domingo, 16 de abril de 2017

Até onde vai a sua empatia?

imagem: pinterest


De pequenas estorinhas é que se constrói a história da vida de alguém. Mas e as estórias de uma escritora são construídas de quê? Quando pequena, digo, criança - porque pequena seguirei sendo durante toda a minha existência - me parecia uma coisa simples: escritor inventa um monte de coisas para dizer alguma coisa para a gente, né? É. Aliás, é também, mas não só. Agora, mesmo sem ter certeza de muita coisa, percebo que escritor escreve mais é para si mesmo e é esse o ponto da confusão: no fim das contas, os seres humanos são todos atulhados de um monte de maluquices, diferentes mas, no fundo, iguais. Ou seja, se alguém vai lá e escreve umas linhas tortas, para desentulhar a cabeça, as chances são muitas de os outros seres atulhadinhos se identificarem. Percebe? Essa é a magia e a desgraça da coisa.

A desgraça é que há um perigo em escrever: a gente diz uma coisa X e meio mundo de gente vai entender Y e Z. É bonito? É. Mas o problema é se perder no meio do caminho e acabar achando que o outro disse o que eu entendi. O que a gente entende do que foi dito não é, necessariamente, o que foi dito. E que disse me disse é esse? Vou exemplificar com Clarice, que é minha companheira de cabeceira desde  a adolescência. 

Eu, lendo Clarice, via as palavras inventadas e bem organizadas dela com reverência e acreditando que tudo ali tinha sido escrito para mim. O negócio é que Clarice fala um tanto do Divino e eu, feita e criada no berço Cristão, só conhecia Deus Pai-Filho-Espírito-Santo. Encasquetei que Clarice falava era de Jesus, em um determinado ponto até chorar chorei. Me achava toda toda no direito de citar a Clarice dizendo isso e aquilo de Deus (do meu Deus, no caso). Acontece que dia desses, lá pelas tantas da noite, eu que já estou lá pelas tantas da vida, fui citando sei lá o quê e me jogaram no chão: mas Clarice não era Judia? Argumentei para lá e para cá com uma conversa de universal e logo tiraram meu cavalinho da chuva, me jogaram logo a melhor pergunta: onde foi que ela disse isso? Engoli em seco: e eu lá sabia? De onde é que tinha vindo essa confusão, em nome de tudo que é mais sagrado? Não demorou muito, contra vontade, percebi que eu estava fazendo confusão por estar compreendendo Clarice a partir das minhas referências, dos meus sentimentos, de mim; e não a partir do que, realmente, ela havia dito.  

Depois, como a gente faz e recebe de volta, virei Clarice. Escrevi umas linhas sobre coisa minha e logo vi o rebuliço se instalar: tirei um peso do meu coração e parece que saiu atingindo meio mundo de gente que nem bomba nuclear. Já saiu achismo e teoria de tudo quanto é lado para texto meu, desses bobos mesmo. Acho é coisa bonita esse negócio de envolvimento com a literatura, mas se for para ferir gente quero logo deixar claro que quando a confusão acontece é porque tem confusão dentro da gente, nem sempre é o que o outro disse. O perrengue é que a gente acha que "achar" é argumento. Aconteceu comigo, aconteceu com Clarice, aconteceu com você e vai continuar acontecendo porque, na verdade,  " eu acho" não é argumento nenhum. A gente pode achar um monte de coisas: achar coisa perdida, achar bonito, achar feio, achar esquisito, achar que feminismo é desnecessário, achar que racismo não existe, achar que o menino pobre é culpado da vida que leva, achar que é a raiz quadrada de 9 é 2.  A gente pode até ir além do achar, pode adotar uma ideia como verdade mas isso não a torna verdade. O problema não é adotar uma premissa, um achismo, uma opinião como verdade; o problema é não assumir a responsabilidade disso.

Essa não foi a primeira e nem vai ser a última vez - nem comigo e nem com Clarice, se é que posso nos colocar na mesma frase. Mas vou insistir aqui em fazer esse manifesto literário e de convivência: de agora em diante, que tal responsabilizar as pessoas só pelo que elas de fato disseram ao invés de responsabilizá-las pela forma como isso chega em nós? A gente sabe que tem lá nossas implicâncias e razões, algumas vezes até inconscientes, para distorcer os discursos dos outros. Sorte que para essa confusão tem remédio, basta lembrar que empatia é se colocar no lugar do outro desde que isso não implique em falar por ele/ela. Empatia também é defender o espaço de fala do outro, sem colocar minha voz lá. 

Com amor, 
Ane Karoline