domingo, 12 de março de 2017

O que não me contaram sobre o amor

imagem: pinterest

Saindo de um edifício cheio de gente e descendo, apressada, a escadaria, eu o encontraria. Eu esbarraria nele e o observaria, com olhos apaixonados, me ajudar a recolher meus livros do chão. Achei que seria assim, de supetão, de repente, num tiro certeiro, num golpe fatal,  que o amor me encontraria. Imaginei que ficaria cega e louca de amor. Conjecturei diferentes maneiras e ensaiei reações para o dia em que seria arrebatada e teria minha vida transformada assim, de súbito. 

Perdi as contas de quantas escadarias, abarrotadas de gente, subi e desci. Várias outras vezes, deixei os livros caírem no chão e os recolhi sozinha. Tenho acordado, um dia após o outro sem que nada me tome de susto, nenhum aperto maluco no peito e nem taquicardia. Nada de colossal, nada de surpreendente me encontrou num baque inesperado.

Segui esperando que o tiro da flecha do cupido, um dia, me encontrasse com a esperança de quem foi formada em todos os filmes da Disney e livros do Nicholas Sparks. Acontece que nada de extraordinário aconteceu até que percebi que meu conceito de extraordinário era, no mínimo, ordinário: eu estava esperando por uma tempestade que nunca viria enquanto, tão claramente, não percebia que chuvisco também refresca- aos pouquinhos.

Hoje, acordei amando. O susto que eu levei não foi por ter sido tomada de assalto pelo amor. O assombro que me tomou foi por não ter visto um Sol que nasce todo dia: estou amando há muito tempo mas, de tão simples, não reconheci o amor. Quero dizer que o amor não é coisa de um dia, de um só olhar, nem de um só toque. Amor chega caminhando suavemente através de músicas compartilhadas, de ligações despretensiosas, de muitas tardes regadas por conversas desimportantes. O amor vai criando raízes dentro da gente através de sorrisos, gargalhadas, olhares confidentes e beijos na testa. O amor não nos atira contra a parede, não grita e, quando tem que chorar, chora. O amor não invade o peito, porque amor não é invasivo, ele é convidado e vai se aconchegando no peito da gente até fazer parte de quem a gente é.  E é por isso que o amor, vez em quando, demora a ser reconhecido: fica plantadinho confortavelmente dentro da gente, sem se exibir.

O cupido e sua flechada certeira, capaz de cegar, que me desculpem, mas coisa mais maravilhosa que o processo gradativo do amor, não há. Muito me encanta esse processo de amor contínuo, construído  diariamente com gestos de cuidado e carinho. Acho que sorte é isso:  acordar com um amor tranquilo alojado no peito da gente.

com amor,
Ane Karoline.