriu a porta do carro e se entregou ao frio.
A pista estava escorregadia por causa de uma crosta de neve que, com alguma rapidez, acumulava-se nas bordas, quase que se estendendo a um rio congelado. Tinha que ser mais ligeiro no resgate ao menino. - “Não tenha medo, garoto, deixa eu te ajudar!” - estendeu-lhe a mão enquanto caminhava, para que viesse ao seu encontro, porém, de novo, o menino não reagiu. Valente, no que se aproximou, Hiroilto envolveu o menino nos seus braços e o levou com ligeireza para dentro do carro. - “Que merda, Hiroilto!” - na pressa de socorrê-lo, Hiroilto esqueceu de fechar a porta ao sair do carro e uma boa camada de neve encobria todo banco do motorista. Com duas braçadas generosas, expulsou a maior parte da neve. Entrou no carro mesmo assim e colocou o menino sentado no banco do carona, ao seu lado.
“Ufa, que aventura hein?! Como se chama, garoto?”
O menino respondeu:
“CD.”
“CD?” - sorriu para o menino, que fez que sim com a cabeça. - “Prazer em conhecê-lo, CD. Vou levá-lo para casa, certo? Onde estão seus pais?” - Hiroilto não disfarçou a afeição que já sentia pelo menino.
CD não o respondeu. Em vez disso, lançou-lhe um olhar opaco, fosco, inabilitado de sentir. Hiroilto presumiu desse modo que o menino não tivesse os pais e que, justamento por isso, o encontrara na rua.
“Pobre garoto!” - exclamou baixo. Disse em seguida. - “Vamos ficar juntos até que a neve passe e depois te levo para uma delegacia. Quem sabe eles não te arrumam uns pais bem legais! Combinado assim, CD?”
CD o encarou com desinteresse. Deu-se a entender que, para ele, tanto importava o que fariam depois. CD tinha o rosto e as mãozinhas tão brancos que impressionavam fortemente Hiroilto, e cada vez mais.
“Está com frio?”
“Um pouco.” - CD respondeu.
“Coitadinho! Não se preocupe porque já estamos chegando. Vou te levar para casa.”
E Hiroilto passou-lhe as mãos nos cabelos, confortando-o. Ao fazer isso, se impressionou mais uma vez: os cabelos de CD estavam extremamente secos e sua pele, sem viço algum, ficava cada vez mais branca, diferente em comparação a qualquer outra que já havia visto, como a de um cadáver de um menino congelado. Em seguida, ao levar a mão ao nariz e cheirá-la, quase vomitou ao sentir um cheiro terrivelmente podre em um pouquinho de óleo que se impregnara na ponta dos dedos. Era como se houvesse acabado de passar a mão na carniça de um animal morto. Assustado, decidiu levar o menino direto para uma delegacia, invés de levá-lo para casa como o havia prometido.
“Estou com fome e eu quero comer agora.” - CD pôs as mãozinhas sobre sua barriga.
“Já estamos chegando em casa, CD.” - Hiroilto escondeu-lhe aonde verdadeiramente estavam indo. - “Aguente só mais um pouco, combinado?” - e foi acelerando o carro, mostrando pressa em se livrar do menino.
“Eu disse que eu quero comer agora, não me ouviu?”
O menino, antes indefeso, se revelou então. Ao olhar para o lado, Hiroilto foi tomado pelo horror. Criatura medonha, a cabeça de CD revelou-se peluda; as orelhas, os olhos, o nariz e os dentes fininhos lembravam os de um asqueroso morcego.
“Não precisa ser do jeito mais doloroso para você. Só quero um pouco de sangue. Vou transformá-lo.”
“Vá embora, demônio!” - Hiroilto enfiou o pé no freio.
Com toda calma possível, CD, pequeno conde vampiro, foi se aproximando lentamente do homem, que, já em paz e a vontade com seu destino, sentiu cravar os dentinhos na jugular.
“Só uma dose do seu sangue.”
  


O conto “Quilômetro Cinza” se soma a outras quinze histórias que fazem parte do livro “Quilômetro Cinza e Outros Contos de Cabeça”.

O livro está à venda na Amazon em formato eBook através do endereço /https://www.amazon.com.br/dp/B073TRN521/ ou em versão impressa pelo link https://www.amazon.com/dp/1521801509/





Fonte: Tumblr
A tarde era fria e o tempo era cinzento
Mas dentro de casa o sol não parava de brilhar
Cada sorriso que você dava reluzia
Era como se sozinha você brilhasse mais que cem constelações

Por um instante me perdi naqueles lábios
Você bebeu demais e deitou a cabeça no meu ombro
Então riu de tudo o que eu falava
Pegou meus dedos e brincou com cada um
Como se jamais os tivesse visto

E a música mudou de repente
Em um átimo você dançava no meio da sala
Rodopiando seu vestido com os braços abertos
Os pés descalços se enroscando no carpete
Olhou pra mim com olhos estelares
Caiu no sofá gargalhando

E eu soube que te amava
Em um instante uma vida correu pela minha mente
Era como se eu estivesse sóbrio de novo
Com você eu sentia que era o bastante
Meus medos esvaziaram
Minha confiança retornou
Mas você nunca soube que te amava

Porque eu fingia que nada estava acontecendo
Por medo de te perder
Mas, em minha mente eu beijava sua testa antes de dormir
Te acordava com café da manhã todos os fins de semana
Dançava com você nas madrugadas
Fazia jantares experimentais e loucos
Eu estava tão apaixonado por você que era difícil respirar
Eu quero ficar com você até o tempo nos consumir

Eu quero ser a sua saudade de sábado à noite
Seu primeiro pensamento da manhã
Seu sorriso ao receber uma mensagem de madrugada
Seu segundo ingresso do cinema
O copo que brinda com o seu
Quero ser o calor que aquece seus pés quando estão frios
A mão que segura a sua
Eu quero ser o homem da sua vida
E tudo o que te peço é que...

Me deixe ficar

- Adolfo Rodrigues


Não carrego muitas certezas, elas são pesadas demais. Sendo assim, dentre a pequena quantidade de certezas simples que escolhi para carregar comigo, faço questão de manter um lembrente em minha mente: tenho que gostar de mim como eu sou. É um mantra consagrado esse, essa história de se amar - por sorte a nossa- tem sido propagada. Mas ainda preciso repetí-lo todos os dias, sempre. Digo isso pois, entre tantos empecilhos que criei para amar a mim mesma, um deles foi o meu cabelo. Coisa frívola, fútil, boba, pequena, que sempre me incomodou. Desde a infância, meu cabelo sempre foi fraco, quebradiço, fino, frágil demais. Talvez, por ser liso, oleoso demais também. Sempre uma confusão: lavando duas vezes ao dia, perdendo ainda mais nutrientes e muitos, muitos fios. Na adolescência eu havia desistido de melhorar essa situação, aceitei: em algum tempo estarei careca. Sorte que a adolescência passa e o mercado cosmético evolui!

Há uns dois anos tenho procurado formas de melhorar essa situação e, entre receitas e receitas (sobre as quais podemos falar em outras conversas), acabei tendo a sorte de conhecer a Kert Cosmésticos - que agora é parceira do blog. Durante um mês, utilizei em minhas lavagens diárias o Shampoo e o Condicionador Liso absoluto - específicos para o meu tipo de cabelo. Nunca havia feito um teste tão minucionoso quanto esse e, por isso, percebi todos os detalhes que surgiram a partir da utilização dos produtos. A Linha de produtos se dispõe a limpar os fios sem agredi-los e/ou causar perda significativa de nutrientes, além de agregar nutrição e hidratação capilar. A promessa é muito bem cumprida: hidrata profundamente! Meu cabelo, que quebrava até com o vento, ficou mais forte e encorpado. Funcionou muito bem - além do cheirinho maravilhoso dos produtos. 


Como nem tudo são flores, nesse caso, os produtos não me serviram muito bem em diminuir a oleosidade visto que a limpeza é suave e não agressiva. Portanto, alternei os dias de lavagem com um shampoo mais forte. Para quem não tem um cabelo tão oleoso quanto o meu, não há essa necessidade e os produtos vão servir muito bem. Para quem tem cabelos ressecados, sem brilho e quebradiços - como devem estar todos nesse inverno - os produtos vão cair como uma luva! Super indico. 

Avaliação: cumpre o que se propõe a fazer | especial para quem precisa hidratar | ótimo para período de inverno | nota: 9/10


Com amor, 
Ane Karoline

imagem: pinterest


Não quero falar sobre culpa; aliás, não mais. Não é por causa da culpa e nem com ela que ando engasgada. Apesar disso, mesmo que sem culpa ou remorso, venho admitir um erro meu.  De todas as coisas que você pode me acusar, essa eu assumo e bato no peito; não posso negar que fiz. Aliás, poder eu até poderia, as pessoas são acostumadas a lidar com gente que finge que não sabe que faz o que faz, não são? Mas eu não. Nem sou dessa gente e nem sei lidar com quem finge que não sente. Não se engane, não é por santidade e nem bondade; não finjo porque não sei fingir, soubesse, talvez colecionaria relacionamentos frívolos como outros tantos fazem. Entretanto, sendo cara limpa e alma flamejante como sou, vim aqui tatuar meu erro na pele da nossa história: eu achei que você fosse como eu.  

Foi uma crueldade desmedida a minha, agora vejo. Beirei o egoísmo, não foi? Achei que você fosse como eu, fiquei me procurando nas suas ações e reações, procurando meu cuidado no seu descuido, acabei criando uma emboscada para mim mesma e fiquei te esperando para me resgastar - mas você não é como eu. Para mim, foi uma grande ofensa você não me resgatar, você não me dar a mão, afinal, eu jamais hesitaria em te oferecer os meus dois braços. Esse é o ponto xis da questão: você hesita. Eu na beira do abismo e você ponderando, será que o abismo não tem razão em me puxar? 

Olhe, veja bem, não estou sendo injusta, sei bem que você até chegou a me amar, não foi? Prefiro pensar que você não simularia esse sentimento assim. Mas me amou em ondas, até que chegasse alguém para colocar esse amor em xeque e te tornasse pura hesitação: sei não. Eu não conhecia esse amor hesitante não, para mim sempre foi tudo claro- se amo, amo; faça chuva, faça sol; na frente do fulano ou do beltrano; na presença ou na ausência. E esse foi meu erro: tentei medir seu amor pela minha forma de amar e não coube.

Eu mostro a cara, chuto o pau da barraca, enfrento quem for, tenho o mesmo discurso na frente do padeiro e do papa. Eu luto contra mares e marés, multidões e solidões, choro e faço show. Faço o que achar que tem que ser feito por amor e por justiça- e isso tem lá suas dores e louvores. Louvores e desventuras que  gente que ama manso como você, não conhece e nem faz questão de conhecer; já não sei se por inaptidão ou desinteresse. Por não saber é que não me cabe julgar, somente aceitar. É por isso que não vim aqui falar de culpa, vim falar de liberdade, eu vim aqui libertar você. Não quero que você se sinta em débito por não amar como eu amo, por não ter esse amor que é febril e fiel - pelo menos, não por mim. Não quero que você sinta obrigação em agir assim ou assado, de fazer isso ou aquilo. Isso, é claro, não garante que eu fique feliz em ter esse amor pela metade que você oferece, esse amor que não se assume, nem garante que vou deixar a porta aberta. Entretanto, garante que eu respeite e entenda que a gente só pode dar o que tem: se você não tem amor, não o pode dar a mim também. 


Ane Karoline

Fonte:http://theadventurouslife4us.tumblr.com
      Eu não me lembro bem quando aconteceu. Não sei se foi em meio a alguma das promessas quebradas, ou em um daqueles "para sempre" que logo acabam. Só sei que quebrou. Quebrou de forma tão brutal, que ouvi o barulho grave ribombar no interior de meus ouvidos. Era um som distinto, parecido com o estalar de duas pedras que se chocam uma contra a outra, mas em uma escala maior. A sensação foi apenas de vazio, mas também pude sentir a desorganização dentro de mim, como se meus órgãos estivessem fora do lugar, devido à mudança no formato interno do meu corpo. Lembro-me de um frio no estômago e uma sensação de queda que durou longas horas. 
         Na hora pensei "-Já era!". Só depois que o choque havia passado eu pensei em como faria para consertar. Mas já era tarde e eu demorei a entender que daquela vez não tinha conserto. Que havia quebrado em duas metades grandes demais para ser coladas. Acho que devia ter me desesperado, ou algo do tipo, mas, até por consequência da quebra, não conseguia sentir nada. Observei as mudanças na minha personalidade após esse grande momento da minha vida.
        Começou com aquela coisa de não sentir nada, sabe? Nem felicidade nem tristeza, nem prazer nem desgosto. Você apenas vive, seguindo sua rotina, se atendo a planos e às coisas que tem de fazer. Claro que os amigos mais próximos quiseram saber se tinha algo de errado, mas, àquela época eu já sabia como sorrir e dizer que era apenas cansaço. Engraçado como eu achava que viver com um coração partido seria algo mais dramático. Só quando notei que ninguém sequer havia percebido, é que entendi como as pessoas passavam anos vivendo quebradas sem ser notadas. 
       Claro, naquele momento me pareceu a melhor ideia deixar as coisas do jeito que elas estavam. Não estava pronto para lidar com os acontecimentos que haviam me levado ali, ou, na verdade, como mencionei, sequer sabia o real motivo d'aquilo ter acontecido. Mas, aconteceu, e agora eu tinha de lidar com isto. Esperei pacientemente pelos sentimentos que eu sei que viriam. Ah, uma hora viriam! E eu sabia que não seria como um filete de água, mas sim aquela correnteza esmagadora que te faz se trancar no banheiro, ligar o chuveiro, cobrir a boca e chorar um choro silencioso e dolorido. 
       Acho que chorar escondido e se forçar a chorar em silencio é uma das piores torturas ao ser humano.Isso leva a muitas constatações. Como por exemplo, a de que, apesar de ter pessoas às quais você sabe que pode recorrer, você não é corajoso o bastante para fazê-lo. Outra constatação: você quer ficar mal. Não que você esteja se vitimizando, ou querendo chamar atenção, mas existe aquele momento em que você só quer sofrer por aquilo, sem que ninguém tente te fazer sentir melhor ou distrair, ou ainda te dar conselho ou soluções para os seus problemas. Não. Você quer apenas se permitir sentir toda aquela dor, deixar os olhos baixos e ficar o mais calado possível, permitindo que seu corpo e mente sintam toda aquela escuridão, para, só depois, tentar resolvê-la. Não é errado, nem é tentar ser o centro das atenções. É lidar com toda a sua bagunça de frente, sem tentar desviar a dor. 
       Por fim, o tempo realmente faz seu trabalho em direcionar nossa mente para outros assuntos, evitando que continuemos naquele ciclo vicioso de dor e escuridão. As decepções não tem mais o mesmo efeito sobre você, e o positivismo é um passado distante. Um dia você está tomando um leite sozinho, em um tempo frio, ao som de uma música que gosta e nota "sobrevivi". Não estou curado, mas sobrevivo, mesmo com o coração partido. E vem aquela outra constatação: Existe vida após o amor!

- Adolfo Rodrigues

Fonte: http://mishencetu.tumblr.com
Acho que a felicidade não gosta de mim
Pois nunca me pertence
Não me apetece
Chega rápido e logo desaparece

Não me habita
Vem às vezes para breve visita
Logo se vai
Pela ponta dos dedos se esvai

Cria um ciclo vicioso
Algo que me torna desgostoso
Pois sempre que se apresenta a mim
Acaba me quebrando no fim

Chega e bate na porta
Se instala e se acomoda, toda torta
Mas sempre que começa a criar raízes no chão
Se arranca, ferindo meu coração

Me tornou uma pessoa infeliz
Não consigo acreditar no que diz
Me falam que devo ser minha própria felicidade
Mas não posso ser o que não é minha realidade

Se mudo pra tentar ser algo que não sou
É como ser um pedaço falso que restou
O espelho sempre me acusa a verdade
O sorriso é apenas falso alarde

Enquanto me acostumo aos jogos doentios do tempo
Cavo mais fundo a cova do sentimento
Logo haverei de me tornar estéril como um deserto
Onde sentimentos não brotam, por certo

-A. Rodrigues

Fonte: Imagination.tumblr.com

                Das relações sociais humanas, uma se destaca em relação às demais. Ela não tem uma explicação, e cresce junto ao fator de temporalidade. No entanto, como se para contrastar o efeito do tempo, ela é atemporal. É uma das únicas coisas que pode ser fortificada com o tempo, ao invés de padecer, como tantas outras. Algumas pessoas a veem como uma corrente, outras como asas. Muitos se referem a ela como um milagre, um presente divino para nos ajudar a enfrentar o período miserável de tempo que passamos no globo terrestre.
                Sendo ela divina, biológica ou científica, é inegável que a amizade é uma força de poder considerável, capaz de criar e destruir com a mesma intensidade. O que une as pessoas em laços de amizade é um fator peculiar e desconhecido. Ora, veja, a amizade não está relacionada à quantia de tempo em que duas pessoas se conhecem, mas antes a um encontro e identificação de almas. Uma verdadeira afinidade e sincronia entre dois organismos e mentes, ou ainda, sob um viés mais espiritual, o entrosamento entre duas almas.
A seguir listamos 5 tipos de amizades que todos teremos uma vez na vida

1 – Amizade de infância
Fonte: Tumblr
Aquele amigo que sempre esteve ali, desde que você se lembra de existir. Vocês passaram por tanta coisa juntos que fica impossível não abrir um sorriso só de pensar na pessoa. É o amigo que conheceu seu primeiro cachorro e que estava lá quando a sua avó faleceu. Te deu doces escondido e com ele você quebrou seu primeiro osso e arrancou seu primeiro dente. Pode ser que vocês tenham tomado caminhos diferentes e o contato tenha se perdido, mas, sabem que quando se reencontrarem será como se nada houvesse mudado.

2 – Amizade de escola
Fonte: Tumblr
Aquela amizade que começou com uma borracha ou caneta emprestada e deu frutos. A primeira pessoa para quem você olha quando a palavra “grupo” aparece na escola. É atrás dessas pessoas que você se esconde quando a pessoa que você gosta aparece. Aquele amigo com quem você divide o lanche e seus primeiros segredos. É dela que você vai colar, se precisar. É dessa pessoa que você vai se lembrar quando ouvir a palavra escola na idade adulta.

3 – Amizade de trabalho
Fonte: Tumblr
Aquele tipo de amizade que pode começar por que ambas as pessoas não gostam de alguém em particular, ou até por gostarem de coisas parecidas. Passamos grande parte dos nossos dias trabalhando, são o tipo de amigos que vira segunda família fácil. Aqueles amigos que fazem o churrasco no fim de semana. Muito café e reclamações envolvidos, além daquelas conversas por olhar que só vocês entendem.

4 – Amigos com benefícios
Fonte: Tumblr
Aquele amigo que é um algo mais. Que rola uma troca de olhares, uma atração divertida. Vocês riem o tempo todo, e estão sempre encontrando uma desculpa para encostar um no outro. Pode evoluir para outro tipo de relacionamento, lógico, mas no geral é apenas uma confiança mútua que vem facilmente.

5 – Melhor amigo
Fonte: Tumblr
Esse te surpreende, pois pode ser qualquer um dos listados acima, ou nenhum. Pode ser um esbarrão na padaria, ou um colega do cursinho de inglês. Um dia a pessoa é um desconhecido, e na outra ela tem um prédio inteiro construído no nome dela dentro do seu coração. É aquele amigo que vai conhecer sua família, roubar da sua comida e pegar suas roupas emprestadas para sempre, e você não vai se incomodar. É o amigo que vai deixar os outros amigos com ciúmes, e você não vai fazer nada para se explicar. É o amigo que é porque é, e se te pedirem para explicar, você não sabe o que dizer.
                Amizade é energia capaz de gerar mais energia. É impulso, que joga para frente, segura e pulsa e deixa que as forças se misturem. É compartilhar pedaços de nossa vida com outro alguém, sem que se cobre nada do mesmo, e nem se coloque pressão sobre o outro. É criar um filme de memórias preciosas, uma das formas de combater o egoísmo. É conhecer o mundo sob um ponto de vista diferente, mesmo que seja próximo ao próprio. A força da amizade faz com que haja sempre uma mão para te segurar quando o abismo se aproxima.
                É claro, há pessoas que não acreditam nela, ou que confundem suas fundações e conceitos. Daí temos os abusos, as traições, e tudo o mais que o ser humano é capaz de fazer. Mas antes de tudo isso, existe a luz da amizade. Nada mais instintivo do que encontrar um desconhecido e permitir que nosso coração julgue se aquela pessoa é alguém para se unir ou se afastar. E quando notamos aquele estranho já ocupa um lugar em nossas vidas, e não mais é um estranho. É a pessoa em quem pensamos quando queremos ir a algum lugar, ou compartilhar uma notícia ou emoção. Às vezes nos surpreendermos por conhecer alguém por anos, antes de aprofundar uma amizade com esta mesma. Amizade acontece na hora certa, da forma certa. É um caminho que pode ser adiado, mas não cancelado.
                Amizade é destino, é milagre, é energia e calor. Muitos dizem ser cármico. Já outros, reencontro espiritual. A única forma de saber se uma amizade real é não saber explicar o porquê de ela existir. Pois, amizade de verdade não precisa de porquês, não carece de motivos, explicações ou reflexões. Apenas é. Não há interesse egoísta, não há obrigações e sim instinto e fluência. Amizade é sol em meio à tempestade, é chuva no deserto, é água na sede, repouso no cansaço, alívio na dor.
                Não perca mais tempo. Espalhe a semente da sua por aí, pois, com ela, vem maravilhas e surpresas, aprendizados e realizações além do imaginável. Acredite, nunca se perde ao escolher alguém para chamar de amigo...

-A. Rodrigues

O mandamento, ou conselho, maior; aquele que deveria governar todos os outros; se perdeu. Uma prática que, de tão simples, não consegue ser praticada: amar ao próximo como a ti mesmo. Amar o próximo o suficiente para respeitá-lo e permiti-lo sê-lo quem é. Amar o próximo o suficiente para não  ser capaz de torturá-lo a ponto de fazê-lo odiar a si mesmo. Esse amor, genuíno e fraternal, que é dito, repetido, e pregado, existe, muitas vezes,  só no discurso. Quando é hora de praticar, existe uma exclusão: se o próximo for homossexual, nao vai dar para amá-lo. Mas por que? 


Sobre essa prepotência em achar que se pode escolher quem é digno ou não de amor, escreve o ex Padre Krzystof Charamsa em seu livro " A primeira pedra. Eu, padre gay, e minha revolta contra a hipocrisia da Igreja Católica". Além de abordar a homofobia sofrida pelas pessoas homossexuais por parte da comunidade não-cristã, Charamsa, destaca, primordialmente, a crueldade da Igreja Católica para com essas pessoas. O livro não é escrito por um leigo, todo o discurso do autor é embasado cientifica, historica e sociologicamente, além de ter todo o peso de ser escrito por alguém que conhece a Igreja Católica minuciosamente e que, portanto, tem pleno domínio para falar sobre o assunto. Krzystof Charamsa, além de padre e professor em Universidades Católicas, trabalhou diretamente para o Santo Ofício da Igreja (saindo em 3 de outubro de 2015). Um padre que construiu carreira dentro da Igreja, trabalhou fielmente, para, então, perceceber que jamais seria aceito por essa mesma igreja. 


Unida com toda a poesia e sinceridade presentes no livro, está uma reflexão valiosa sobre o estudo de gêneros e a importância do entendimento acerca da homossexualidade, a desmitificação sobre o poder  de julgamento acerca sexualidade alheia. O autor discute que a homossexualidade, apesar de estar diretamente ligada à sexualidade, vai muito além disso: é a essência de alguém como um todo, não uma preferência ou uma inclinação à perversão. De muitas frases marcantes presentes no livro, escolho essa para resumir bastante do que é dito no livro e convidar a todos vocês, meus leitores, a uma reflexão: "Dos outros se herda a homofobia; a homossexualidade é dada". 



Em apoio ao seu discurso que criminaliza, com razão, o repúdio às pessoas homossexuais, o autor ressalta vários problemas e contradições dentro da Igreja: a falta de amor, a competição venenosa entre as pessoas, a falsidade, a grande quantidade de padre gays existentes dentro da igreja, o alto número de menores e freiras abusados por padres. Ainda assim, ao contrário do que se pode pensar, existe um discurso espiritual muito forte e sensível no livro. A ideia de um Deus justo e amoroso, que não julga e nem apedreja se sobressai à ideia de um Deus punidor muitas vezes disseminada pela Igreja. Dentre toda a hipocrisia citada pelo padre, ele menciona a resistência do alto clero com relação ao atual Papa Francisco - que é considerado muito liberal e um "progressista irresponsável". Traz diversos trechos de discursos do atual Papa em contraponto com atitudes crueis do Clero. 


Tentando não correr o risco de estragar a surpresa do livro, me limito a dizer que é um livro manifesto; divisor de águas entre os tempos. É um manifesto em nome da insustentabilidade da homofobia. É um livro delicado, escrito por alguém que cansou de escrever sua vida nas entrelinhas. Um livro escrito como uma revolução para aqueles que nunca tiverem direito de existir, aqueles que sempre foram torturados, julgados, humilhados e maltratados. É preciso, sim, falar sobre sexualidade e estudo de gêneros. É preciso repeitar e dar voz aqueles que sempre foram amordaçados. Não basta acolher, igreja, tem que aceitar. Não existe cura gay, homossexuais não estão doentes, adoecida está uma sociedade que distorce o discurso, de alguém que jamais julgou alguém, dito há 2000 anos atrás. Ninguém tem o direito de julgamento sobre a sexualidade de ninguém. Se um casal homossexual te incomoda, quem deve procurar ajuda médica é você. Quem sabe você não vem engolindo pílulas de discurso de ódio a vida inteira sem questionar? 


INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO:
autor: Krzystof Charamsa
editora: Seoman - Grupo Editorial Pensamento
ano: tradução, 2017
minha nota: 10

Com todo o meu amor, 
Ane Karoline